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A perigosa relação entre a Rússia e a Síria

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FOTO ALEXEY DRUZHINYN/REUTERS

O autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) terá reinvindicado a autoria de um atentado, que assim poderá ter causado o desastre de hoje com o Airbus russo, que levava 224 passageiros a bordo. Ligações entre a Rússia e o regime sírio provocam a ira dos terroristas. Saiba porquê

A reivindicação, noticiada pela France Press, pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) de abater com um míssil o Airbus russo que hoje viajava com 224 passageiros a bordo, materializa com mortes o clima de tensão entre a Rússia e a Síria, depois do apoio do Presidente Putin a Bashar Al-Assad. O atentado pode tratar-se de uma represália à recente intervenção russa em território sírio. Todos os ocupantes do avião morreram.

Na terça-feira da semana passada, Assad foi a Moscovo, na primeira viagem desde 2011. A visita foi vista como uma forma de Assad procurar ganhar força para negociar numa posição de força e apresentar-se como a única alternativa ao advento do Daesh, nas conversações que decorreram em Viena entre a Rússia, EUA, Arábia Saudita e Turquia. No terreno é uma guerra a três: Assad, rebeldes (moderados ou islamitas) e extremistas do Daesh.

A primeira fase das operações, a 7 de Outubro, foi nas províncias de Hama, Homs e Idlib. A luta levou os rebeldes a desguarnecer outras frentes. Porém, no dia 15, o regime lançou outra ofensiva contra Alepo, a maior cidade do país, surpreendendo a oposição que ainda se estava a refazer dos recentes ataques locais do Daesh e foi forçada a ceder terreno.

Xiitas do Afeganistão
O exército governamental foi reforçado com 2000 combatentes xiitas: afegãos (da minoria hazara) e iraquianos, além de libaneses do Hezbollah, fora “conselheiros” iranianos. Depois da morte, dia 8, do general iraniano Hussein Hamadini, da unidade de elite da Guarda Revolucionário Al-Qods, em combate com o Daesh na zona de Alepo, as operações passaram a ser coordenadas pelo seu homólogo, Qasem Soleimani, em conjunto com oficiais russos e sírios. Os primeiros ataques visaram os montes Azzam, estratégicos para controlar a autoestrada para Damasco, onde vários grupos rebeldes islamitas têm sido batidos: Ahrar al-Sham, Jabhat al-Nusra e Jabhat al-Shamiyah.
Os próximos objetivos serão quebrar os cercos das cidades xiitas de Nubl e Zahraa a nordeste e da base aérea de Kuweires a oeste (cercada pelo Daesh há dois anos). Objetivo final: cercar e aniquilar os rebeldes que controlam parte de Alepo. Milhares de civis já estão a abandonar a cidade para escapar aos combates e aos intensos bombardeamentos aéreos russos que, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, mataram 370 mortos em apenas três semanas. Incluem 127 civis (36 crianças e 34 mulheres). O uso crescente de bombas de fragmentação russas (que os americanos têm evitado) ameaça os civis.
Os EUA cancelaram um programa de treino no exterior da Síria de combatentes moderados que terá custado 500 milhões de dólares. A nova opção é armar grupos que já combatem no interior do país e que a CIA considere fiáveis. A 12 de outubro, aviões C-17 norte-americanos lançaram 112 paletes com 50 toneladas de munições nos arredores de Hasakah.

Os planos russos têm sido frustrados por mísseis antitanque semelhantes aos que equipam tropas portuguesas. Se no Iraque os AT-4 portáteis têm sido cruciais para deter as viaturas suicidas do Daesh (blindadas artesanalmente com chapas de aço), na Síria os tanques de Assad estão a ser alvejados por mísseis BGM-71 TOW. Várias dezenas foram destruídos nas últimas semanas. Os TOW são mais pesados que os AT-4, devido à necessidade de uma ogiva mais potente para furar a blindagem dos carros russos T-55 e T-72 de Assad. Também permitem atacar alvos distantes, caso de posições de artilharia ou veículos de transporte de pessoal. Assentes num tripé, podem ser movimentados e operados por equipas de três homens ou montados em veículos. O guiamento por cabo de fibra ótica assegura uma precisão quase milimétrica e por cada tiro é gravado um vídeo, que tanto serve para formação de tropas como para ações de propaganda.

Invadida prisão do Daesh
O Exército Livre da Síria (ELS) renasceu, graças a este material, entregue via Arábia Saudita, e está a conseguir aguentar uma frente irregular de 100 km que vai do norte de Hama às montanhas de Akrad, a nordeste do feudo costeiro governamental de Latáquia. Um comandante do ELS citado pelo diário francês “Le Monde” ironizava: “Os americanos dão-nos mísseis suficientes para irritar os russos mas não para ganharmos a guerra...” Resta saber a reação de Moscovo se aparecerem mísseis antiaéreos portáteis tipo Stinger, capazes de abalar a superioridade aérea russa.

Entretanto, o Pentágono aumentou a eficiência na eliminação de altos quadros do Daesh e da Al-Qaeda, tendo um drone abatido Sanafi al-Nasr a 15 de outubro. Este cidadão saudita era o mais recente líder da célula Khorasan (Al-Qaeda) e foi o quarto dirigente a perder a vida este ano. Para aumentar a pressão sobre o Daesh, os EUA decidiram enviar jatos A-10 para a base aérea de Incirlik, na Turquia. Este avião de ataque ao solo já atua no Iraque e tem sido pedido para a Síria, equivalendo aos SU-25 russos que apoiam combatentes do regime. No caso dos A-10, os curdos do YPG perfilam-se como principais candidatos ao apoio.

A Rússia assinou um memorando com a coligação liderada pelos EUA para evitar incidentes nos congestionados céus da Síria. O novo primeiro-ministro do Canadá anunciou que cumprirá a promessa eleitoral e retirará a meia dúzia de caças CF-18 (derivados do F-18 dos EUA) que operavam no Médio Oriente.
Entretanto, no Iraque a guerra não para. Fontes da coligação internacional anunciaram ontem um golpe de mão de peshmergas curdos e tropas especiais dos EUA contra uma prisão do Daesh. Na noite de quarta para quinta-feira em Hawija, província de Kirkurk, foram libertados 70 reféns árabes iraquianos, eliminados 20 jiadistas e capturados seis. Morreu um soldado americano, cuja identidade não foi revelada, a primeira baixa em solo iraquiano desde 2011.

O Irão
Esta sexta feira, em Viena, representantes dos EUA e da Rússia, bem como da Turquia, Qatar, Arábia Saudita, França e Reino Unido estiveram reunidos (sem a presença de Assad nem rebeldes). Há um recém-chegado cuja presença pode mudar tudo: o Irão. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Mohammad Javad Zarif, peça-chave das negociações nucleares com Washington, volta à cidade onde conseguiu um acordo histórico com o ex-grande satã. Teerão apoia Assad mas apenas como meio para assegurar influência na Síria e ligação ao Hezbollah libanês. Ao contrário dos russos, empenha (ainda que informalmente) forças terrestres e estas estão a ser menos bem sucedidas do que esperavam no contra-ataque aos rebeldes, pese embora o apoio aéreo de Moscovo.