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O negacionismo versão Netanyahu

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Em resposta às críticas de “revisão da História”, Netanyahu argumenta que não quis absolver Hitler mas mostrar que “os antepassados da nação palestiniana, sem um país e sem a chamada ocupação, sem território e sem colonatos, já em 1941 aspiravam a exterminar os judeus”.

Margarida Santos Lopes

Benzion Netanyahu era historiador e abertamente hostil aos árabes. “Na Bíblia, não há pior imagem do que a do homem do deserto que é, na sua essência, um inimigo, que vive para uma guerra permanente”, disse ao jornal Ma’ariv, numa entrevista antes de morrer em 2012, aos 102 anos. No entanto, o pai do actual primeiro-ministro de Israel não foi tão longe quanto o filho, ao declarar que Hitler “só queria expulsar os judeus”, em 1941, mas foi Haj Amin al-Husseini, então líder espiritual dos palestinianos quem o encorajou “a queimá-los” nas câmaras de gás.

A revisão da autoria da Solução Final foi feita por Benjamin Netanyahu num discurso perante o Congresso Sionista, na passada terça-feira. As críticas, dentro e fora do país, foram imediatas. Meir Litvak, historiador na Universidade de Telavive, considerou as palavras do filho de Benzion “uma mentira” e “uma desgraça”. Moshe Zimmermann, especialista em História Judaica na Universidade Hebraica de Jerusalém, lamentou: “Bibi juntou-se a uma longa lista de gente que eu chamo de negacionistas do Holocausto”. Os dois académicos foram citados pelo jornal The New York Times.

O líder da oposição trabalhista no Parlamento israelita, Isaac Herzog, exigiu “uma correção imediata de uma distorção histórica grave”. E até o ministro da Defesa, Moshe Yaalon, que é membro do Partido Likud, chefiado por Netanyahu, reconheceu: “A História é muito, muito clara. Foi Hitler quem iniciou [o extermínio]; Haj Amin al-Hussein apenas se juntou a ele.”

Um dos negociadores palestinianos, Saeb Erakat, considerou as declarações de Netanyahu “indefensáveis do ponto de vista moral”, e acrescentou: “É um dia triste quando o líder de um governo israelita odeia de tal modo o seu vizinho que está disposto a absolver o pior criminoso da História.”

De partida para Berlim – onde um porta-voz da chanceler, Angela Merkel, deixou bem claro que a responsabilidade pelo genocídio não cabe aos palestinianos mas aos alemães –, Netanyahu tentou justificar-se: “Não era minha intenção absolver Hitler mas mostrar que os antepassados da nação palestiniana, sem um país e sem a chamada ocupação, sem território e sem colonatos, já naquela altura aspiravam a um incitamento sistemático para exterminar os judeus.”

E adiantou: “Hitler foi responsável pela Solução Final para aniquilar seis milhões de judeus; foi ele quem tomou essa decisão. É igualmente absurdo ignorar o papel desempenhado pelo Mufti Haj Amin al-Husseini, um criminoso de guerra, que encorajou e exortou Hitler.”

Embora seja consensual, entre os historiadores, de que Husseini instigou os pogroms de árabes contra judeus na Palestina, nos anos 1920, e que colaborou depois com os nazis, por se opor ao sionismo, a realidade, atestada por várias fontes, é a de que os primeiros massacres da Shoah ocorreram antes de o Mufti se encontrar (e deixar fotografar – imagem que tem sido uma maldição para os palestinianos) com Hitler.

Lembrou o jornalista britânico Peter Beaumont: “O início da Solução Final, documentado pelo memorial Yad Vashem, é a matança de 34.000 judeus, nos arredores de Kiev, no final de Setembro de 1941, atribuída aos Einsatzgruppen C [esquadrões da morte da força paramilitar SS], sob ordens do governador militar nazi Kurt Eberhard. O Grande Mufti só se encontraria com o ditador alemão em Novembro de 1941.”