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O Robin dos Bosques do mundo empresarial

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Dan Price quer provar que é possível pagar salários justos e prosperar nos negócios

Jose Mandojana

Em abril, Dan Price foi notícia quando decidiu estabelecer um salário mínimo de 70 mil dólares na sua empresa. Meio ano depois, a aposta está a compensar

Dan Price é um empreendedor norte-americano de 31 anos com cabelo comprido e ar de rock star (foi em tempos). É possível que o nome não lhe diga nada, mas talvez tenha ouvido falar dele em abril quando decidiu que nenhum dos 120 funcionários da sua empresa, a Gravity Payments, onde a média salarial era de 48 mil dólares (43 mil euros), iria ganhar menos de 70 mil dólares (cerca de 63 mil euros). De forma faseada ao longo dos próximos três anos, 30 funcionários da empresa verão o seu salário duplicado. Quarenta outros serão aumentados.

Para financiar a ideia, Price cortou de imediato o seu salário como CEO, de 1,1 milhões de dólares para precisamente 70 000. Mais de metade dos custos da iniciativa serão absorvidos por esse corte, os restantes serão cobertos pelos lucros, deixando pouca margem de erro se estes não aumentarem. Subir o preço do serviço que a empresa presta - processamento de pagamentos com cartão de crédito - ou diminuir a oferta estão fora de questão.

O anúncio, feito à cadeia de televisão NBC e ao diário "The New York Times", provocou um verdadeiro tsunami, com 500 milhões de interações nas redes sociais. O vídeo da NBC foi o mais partilhado da história da cadeia. Price recebeu uma proposta do produtor de "O Aprendiz", Mark Burnett, para ser o novo Donald Trump num programa chamado "Billion Dollar Startup", foi assediado por agentes de Hollywood e editores de livros e viu a caixa de e-mail inundada de CV - 4500 só na semana em que foi conhecida a notícia. Um deles era de executiva da Yahoo, Tammi Kroll, de 52 anos, que ficou de tal forma inspirada com a atitude de Price que se despediu e foi trabalhar na Gravity, garantindo que iria ter um corte de 80 a 85% no vencimento. "Passei muitos anos a perseguir o dinheiro. Agora procuro algo divertido e com significado".

Começava assim a cruzada do jovem empresário contra a disparidade salarial e a forma como as empresas do país tratam os seus funcionários. Enquanto os grandes executivos recolhem milhões em salários e bónus, os salários dos americanos praticamente congelaram desde 2000. Se em 1990, os CEO ganhavam, em média, 71 vezes mais do que o típico trabalhador, hoje recebem cerca de 300 vezes mais. É, por isso, fácil perceber que tenham descrito Price como um Robin dos Bosques moderno que rouba dele próprio para ajudar a classe trabalhadora.

Claro que as críticas também não se fizeram esperar, sobretudo de outros empregadores preocupados com a pressão dos seus funcionários. O multimilionário Rush Limbaugh, um conhecido comentador republicano, vaticinou na Fox News que a Gravity iria falhar. "Espero que esta empresa seja um caso de estudo em programas de MBA em como o socialismo não funciona". Outros acusaram Price de orquestrar uma engenhosa manobra publicitária. "Se assim foi, sou um génio", disse o jovem empreendedor à revista "Inc". Nessa conversa, revelou também que esvaziou as contas-poupanças, hipotecou as duas casas que tinha e investiu os 3 milhões de dólares que tinha angariou para a empresa para levar por diante a sua estratégia. Se a Gravity falhar, ela afundar-se-á com ela.

Para já, seis meses depois do anúncio, os resultados parecem desafiar os mais céticos. As receitas estão a crescer a um ritmo duas vezes superior; os lucros duplicaram; a taxa de retenção de clientes subiu de 91% para 95%, bem acima dos 68% de média do setor. Curiosamente, a maior ameaça para a empresa não é a estratégia de Dan, mas um processo interposto pelo irmão, Lucas, sócio minoritário da Gravity. Alegando que o irmão recebeu antes "compensações excessivas", quer que este compre a sua quota da empresa (30%) "por um valor justo". Dan mantém-se diplomático, mas sem perder o foco na estratégia que definiu. "Farei tudo para ajudar o Lucas a atingir os seus objetivos financeiros, desde que isso não leve a aumentos dos preços para os nossos clientes, a corte nos serviços que lhes prestamos, diminuição de salários ou de qualquer tipo de investimentos na nossa companhia".

Meio ano é muito pouco tempo para perceber como acabará esta história. O futuro dirá se a experiência de Price será vista como um golpe de génio que mostra que os empresários têm explorado os seus trabalhadores para lucrarem mais ou se será a prova que é gerida por um tolo idealista e bem intencionado. Para já, quem já se apressava a escrever-lhe o obituário, terá que esperar melhor oportunidade.