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Por que jogam equipas israelitas nas provas da UEFA?

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Adeptos do Maccabi de Telavive, durante um jogo da Liga dos Campeões

© Gil Cohen Magen / Reuters

Faz fronteira com a Síria e com o Egito, mas goza, a nível futebolístico, de um estatuto europeu. Israel disputa o Campeonato da Europa a nível de seleções e os seus clubes competem nas provas da UEFA, como o confirma o jogo desta quarta-feira entre Maccabi de Telavive e FC Porto

Margarida Mota

Jornalista

A cada nova época desportiva, já poucos estranham a presença de equipas israelitas nas provas organizadas pela UEFA. É assim desde 1992, ano em que Maccabi de Telavive e Hapoel Petah-Tikva fizeram história ao tornarem-se os primeiros clubes israelitas a participarem nas competições europeias.

Criado em 1948, Israel herdou dos britânicos, que detinham o mandato da Palestina, o entusiasmo pelo futebol — hoje, o desporto mais popular entre os israelitas. Correspondendo à sua localização geográfica, em 1954, o país aderiu à Confederação Asiática de Futebol, estatuto que duraria apenas 20 anos.

Cedo, a participação desportiva israelita começou a ressentir-se de atitudes de boicote por parte de equipas adversárias, que se recusavam a defrontar os israelitas.

Vencer sem jogar

Em 1958, essa animosidade levou a um episódio bizarro: durante a fase de qualificação para o Mundial da Suécia, Israel garantiu o apuramento sem ter disputado um único jogo. Turquia (que hoje também disputa as provas da UEFA), Indonésia e Sudão recusaram jogar contra Israel. Para contornar o embaraço, a FIFA organizou um “play off” entre Israel e o País de Gales. Israel perdeu as duas partidas por 2-0.

Igualmente, em 1964, quando Israel recebeu e venceu a Taça Asiática, o feito foi ensombrado pelo facto de 11 dos 16 países participantes se terem retirado da competição. Israel ganharia o torneio triunfando apenas contra Índia, Coreia do Sul e Hong Kong.

Mal foi conhecido que o FC Porto ia defrontar o Maccabi de Telavive, multiplicaram-se apelos, na imprensa argelina e nas redes sociais, para que o argelino Yacine Brahimi recusasse defrontar os israelitas. “A decisão final sobre as minhas deslocações profissionais cabe a mim e ao FC Porto”, escreveu Brahimi no Facebook. No Dragão, Brahimi marcou um dos golos da vitória do Porto sobre o Maccabi. Uma lesão entretanto diagnosticada resolveu o dilema relativo à sua deslocação a Israel

Mal foi conhecido que o FC Porto ia defrontar o Maccabi de Telavive, multiplicaram-se apelos, na imprensa argelina e nas redes sociais, para que o argelino Yacine Brahimi recusasse defrontar os israelitas. “A decisão final sobre as minhas deslocações profissionais cabe a mim e ao FC Porto”, escreveu Brahimi no Facebook. No Dragão, Brahimi marcou um dos golos da vitória do Porto sobre o Maccabi. Uma lesão entretanto diagnosticada resolveu o dilema relativo à sua deslocação a Israel

© Miguel Vidal / Reuters

A convivência de Israel no seio da Confederação Asiática de Futebol complicou-se definitivamente após a eclosão da guerra do Yom Kippur, em 1973, a quarta israelo-árabe. Durante os Jogos Asiáticos do ano seguinte, disputados em Teerão (ainda no Irão reinava o Xá Mohammad Reza Pahlavi), Kuwait e Coreia do Norte recusaram defrontar Israel.

Os israelitas chegariam à final, que perderiam por 0-1 para os iranianos (um jogo impossível de se realizar na atualidade). Porém, o mérito desportivo sucumbiria à contestação política e Israel seria expulso da Confederação Asiática em 1974.

Durante os anos 80, a seleção israelita jogou a maioria dos jogos contra equipas europeias, disputou na Europa a qualificação para o Mundial de Espanha (1982) e na Oceânia o acesso aos dois torneios seguintes (México 86 e Itália 90).

Casa emprestada por causa da guerra em Gaza

O futebol israelita recuperaria a estabilidade competitiva em 1992, quando as suas equipas começaram a disputar as provas da UEFA. O país seria admitido na confederação como membro associado nesse ano e como membro de pleno direito dois anos depois.

De permeio, em 1993, a seleção israelita atingiria a glória ao derrotar a França, no Parque dos Príncipes, em Paris, por 2-3, durante a qualificação para o Mundial dos Estados Unidos. (Atualmente, é na zona europeia que a seleção israelita disputa a qualificação para os Mundiais da FIFA.)

Se, em termos políticos, Israel encontrou na UEFA a estabilidade que a dada altura perdeu na Confederação Asiática, a instabilidade crónica que flagela a região do Médio Oriente tem penalizado as equipas israelitas também no seio europeu.

Na última época, por exemplo, por determinação da UEFA, Maccabi de Telavive, Hapoel de Telavive e Hapoel Beersheva tiveram de recorrer a “locais alternativos, fora do território de Israel” para disputar os jogos caseiros da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Um efeito colateral de mais uma guerra na Faixa de Gaza, no verão de 2014.

Palestinianos mostram cartão vermelho

Em maio passado, o conflito israelo-palestiniano chegou ao Congresso anual da FIFA, realizado em Zurique (Suíça). Membro da organização desde 1998 — à semelhança das associações de outras nações não soberanas como Inglaterra, Escócia e País de Gales —, a Associação Palestiniana de Futebol lançou uma petição no sentido da suspensão de Israel.

Então, os palestinianos enumeraram situações que, em seu entender, encerram em si violações dos princípios e da ética da FIFA por parte das autoridades israelitas: restrições à circulação de jogadores e responsáveis palestinianos entre os dois territórios palestinianos (Cisjordânia e Faixa de Gaza); proibição de entrada a adversários internacionais nos territórios ocupados palestinianos; inclusão de equipas oriundas de colonatos nos campeonatos secundários israelitas.

Jibril Rajub, presidente da Associação Palestiniana de Futebol, mostra o cartão vermelho a Israel, durante o 65º Congresso da FIFA, a 29 de maio passado, em Zurique

Jibril Rajub, presidente da Associação Palestiniana de Futebol, mostra o cartão vermelho a Israel, durante o 65º Congresso da FIFA, a 29 de maio passado, em Zurique

© Arnd Wiegmann / Reuters

Jibril Rajub, presidente da Associação Palestiniana de Futebol, acabaria por emendar a moção, retirando a exigência da suspensão de Israel e propondo a formação de um comité internacional que investigue a liberdade de movimentos dos jogadores palestinianos, as acusações de racismo e o estatuto de cinco equipas israelitas sedeadas na Cisjordânia.

A cedência palestiniana foi muito criticada entre os palestinianos. “Isto não quer dizer que eu vou desistir da resistência”, garantiu Jibril Rajub. “Não devemos misturar política e futebol”, contrapôs o delegado israelita, Ofer Eini.

* Este texto baseia-se num artigo escrito por Richard Williams, publicado Sky News Online