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NATO: “Ter forças armadas fortes é a melhor forma de evitar a guerra”

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DISSUASÃO. "A Nato é capaz de defender e proteger todos os seus Aliados contra qualquer ameaça, temos os militares mais fortes do mundo"

A NATO tem andado a resolver crises além-fronteiras mas tem de começar a olhar para o que se passa junto às suas. O alerta partiu do secretário-geral, Jens Stoltenberg, numa altura em que no Sul da Europa decorre o Trident Juncture, o maior exercício militar da última década

Milhares de botas da NATO andarão até ao final da semana pelo sul da Europa nos maiores jogos de guerra realizados nos últimos dez anos. Mas em entrevista exclusiva ao Expresso, o secretário-geral da Aliança Atlântica não identifica “qualquer tipo de ameaça para os Aliados” e garante que este exercício de “alta visibilidade” pretende mostrar que “a NATO (OTAN em português) está preparada para defendê-los e protegê-los”. “Temos os militares mais fortes do mundo e o Trident Juncture está deixá-lo bem claro”, afirma Jens Stoltenberg. E nem mesmo o atribulado desembarque na praia da Raposa, na costa alentejana, na semana passada, onde as viaturas ficaram atascadas, deixa o secretário-geral menos otimista: “Até as melhores forças armadas do mundo podem melhorar.” Esta quinta-feira, Stoltenberg estará em Portugal onde assistirá a uma nova demonstração anfíbia.

Que balanço faz do exercício? Os objetivos estão a ser atingidos?
Este exercício é importante porque é o maior realizado pela NATO em muitos anos e reflete o aumento no estado de prontidão e de preparação das nossas forças. E dá um sinal claro de que a NATO está pronta para defender e proteger todos os seus Aliados contra qualquer ameaça. Reflete ainda a nossa capacidade para trabalharmos em conjunto – a chamada interoperacionalidade –, quer o grupo seja formado apenas por estados-membros, quer nele participem também alguns dos nossos parceiros. E neste exercício participam vários parceiros.

É o caso da Ucrânia…
Da Ucrânia, da Suécia, da Finlândia e é muito bom ver Portugal [país fundador da Aliança Atlântica] como um dos anfitriões deste exercício.

Provavelmente ouviu falar do incidente na Praia da Raposa, em que os veículos norte-americanos ficaram atascados. O que aconteceu? Vê este episódio como uma fraqueza?
Estes exercícios servem para testamos as nossas diferentes capacidades e revelar eventuais pontos fracos. Quando se está a treinar milhares de militares com diferentes capacidades em novos ambientes surgem novos desafios. Essa é uma das principais razões para treinarmos: sermos capazes de aprender e de melhorar.

Se tivesse sido numa situação real, estes fuzileiros poderiam ter morrido...
Somos a maior aliança militar do mundo. Temos os soldados mais competentes do mundo. Temos equipamento de última geração. Mas, repito, como há tantos soldados, tanto equipamento, tantos desafios treinamos para identificar problemas, pontos fracos e fazer algo para os melhorar.

Portanto, isto não voltará a acontecer?
O que estou a dizer é que uma das principais razões para realizar exercícios, para treinarmos, uma e outra vez, é que até as melhores forças armadas do mundo podem melhorar.

Vários observadores russos têm assistido aos exercícios. O que é que quer que eles vejam?
Queremos que vejam que a NATO é transparente, previsível e que respeitamos o direito internacional quando se trata de realizar um exercício militar.
Isto é muito importante, sobretudo numa altura em que temos situações de grande tensão na Europa, onde aumentámos a atividade militar ao longo das fronteiras. É por isso ainda mais importante evitar incidentes e situações perigosas que possam ficar fora de controlo. A NATO continuará a respeitar os compromissos assumidos como por exemplo o acordo de Viena - celebrado em 2011 no âmbito da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) - que obriga à presença de observadores de países vizinhos - em exercícios a partir de 13 mil efetivos.
Já a Rússia [que integra a OSCE] não age da mesma forma e escudam-se em brechas existentes nos acordos, minando a necessária transparência de processos. E não se inibem de realizar exercícios, regularmente e de uma forma cada vez mais intensa, sem avisar ninguém, o que em nada contribui para a necessária credibilidade e transparência. Foi com essa estratégia que anexaram a Crimeia em 2014. Com este exercício queremos mostrar que somos previsíveis e transparentes.

E que estão prontos para o que for necessário?
Claro que sim. Essa é a principal mensagem do exercício.

No caso da Rússia, acha que os canais diplomáticos estão em vias de ficar esgotados?
Não. E penso que uma defesa musculada não é incompatível com o diálogo político. Precisamos de uma defesa forte e previsível para criar as bases do diálogo com a Rússia. E a Rússia tem de compreender que a longo prazo ganhará mais em cooperar com a NATO do que em afrontá-la. Tenho a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, chegará a essa conclusão.

Vladimir Putin está a pressionar a NATO a reagir?
O que estamos a fazer deve ser interpretado como uma resposta a uma Rússia mais assertiva que recorre ao uso da força para alterar as fronteiras na Europa, que destabiliza o Leste da Ucrânia, que investe cada vez mais no sector da Defesa, que utiliza uma retórica típica da era nuclear na sua comunicação estratégica e que realiza exercícios provocatórios. Com tudo isto a única coisa que conseguiram foi uma resposta forte da NATO e da União Europeia: sanções económicas, forças armadas da NATO num estado de preparação e de prontidão mais elevado e em maior número no flanco leste da Aliança.

