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Estado Islâmico. Ex-reféns revelam o sofrimento antes do resgate

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Saad Khalaf Ali fez parte do grupo dos 69 prisioneiros que foram resgatados pelas forças especiais norte-americanas e curdas

AZAD LASHKARI

Na madrugada de 22 de outubro, uma quinta-feira, as forças especiais norte-americanas e curdas libertaram, no norte do Iraque, cerca de 69 pessoas de uma prisão na região de Hawija, na província de Kirkourk. Três dos reféns revelam agora o tormento físico e psicológico de que foram vítimas, enquanto estiveram sequestradas pelo Estado Islâmico

Numa instalação de segurança na cidade de Erbil, capital regional curda, Saad Khalaf Ali recorda a última coisa que pensou enquanto membros do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) tentavam sufocá-lo com um saco de plástico. Lembrou-se da família, das suas duas mulheres e filhos. Depois, tudo ficou escuro. Ao recuperar os sentidos, Saad deparou-se com uma realidade bem diferente. O iraquiano tinha acordado numa prisão, no norte do Iraque.

O antigo polícia, de 32 anos, é um dos muitos iraquianos que foi vítima do Daesh, que tortura ou executa quem se apresente como adversário às ideologias e objetivos da organização. Em entrevista à agência Reuters, Saad contou que conseguiu resistir aos castigos infligidos, mas não suportou a pressão psicológica.

Quando os militantes do grupo extremista ameaçaram matar toda a família de Saad, o ex-polícia confessou ter informado as forças curdas e iraquianas a respeito das posições do Estado Islâmico, uma ação frequentemente punível por decapitação ou a tiro à queima-roupa.

“Eu confessei tudo”, revelou o iraquiano, citado pela Reuters. Saad foi presente a um juiz que lhe atribuiu a sentença de morte. A execução ficou marcada para 22 de outubro.

Saad Khalaf Ali, de 32 anos, foi condenado à morte pelo Estado Islâmico, por ter revelado às forças curdas e iraquianas informações sobre a posição do grupo radical jihadista

Saad Khalaf Ali, de 32 anos, foi condenado à morte pelo Estado Islâmico, por ter revelado às forças curdas e iraquianas informações sobre a posição do grupo radical jihadista

AZAD LASHKARI

Presioneiro numa sala sem janelas

Ahmed Mahmoud Mustafa, de 31 anos, também foi capturado pelo grupo radical jihadista. Esteve preso numa sala sem janelas, com mais 38 pessoas. Segundo as regras, todos deviam permanecer em silêncio, rezar cinco vezes por dia, e ler textos islâmicos fornecidos pelos terroristas. As refeições consistiam em algo como batatas, lentilhas e tomate. A dor e as lamentações tinham que obrigatoriamente mudos.

Ahmed explicou, em entrevista à agência de notícias, que todos os movimentos eram controlados através de câmaras de vigilância, que estavam no compartimento. Os reféns eram obrigados a assistir a vídeos de decapitações protagonizadas pelos jiadistas, sem que pudessem desviar o olhar, se o fizessem sofreriam as consequências.

Na mesma sala, estava Mohammed Abd Ahmed, que meses antes tinha sido chicoteado 50 vezes, tudo porque criticou os militantes. Os dois homens foram acusados de espionagem e interrogados individualmente.

Ahmed e Mohammed explicaram que no interrogatório é apresentada uma pasta, sendo que existe uma para cada prisioneiro, onde estão descritos detalhadamente os crimes praticados pelo acusado. Depois, a pasta é entregue a um juiz, que determina a sentença.

No interrogatório, por não suportar mais as torturas, Mohammed acabou por declarar-se culpado, justificando que a negação só iria prolongar o sofrimento e adiar a inevitável morte. Ao admitir a culpa, foi-lhe perguntado se preferia ser decapitado à frente ou atrás. Mohammed respondeu: “Isso cabe a vocês”.

Ahmed e Mohammed também foram capturados pelo Estado Islâmico, tendo sido resgatados a 22 de outubro numa missão liderada pelas forças especiais curdas, com o apoio dos Estados Unidos

Ahmed e Mohammed também foram capturados pelo Estado Islâmico, tendo sido resgatados a 22 de outubro numa missão liderada pelas forças especiais curdas, com o apoio dos Estados Unidos

AZAD LASHKARI

Últimos desejos

Saad estava detido numa divisão diferente de Ahmed e Mohammed. A 21 de outubro, quarta-feira, tomou conhecimento de que seria o próximo a ser executado.

Ao sentir que não podia lutar pela vida, o antigo polícia disse à agência que, por falta de papel e lápis, utilizou um prego para gravar os seus últimos desejos num calendário de oração muçulmano.

A mensagem, endereçada ao sobrinho, era curta. Saad pediu ao familiar que cuidasse da família e identificou os dois homens que o tinham denunciado, com o intuito de que a morte pudesse ser vingada. Depois disso, o iraquiano confessou ter passado as últimas horas a rezar, ao mesmo tempo que chorava incontrolavelmente.

O resgate da esperança

Na madrugada de 22 de outubro, o som de helicópteros anunciaram o fim da provação de Saad, de Ahmed e Mohammed, assim como de mais 66 pessoas. Num movimento inédito, as forças especiais curdas, com o apoio dos Estados Unidos, invadiram a prisão situada na região de Hawija, na província de Kirkourk.

“Não tenham medo, viemos libertá-los”, foram as palavras de um dos soldados ao entrar na sala, contou Saad à Reuters.

A missão envolveu ataques aéreos e tinha como objetivo libertar os prisioneiros, que estavam sob risco de iminente execução. Dos 69 resgatados, cerca de 20 eram membros das forças especiais iraquianas. Cinco elementos do Estado Islâmico foram capturados, sendo que outros foram mortos durante a operação, que também provocou a morte de um soldado americano.