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Coesão do Governo alemão abre brechas

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JOHN MACDOUGALL / Getty Images

Wolfgang Schäuble comparou a uma avalanche a chegada de um milhão de refugiados à Alemanha numa crítica direta à decisão política de Merkel de lhes abrir as portas do país. Ministros do SPD defendem a chanceler afirmando que é imperioso pôr em marchas as decisões "tomadas em conjunto"

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

"As pessoas em situação de emergência não são uma catástrofe da natureza", declarou hoje o ministro da Justiça alemão, Heiko Maas, em resposta às declarações que o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, fez na quarta-feira à noite, em Berlim, quando comparou o milhão de refugiados que a Alemanha acolherá até ao final do ano a uma avalanche: "As avalanches podem ser desencadeadas quando um esquiador descuidado ao descer a montanha altera um pouco a neve", disse Schäuble.

Reagindo com evidente choque, Maas, político do parceiro de coligação social-democrata SDP, acrescentou que o debate sobre a questão dos refugiados "deve ser conduzido com muita cautela", cita o "Spiegelonline". Schäuble disse ainda não se saber em que "ponto da avalanche" se está neste momento - se toda a neve já terá caído ou ainda virá a cair -, fazendo deste modo uma comparação longe de subtil com a decisão política tomada pela chanceler em setembro de abrir as portas a milhares de refugiados presos na Hungria.

Respondendo às declarações de Schäuble, que é considerado um dos mais leais companheiros do núcleo duro do partido de Angela Merkel, a União Democrata Cristã, CDU, Maas disse: "Ninguém deve ocultar nem disfarçar as dificuldades, mas de igual modo não se deve usar as palavras para atirar gasolina para a fogueira". O ministro da Justiça argumentou que era tempo de "aplicar as decisões tomadas em conjunto (pelos dois partidos da coligação governamental, os democratas-cristãos da CDU e os social-democratas do SPD) de forma consistente e com rapidez".

"Nada", responderia o vice-chanceler e líder social-democrata quando lho perguntaram, numa conferência de imprensa convocada para reagir às declarações de Wolfgang Schäuble. "Eu não escolheria tal comparação", disse Sigmar Gabriel após uma pausa, cita o site da revista "Der Spiegel".

Críticas internas

As críticas denotam uma cisão interna na CDU uma vez que os conservadores do partido estão a exigir uma mão mais firme na gestãoda crise dos refugiados. Apesar de a sua liderança não estar em causa, o "Politico" argumenta que os desafio abertos à autoridade da chanceler pela parte de elementos do topo da hierarquia governativa "refletem as crescentes dificuldades que ela enfrenta em manter não só a Alemanha, mas também o seu próprio partido, do seu lado".

Os meios de comunicação alemães restringem-se mais aos factos do que às interpretações, dando a palavra aos seus entrevistados: "Merkel instalou o caos", declarou hoje o líder da FDP (partido liberal que pela primeira vez não faz parte da coligação governativa desde 1949) numa entrevista ao "Zeitonline". Christian Bangel aproveitou a polémica para acusar a chanceler de "atrair os refugiados para a Alemanha, alienando os europeus e dividindo o seu próprio partido". Bangel criticou ainda o facto de Angela Merkel ter confiado demasiado na solicitude dos cidadãos para acolherem os refugiados e menos nas medidas governativas, o que não poderá continuar para sempre, disse ao site do jorrnal "Die Zeit". O líder da FDP juntou-se deste modo às críticas feitas ao longo da semana passada por Horst Seehofer, o líder da União Democrata Social - CSU - partido irmão da CDU.

A Alemanha cumpre hoje o últio de três dias de luto pela morte do ex-chanceler Helmut Schmidt, desaparecido na quarta-feira passada. Novembro é uma data sensível para a chanceler, que completa no dia 22 dez anos à frente da chancelaria. Adensa-se ainda a pressão para fazer o balanço dos primeiros meses de acolhimento de quase 800 mil refugiados e migrantes.