Então a NATO já está a prevenir o avanço da Rússia?
A NATO é a maior aliança militar do mundo e temos uma enorme capacidade de dissuasão. Não nos podemos esquecer que temos forças armadas poderosas, não porque queiramos combater, mas porque pretendemos evitar a guerra. Ter forças armadas fortes é a melhor forma de evitar a guerra. Neste momento, não identificamos qualquer tipo de ameaça para os nossos Aliados e com este exercício pretendemos mostrar que a Nato está preparada para defendê-los e protegê-los.

Se a Ucrânia fosse membro da NATO, estariam em condições de expulsar as forças russas da Crimeia?
Tal como já disse, a NATO é capaz de defender e proteger todos os seus Aliados contra qualquer ameaça, temos os militares mais fortes do mundo e o Trident Juncture está deixá-lo bem claro. E isso é apenas uma parte da equação. Duplicámos a força de resposta, criámos uma força de reação rápida…

Mas estariam, ou não, em condições de fazê-lo?
Estamos em condição de proteger os nossos Aliados. Não me parece correto comentar conflitos hipotéticos até porque a Ucrânia não é aliada da NATO. Temos uma intensa relação de parceria, apoiamos uma solução política e congratulamo-nos com o cessar-fogo em vigor. Desde o início de setembro, com o esforço renovado de alcançar uma solução política, que vemos alguns desenvolvimentos positivos no Leste da Ucrânia. Há dias [25 de outubro] tivemos eleições locais, sinal evidente de que as coisas estão bem encaminhadas no que diz respeito ao restabelecimento do regular funcionamento das instituições democráticas e a OSCE considerou-as livres e justas. A Rússia continua a apoiar os separatistas mas espero que os eleitores que residem nas zonas de conflito no leste do país também possam votar de acordo com a lei ucraniana e que o controlo sobre as fronteiras seja retomado. Depois de diversos recuos e violações é bom que o cessar-fogo esteja a ser respeitado.

Ao realizar o Trident Juncture no flanco sul da Aliança, a NATO também pretende dissuadir eventuais incursões de fundamentalistas como por exemplo do autoproclamado Estado Islâmico?
O Trident Juncture é o maior exercício que realizámos nos últimos anos e pretende mostrar que a NATO é capaz de responder a crises tanto no leste como no sul. Todos os Aliados participam no combate ao Estado Islâmico, e isso deixa-me satisfeito. A NATO ajuda a edificar capacidade defensiva no Iraque porque estamos determinados a estabilizar países, dando-lhes condições para que sejam os próprios a fazê-lo. Só assim estaremos mais seguros. Mas o combate ao terrorismo requer uma resposta mais alargada. Temos forças armadas mas também precisamos de polícia, de serviços secretos e de outros meios que poderão ser cedidos, por exemplo, pela União Europeia. A Nato pode dar resposta a muitos problemas mas sozinha não poderá resolver todos os problemas. Temos por isso de trabalhar em conjunto com outras instituições como por exemplo a União Europeia.

Porque é que esperaram mais de dez anos para voltar a fazer um exercício de grande dimensão?
Decidimos começar a fazer aquilo a que chamamos exercícios de grande visibilidade de três em três anos e o próximo decorrerá na Noruega em 2018 deixando assim claro que estamos aptos a responder aos desafios que ocorram também no norte. Continuaremos a ser responsáveis pela defesa de todo o espaço territorial da Aliança mas desde o final da Guerra Fria que a NATO tem vindo a reduzir a sua presença militar na Europa e está atualmente menos preocupada com a defesa coletiva e mais focada na gestão de crises fora do seu território. Assim foi nos Balcãs, Kosovo, Bósnia Herzegovina, Afeganistão, no corno de África [combate à pirataria] e na Líbia. A NATO tem de continuar atenta às crises que acontecem fora da Europa mas ao mesmo tempo tem de relançar as capacidades de defesa coletiva a nível europeu e não se dar ao luxo de escolher as crises em que pretende envolver-se nem continuar a desinvestir na defesa do seu território.

A NATO tem pedido aos estados-membros para investirem pelo menos 2% do Produto Interno Bruto no sector da Defesa mas Portugal está ainda abaixo desse valor. O facto de participar nesta operação, assegurando os custos envolvidos, é um bom contributo?
Portugal é um aliado forte e comprometido e gostava de agradecer o contributo que tem dado para a segurança da Aliança. Portugal contribuiu com os seus aviões [F-16] para o patrulhamento aéreo do Báltico, esteve também no Afeganistão e é agora um dos anfitriões do Trident Juncture no qual participa com um grande número de militares. Claro que uma das ideias fundadoras da NATO continua a ser o “um por todos e todos por um” e por isso continuaremos a protegermo-nos uns aos outros. Isso tem um custo para todos os Aliados mas juntos somos mais fortes.

Quanto vai custar o Trident Juncture? Quanto custa a Portugal?
Todos os países contribuem de diferentes formas com as suas forças armadas, dentro das suas capacidades e competências e isso tem um preço para todos os Aliados. A nossa segurança não é de borla. Temos de pagar por ela, tem um custo para todos os Aliados.