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Internacional

Uma Turquia mais dividida do que nunca decide hoje o seu futuro político

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Um rapaz turco coloca o voto da mãe numa urna em Ancara, capital da Turquia

Burak Kara / Getty Images

54 milhões de turcos votam este domingo para tentar eleger um governo. O país está num impasse político desde as legislativas de junho, quando o Partido da Justiça e Desenvolvimento, islamita moderado, perdeu a maioria absoluta

Otrora uma ilha de estabilidade na região, com uma economia pujante, a Turquia está hoje perto do abismo – uma sociedade totalmente polarizada entre os apoiantes e os detractores do primeiro-ministro Ahmet Davutoglu e do presidente Recep Tayyip Erdogan, a braços com uma economia a perder fulgor, uma guerra na vizinha Síria a querer transbordar e o reacendimento do eterno conflito curdo

E se em junho o eleitorado chumbou a deriva autocrática de um Executivo há demasiado tempo no poder - e os planos megalómanos de um presidente que queria mudar a Constituição para continuar a reinar, a instabilidade política e social dos últimos meses tornam este escrutínio talvez o mais importante da história da Turquia.

Todas as sondagens indicam que o resultado das eleições não será muito diferente do registado há 5 meses – o partido curdo resiste e conseguirá entrar no Parlamento, apesar de todas as tentativas de o associar aos separatistas curdos do PKK, e o AKP não conseguirá recuperar a tão desejada maioria absoluta, apesar de poder ficar próximo dela.

Se isto se confirmar, é um sinal claro que os eleitores turcos querem uma coligação - cada vez mais isolada internacionalmente e à beira de uma clivagem social que poderá ter consequências muito negativas, o país precisa de se recentrar numa política mais moderada, retornar ao centro e abraçar todos os sectores da sociedade.

175,000 assembleias de voto abriram às 7 da manhã, 4 da madrugada em Portugal, e fecham às 17 (duas da tarde em Portugal). Estão no terreno quase meio milhão de polícias e soldados, e centenas de milhares de voluntários e activistas políticos, organizados em grupos para zelar pela transparência do acto eleitoral. Os primeiros resultados devem conhecer-se a partir das 20h (17 em Portugal).

Os diferentes partidos

Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP)
Fundado em 2001, islamita moderado, ganhou todas as eleições desde então com margens cada vez mais avassaladoras (chegando aos 50% do voto) - até Junho passado, quando perdeu a maioria absoluta com 41% e 258 deputados. Não conseguiu – não quis?, formar uma coligação com a oposição, e forçou eleições antecipadas.

Partido Republicano do Povo (CHP)
O mais velho antigo partido turco, fundado pelo pai da moderna república turca (Kemal Ataturk) em 1923. Laico, republicano e social-democrata (está na Internacional Socialista), consegiu 25% e 132 deputados em Junho. É contra uma mudança de regime para um presidencialismo executivo.

Partido da Ação Nacionalista (MHP)
Nacionalista, à direita do espetro político, é contra qualquer negociacão com os curdos. Teve 16% em Junho (80 deputados).

Partido Democrático Popular (HDP)
Herdeiro de vários partidos curdos que foram sendo sucessivamente encerrados devido às draconianas leis turcas, o HDP foi a primeira formação política curda que concorreu como tal a eleições legislativas em Junho passado – antes os curdos concorriam como independentes para ultrapassar a barreira dos 10% necessários para entrar no parlamento, a mais alta do mundo democrático. Abrindo-se à sociedade e diversificando o seu programe (de esquerda), ganhou a aposta, tendo obtido 13% (80 deputados).