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Morreu Günter Schabowski, o homem que marcou a história com três palavras

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Guenter Schabowski (à direita) ao lado Egon Krenz, líder do Partido Comunista da RDA

Reuters

Foram precisas apenas três palavras, involuntárias, para a história mundial ganhar um novo capítulo e um novo protagonista

Günter Schabowski morreu este domingo, aos 86 anos, em Berlim. O nome é-lhe familiar? É provável que não. Mas o antigo porta-voz do Partido Comunista da então República Democrática Alemã (RDA) foi uma das personalidades mais marcantes da história do século XX, quando anunciou o desmoronamento da barreira mais emblemática da Europa, o famoso Muro de Berlim.

Corria a tarde de 9 de novembro de 1989 quando Günter Schabowski foi informado de que o Comité Central do PC tinha aprovado um decreto-lei, que determinava que os alemães orientais poderiam viajar de forma livre até ao mundo ocidental, o que até à data estava proibido, e que esse facto deveria ser comunicado publicamente.

Pouco depois, enquanto lia à imprensa estrangeira o decreto que tinha recebido pelas mãos de Engon Krenz, líder do Partido Comunista da RDA, Peter Brinkmann, jornalista do “Bild”, que estava sentado na primeira fila na sala de imprensa do Centro Internacional, interrompeu a leitura perguntando em que dia entraria em vigor a nova lei. Foi nesse momento que Schaboswki respondeu “Ab sofort!, unverzüglich” (Imediatamente! Sem demora!), como recorda o “El País”.

O porta-voz não tinha reparado que a segunda página do documento referia que a lei entraria em vigor apenas a partir do dia seguinte. E, por isso, aquela sequência de três simples palavras ficou para a História.

Num ápice, instalou-se um clima de inquietação por parte dos jornalistas, que começaram a bombardear Günter Schabowski com novas questões, nomeadamente se o decreto também era válido para a Europa Ocidental. Desesperado, sem saber o que responder, o porta-voz resolveu ir mais longe e finalizar com uma frase lendária, afirmando que o movimento entre fronteiras da RDA e da RFA (República Federal da Alemanha) poderia realizar-se livremente, incluindo a cidade de Berlim, dividida pelo Muro.

Estava dado o mote ao derrube do Muro de Berlim, 28 anos decorridos sobre o seu levantamento. No seu último encontro com jornalistas estrangeiros, Schabowski referiu que tinha sido a pessoa escolhida para anunciar o conteúdo do decreto, mas que não tinha consciência das consequências futuras dessa decisão política.

Após essa comunicação histórica, Schabowski perdeu o emprego como porta-voz e a sua casa em Wandlitz, onde vivia a maioria dos políticos da RDA, e acabou condenado, em 1977, com uma pena de três anos, por ter participado na conferência onde se autorizou a polícia das fronteiras da RDA a disparar contra os alemães que tentassem fugir do país comunista.

Ao contrário dos restantes acusados nesse julgamento, Günter Schabowski foi o único que teve a dignidade de reconhecer a sua culpa e pedir desculpas pelos crimes cometidos, pedindo publicamente o perdão aos familiares das vítimas. “Como antigo seguidor e protagonista dessa visão do mundo, sinto-me culpado e envergonhado quando recordo as pessoas que morreram ao tentar atravessar o Muro”, disse no início do seu julgamento.

Schabowski não chegou a cumprir a pena de três anos, porque ao final do primeiro foi libertado. Assim que saiu da prisão, voltou a exercer a sua profissão de jornalista mas num jornal regional, em Land de Hesse. Antes disso, graças à sua proximidade com Erich Honecker, então Presidente da RDA, tornou-se diretor do jornal “Neues Deutschland”, órgão oficial do Partido Comunista da Alemanha Oriental, cargo que desempenhou entre 1978 e 1985.