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Leste da Ucrânia à beira do caos humanitário

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O conflito entre as tropas ucranianas e rebeldes pró-russos deixou um rasto de destruição no leste ucraniano

REUTERS

O Governo ucraniano ameaça parar a retirada de armamento caso os rebeldes continuem a violar o cessar-fogo. Indiferentes a estas manobras bélicas, as populações, que regressaram entretanto às suas casas, sobrevivem com quase nada

Dois meses depois do renovado cessar-fogo no leste da Ucrânia, a região continua mergulhada numa grave crise humanitária que poderá ver-se agravada com a chegada do inverno.

As marcas da guerra e as constantes violações às tréguas estabelecidas a 1 de setembro deste ano continuam a assombrar as populações que resolveram regressar às suas casas.

Um pouco por todo o leste, os edifícios destruídos recordam a violência dos bombardeamentos. Os combates entre as forças ucranianas e os separatistas pró-russos nas regiões de Donetsk e Lugansk mataram mais de 8000 pessoas desde abril de 2014.

Muitos dos deslocados que regressaram às suas habitações nestes últimos meses encontraram cidades-fantasma. Os mais afortunados deram com as suas casas de pé, parcialmente destruídas; outros encontraram apenas uma pilha de escombros.

Por todo o lado, pequenas lojas tentam sobreviver como podem. Nas prateleiras, quase vazias, falta quase tudo excepto ovos, farinha, leite, massa, arroz e vodka. A escassez de alimentos é agravada pela falta de serviços de saúde, medicamentos, eletricidade, e mesmo de abrigos para enfrentar o duro inverno que se aproxima.

60 mil pessoas em risco

Organizações humanitárias no terreno, como a Cruz Vermelha, redobram esforços para tentar apoiar as populações, ainda que muitas tenham sido expulsas da região pelos separatistas, como os Médicos Sem Fronteiras e a UNICEF.

“Estamos preocupados com a dificuldade em aceder a zonas não controladas pelo Governo”, disse a responsável pela UNICEF na Ucrânia, Giovanna Barberis, ao weblog norte-americano Mashable.

“Sabemos que há 60 mil pessoas sem acesso a cuidados de higiene, comida e equipamento médico”, denunciou Barberis.

A restrição à presença de instituições com a UNICEF representa também o fim da ajuda psicológica a cerca de 30 mil crianças afetadas pelo conflito, e ameaça a educação de outras 200 mil.

Perante o cenário de caos na região, os rebeldes - que em setembro passado expulsaram agências das Nações Unidas e outras ONG internacionais - permitiram entretanto o regresso de alguns operacionais da ajuda humanitária ao território.

Stephen O`Brien, sub-secretário-geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários e Socorro de Emergência, chegou a Donetsk no início da semana para discutir a situação humanitária e o apoio às populações.

O responsável da ONU encontrou-se na segunda-feira passada com o primeiro-ministro ucraniano, Arseniy Yatsenyuk, como o próprio anunciou na sua página do Twitter, e no decorrer da semana terá visitado as cidades de Donetsk, Debaltseve e a aldeia de Tsentralne, algumas das zonas mais fustigadas pela guerra.

Retirada de armamento ameaçada

Esta quarta-feira, o Governo ucraniano deu um sinal de impaciência perante as constantes violações ao cessar-fogo, que os rebeldes também denunciam. No meio de constantes trocas de acusações, o responsável pelo Conselho da Defesa e Segurança da Ucrânia, Oleksander Turchynov, acusou os separatistas de desrespeitarem o cessar-fogo em nove ocasiões, em apenas 24 horas.

“Se estas provocações continuarem... as armas [ucranianas] serão imediatamente recolocadas nas zonas onde estavam anteriormente”, ameaçou, dando a entender que a retirada de armamento do exército ucraniano da frente de combate poderá estar comprometida.

O líder dos rebeldes, Alexander Zakharchenko, responsabiliza, por seu lado, as tropas ucranianas de porem em risco o cessar-fogo. “São quase diárias as provocações das forças ucranianas”, disse à agência DAN.

  • Ucrânia retira armamento pesado de Donetsk

    Segundo o porta-voz militar da presidência ucraniana, a trégua, que entrou em vigor no começo de setembro, foi respeitada “de forma exemplar” nas últimas 24 horas e que “nem um só soldado ucraniano morreu ou ficou ferido”