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Resultado surprendente na Turquia: Erdogan e Davutoglu esmagam outra vez

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Apoiantes do AKP celebram a vitória do partido em Ancara, na Turquia

ADEM ALTAN/AFP/Getty Images

Fintando todas as sondagens, os resultados eleitorais deste domingo mostraram que a estratégia do Presidente Erdogan e do primeiro-ministro Davutoglu resultou na perfeição: depois de terem perdido a maioria absoluta em junho, reconquistaram-na agora de forma categórica – pelo menos 310 deputados e 49% dos votos

Os resultados eleitorais do escrutínio deste domingo fintaram todas as sondagens e demonstraram que a estratégia do Presidente Recep Tayyip Erdogan, e do primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, resultou na perfeição – após a perda da maioria absoluta em junho passado, os líderes do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, islamita moderado) não perderam tempo a tentar formar uma coligação com a oposição, e forçaram eleições antecipadas, ameaçando um cenário de caos caso não houvesse um “governo estável”. Agora reconquistaram a maioria absoluta de forma categórica – pelo menos 310 deputados e 49% dos votos, mais 7% que em junho.

Durante todo o Verão Erdogan e Davutoglu demonizaram os curdos – a entrada do partido curdo no parlamento em junho tinha sido o grande responsável pela perda da maioria, a primeira derrota eleitoral do AKP em 13 anos de controlo absoluto do país. E perante o retomar da luta armada pelos separatistas curdos do PKK, o Governo enveredou por uma campanha militar sem tréguas, que deixou muitas áreas do leste do país a ferro e fogo, e que já causou muitas centenas de mortos nos últimos dois meses.

Isso, aliado aos mortíferos atentados perpetrados pelo Estado Islâmico em solo turco, e à insegurança com a proximidade da guerra na Síria, levaram os eleitores a jogar pelos seguro – deram o que Erdogan tanto pediu, “estabilidade”. Enquanto o segundo maior partido da oposição (CHP, republicanos laicos) manteve a sua votação (25%), os nacionalistas e os curdos perderam votos para o AKP (11% e 10%, contra 16 e 13% em Junho, respectivamente), com o Partido curdo a conseguir entrar no parlamento in extremis (ultrapassando a barreira dos 10%, a mais alta do mundo democrático).

A generalidade das análises ao surpreendente resultado destas eleições sugere que a retórica agressiva do AKP, e o reacender da guerra com os curdos, assustou muita gente, curdos incluídos, que voltaram ao AKP. Outros comentam que o facto da campanha eleitoral ter sido extremamente enviesada, com o AKP a controlar quase todos os media, ajudaram no resultado. E todos concordam que o resultado confirma a hegemonia de Erdogan, que pode agora sonhar novamente com a tão ansaiada presidência super-executiva.

Se a Turquia terá agora um governo estável, a sua sociedade continua porém tão ou mais fracturada do que antes. Esta noite milhares de jovens curdos saíram às ruas de Diyarbakir, a maior cidade curda do leste do país, para protestar contra o resultado das eleições, tendo-se envolvido em confrontos com a polícia, que está a utilizar os já tão familiares canhões de água e gás lacrimogénio para conter a fúria popular. Ou “nós ou eles” ganhou as eleições – mas não ajudou nada a sarar as feridas de uma sociedade à beira do abismo.

Ahmet Davutoglu, o primeiro-ministro, já discursou esta noite. Classificando o resultado das eleições como uma “vitória da nação e de todos os turcos – não apenas dos nossos apoiantes”, Invocando Allah várias vezes, disse que “iriam continuar o caminho” que começaram há mais de uma década. Resta saber onde acaba essa via.