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Braço-de-ferro nos mares do Sul da China

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© Handout . / Reuters

Responsáveis da marinha americana e chinesa reúnem-se hoje para discutir o “desafio” de um contra-torpedeiro dos EUA às pretensões de Pequim sobre as águas em torno das ilhas Spratley

O chefe de operações navais dos EUA, almirante John Richardson e o seu homólogo chinês, almirante Wu Shengli deverão reunir-se ainda hoje durante uma hora para discutir o clima de tensão que se vive no sul do mar da China. Será a terceira vídeoconferência entre os dois responsáveis sobre o mesmo assunto.
Mais do que económicas, as pretensões de Pequim sobre as águas do arquipélago Spratley são dos maiores desafios geopolíticos da atualidade. Por isso, não terá sido inocente a passagem, esta segunda-feira, do USS Lassen a menos de 12 milhas náuticas do recife de Subi, uma das muitas ilhas artificiais no minúsculo arquipélago Spratley. Foram construídas pela China à base de terraplanagens sobre rochedos, de forma a permitir instalar pistas de aviação, portos, radares e outras estruturas de uso militar e civil.
Juridicamente o que está em causa é se estas ilhas artificiais são território chinês por isso se aplica a soberania de 12 milhas marítimas à sua volta ou se se trata de águas internacionais onde a navegação civil ou militar (como a do navio dos EUA) é livre.

Provocação que põe em risco a paz


“Uma provocação deliberada” foi a fórmula utilizadas pelas as autoridades chinesas para classificar a manobra norte-americana. Considerando a “iniciativa ilegal”, o próprio ministério dos Negócios Estrangeiros chinês chegou ao ponto de afirmar que poderia pôr em causa a paz e a estabilidade regional.
Veementemente criticada por Pequim, a passagem do contratorpedeiro da 7ª Esquadra, equipado com mísseis por águas que a China reclama como seu “território” foi saudada pelos aliados de Washington na zona, sobretudo as Filipinas e Japão. Que estão cada vez mais apreensivos com os “apetites” chineses e contestam a legitimidade dos ilhéus artificiais e receiam pela liberdade de navegação.
A operação naval foi autorizada pelo presidente Barack Obama, mas é considerada “tardia” por muitos observadores. “A manobra tem poucas hipóteses de dissuadir Pequim de continuar a alimentar vastas ambições territoriais sobre uma das mais importantes vias de navegação mundial”, defende a influente revista norte-americana “Foreign Policy”. No Japão, a imprensa segue de perto a operação, chegando mesmo alguns jornais a felicitarem “firmeza americana” em edições especiais.

Mais de 4,5 biliões em mercadorias

Mas o que faz tão interessantes as cerca de 200 ilhas e recifes de coral no sul do mar da china? Como via de navegação, são transportadas por esta zona qualquer coisa como mais de 4,5 biliões euros de mercadorias. A nível subaquático são estimadas para a zona enormes reservas de petróleo e de gás natural, bem como outras matérias-primas, até agora praticamente inexploradas. Daí que a China, queira reclamar para si grande parte das Spratley. Pretensão que é alimentada também por outros países da zona, como o Vietname, Taiwan, Filipinas, Malásia e o sultanato do Brunei. Do ponto de vista geopolítico, ao tentar “fechar” a zona, Pequim quer alterar o equilíbrio de forças na região obtido após a Segunda Guerra Mundial e limitar a supremacia norte-americana.

Conflito com o Vietname

Aliás, as pretensões chinesas deram já azo a muitos pequenos conflitos e escaramuças com os seus vizinhos. Em junho, navios de guerra chineses abriram fogo sobre barcaças vietnamitas em águas que Hanói reclama como suas. No mês anterior, navios de guerra chineses tinham cortado cabos submarinos vietnamitas para a deteção de sismos.
Em agosto, durante a Cimeira da ASEAN (Associação dos Países do Sueste Asiático) em Kuala Lumpur, os ministros dos Negócios Estrangeiros presentes deram conta do seu receio quanto à construção de mais uma ilha artificial chinesa no recife Mishief. Assunto que a a delegação chinesa se recusou a discutir.