Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Barbárie do Estado Islâmico origina protesto histórico no Afeganistão

  • 333

Afegãos de várias origens étnicas protestaram, a uma só voz, contra a violência do Daesh

© Reuters

Sete afegãos da minoria hazara foram decapitados por homens afetos ao autodenominado Estado Islâmico. Em Cabul, esta quarta-feira, hazaras, pashtunes, tadjiques e uzebeques uniram-se num protesto unânime pouco comum naquele país fortemente tribal. Um hazara disse ao Expresso ser este “o primeiro protesto nacional no Afeganistão em mais de 30 anos”

Margarida Mota

Jornalista

Milhares de afegãos protestaram, esta quarta-feira, nas ruas de Cabul contra a decapitação de sete pessoas de etnia hazara às mãos do autodenominado Estado Islâmico (Daesh), cada vez mais presente no país.

Transportando os caixões das vítimas — quatro homens, duas mulheres e uma criança, “decapitados com arame farpado”, escreveu a Al-Jazeera —, os manifestantes desfilaram em cortejo na direção do palácio presidencial para exigir justiça e a contenção da escalada da violência.

Wahid, um hazara de 27 anos, bem poderia estar entre os manifestantes, não tivesse sido obrigado a fugir do país em abril passado. “Saí numa altura em que havia muitos raptos a visar os hazaras”, conta ao Expresso. “Por três vezes, vi homens suspeitos a rondar a minha casa e a zona onde vivo e senti que também podia ser raptado. Aproveitei o início de uns combates e fugi. Pensei: ‘Se eles conquistarem a zona onde vivo podem facimente invadir a minha casa e fazer o que bem quiserem’.”

O afegão vivia na província de Wardak, vizinha à de Ghazni, onde os sete hazaras massacrados desapareceram. Atualmente, vive em Nova Deli (Índia), onde luta pela atribuição do estatuto de refugiado junto do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Wahid vai acompanhando, nas notícias, o drama de milhares de refugiados (muitos deles afegãos) que, de barco ou a pé, tentam entrar na Europa. “Não pude correr esse risco, por causa da Enarah. De outra forma, também teria ido.” Enarah é a filha de dois anos, que vive consigo e a mulher, em Nova Deli.

Minoritários e discriminados

Os hazaras são uma etnia minoritária no Afeganistão. De credo ismaelita (um braço dos xiismo), sofrem, no dia a dia, situações de discriminação por parte de afegãos oriundos de grupos étnicos maioritários. “Ao abrigo da Constituição do país, todas as etnias têm os mesmos direitos. Mas isso não é aplicado. Nós, hazaras, estamos em minoria e sentimo-nos discriminados. Apenas podemos viver em áreas específicas”, exemplifica Wahid.

“E temos menos hipóteses de conseguir um trabalho. Se precisarmos da assinatura de alguém dos serviços num determinado formulário, temos mais dificuldades para o conseguir, ou então temos de recorrer a subornos. Há uma enorme discriminação, sobretudo porque temos um credo diferente.”

Embora o grupo seja contemplado pelo sistema de quotas estabelecido, por exemplo, para a composição das forças de segurança. Como o Expresso constatou durante uma reportagem realizada em 2011 no Afeganistão, nas instalações militares sobram para os hazaras “trabalhos menores”, como as tarefas da limpeza ou o serviço de chá e café, por exemplo.

Condenação nacional

Segundo a Al-Jazeera, entre os manifestantes, esta quarta-feira, em Cabul havia, para além de hazaras, muitos pashtunes, tadjiques e uzebeques. “É o primeiro protesto nacional no Afeganistão em mais de 30 anos”, afirma Wahid.

Muitos “vieram de lugares distantes”, afirmou o chefe da polícia da capital, Abdul Rahman Rahimi. “Estamos a tentar que a manifestação não se torne violenta.”

Numa comunicação ao país, onde apelou á calma, o Presidente afegão, Ashraf Ghani, disse: “O inimigo está a tentar minar a nossa unidade”, acrescentando que “as forças de segurança do país são compostas por todos os grupos étnicos”.

Os sete cadáveres foram descobertos por talibãs, na região de Arghandab, província de Zabul (sul). Os “estudantes” entregaram-nos a anciãos da província vizinha de Ghazni, onde as vítimas foram raptadas há mais de um mês.

“Morte ao Estado Islâmico”

Precisamente em Ghazni, na terça-feira, manifestantes saíram à rua, acompanhando uma carrinha que transportava os caixões cobertos com bandeiras afegãs. “Morte ao Estado Islâmico”, ouviu-se.

“Queremos justiça não apenas para eles mas para milhares de outros inocentes que são mortos tão brutalmente, quase todos os dias”, afirmou à Al-Jazeera um manifestante, Ismail Khanjar. “Não queremos saber se eram xiitas ou não. São seres humanos e foram mortos daquela forma bárbara. Que crime cometeram?”

O Daesh irrompeu no Afeganistão em 2014. Desde então, a situação dos hazaras tem piorado consideravelmente, com várias notícias de raptos coletivos. Porém, no Afeganistão, a perseguição a esse grupo étnico é antiga. Durante os anos 90, milhares foram mortos pela Al-Qaeda e pelos talibãs (que à semelhança do Daesh são fundamentalistas sunitas).

Atualmente, “eles estão concentrados no sul do país, mas estão a tentar ganhar influência no norte”, diz Wahid.
Na semana passada, um grupo dissidente dos talibãs designado Alto Conselho do Emirado Islâmico do Afeganistão anunciou a eleição de um líder próprio, num aparente ato de desafio ao novo líder dos talibãs Mullah Akhtar Mansoor. “Aos poucos”, concorda Wahid, os talibãs vão ficando ainda mais radicais.