Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Justin Trudeau, o “menino bonito” que o Canadá elegeu para primeiro-ministro

  • 333

NICHOLAS KAMM/GETTY

Próximo das pessoas, pró-marijuana e a favor do aborto, Trudeau também faz furor nas redes sociais. Jovem e com um apelido que marcou o país durante muitos anos - o seu pai ocupou o mesmo cargo - a sua eleição colocou a “esperança” no horizonte do Canadá

Um dia depois de ter sido eleito como o novo primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau desceu a uma das estações do metropolitano de Montreal e, sorridente, foi cumprimentando quem por ali circulava, multiplicando-se a posar para selfies ao lado dos muitos que não quiseram desperdiçar a oportunidade de ficar com a recordação.

Surpreendente? Só para quem não tem acompanhado a trajetória do jovem líder, ele próprio filho de um ex-primeiro ministro do país, Pierre Trudeau, e a mais recente coqueluche da política canadiana.

“Alto, atlético, bonito, carismático e casado com uma mulher glamourosa”, como escrevia já em 2013 o “The New York Times”, Trudeau filho (aliás um pouco como o pai, nos anos de 1960) bem podia ser um ator de cinema. Não é. Aos 43 anos, depois de ter de alguma forma tentado fugir a uma vida política, acabou por vir desaguar a este palco, para agora assumir a vontade de mudança de um país que se deixou conquistar pelas suas ideias liberais: além de defender que o país tem de ultrapassar o medo, através da confiança; ele é um muito assumido defensor do aborto; é pro-marijuana; diz querer receber mais refugiados e promete investigar as misteriosas mortes de mulheres aborígenes.

"Uma pessoa é só uma pessoa”

Antes do mais, os factos. Justin nasceu em Otava, num dia de natal, a 25 de dezembro de 1971. Como filho mais velho do então chefe do Governo e de Margaret Sinclair - filha de um ex-ministro das Pescas - passou os primeiros anos na residência oficial inerente ao cargo do pai, de onde saía todas as manhãs para apanhar o autocarro para a escola pública onde estudava, consciente da vida ‘dupla’ que a sua condição lhe reservava.

“Os meus pais sempre me ensinaram que, embora tivesse alguns privilégios, nada disso me fazia melhor que as outras pessoas”, cita-o o “The New York Times”. Em muitas outras ocasiões garantiu também que o pai o ensinou, a ele e aos seus dois irmãos, a conhecer o homem por trás do cargo: “Explicava-me que, para além da responsabilidade de cada um, uma pessoa é só uma pessoa”.

Se de Pierre Trudeau herdou essa consciência e a imagem de alguém à frente do seu tempo, ou pelo menos alinhado com ele, da mãe, Justin diz ter ficado com “a necessidade de se relacionar emocionalmente com as pessoas”, de quem gosta de se sentir próximo.

O divórcio dos pais, em 1977, acabaria por marcar a sua infância, como pouco mais de 20 anos depois a morte de um dos seus irmãos, numa avalancha, se transformou noutra das suas piores memórias.

Foi aliás nesta altura, em 1998, que voltou a merecer a atenção pública, depois de ter vivido afastado dos holofotes durante algum tempo, enquanto estudou literatura inglesa e francesa na Universidade McGill, em Montreal, trabalhou como instrutor de snowboard e como segurança de uma discoteca, até se tornar professor do ensino secundário em Vancouver.

Casado com um amiga de infância, que reencontrou anos mais tarde, a antiga modelo e apresentadora de televisão, Sophhie Grégoire, o casal tem três filhos: Xavier James, Ella-Grace Margaret e Hadrien (com pouco mais de ano e meio).

Líder do Partido Liberal em 2013

Na verdade, até 2007 parecia difícil de se concretizar a profecia de Richard Nixon. Recorda o “El Pais” que, tinha Justin Trudeau quatro meses quando o antigo Presidente dos EUA brindou “ao futuro primeiro-ministro do Canadá”. Mas uma bem sucedida campanha, de onde saiu eleito para o Parlamento colocou-o na corrida política, tendo chegado a líder do Partido Liberal em 2013.

Muita coisa mudou desde a sua entrada em cena. As finanças do seu partido, para começar, que melhoraram substancialmente, e a forma com que muitos eleitores passaram a olhar para o que pode ser um político.

Durante a última campanha, um vídeo foi recuperado e usado pelo partido conservador para tentar denegrir a imagem de Justin Trudeau. Nele, o atual primeiro-ministro aparece bem-humorado, a desfilar num evento onde despe a camisa - diga-se, em abono do rigor, que fica de camisola interior -, uma “graça” para conseguir reunir donativos para uma associação solidária canadiana.

A avaliar pelos 40% dos votos conseguidos, poucos ficaram chocados ou preocupados com a imagem, tão inusitada para se imaginar em alguém à beira de representar oficialmente um país.

Mas formalidades não são para Justin Trudeau, que treina boxe duas vezes por semana, como ‘hobby’, e ainda há poucos dias se deixou fotografar com uma camisola do Sporting, durante um encontro com emigrantes portugueses.

‘Selfies’ à parte, é agora chegada a hora de Trudeau colocar em marcha as propostas ousadas que apresentou. Voltar a assumir nacionalmente as preocupações com as mudanças climáticas, depois de o seu antecessor retirar o Canadá do Protocolo de Quioto e receber mais 15 mil refugiados que os dez mil assumidos como limite por Stephen Harper, são apenas duas delas. Tarefas a que se comprometeu e que o fazem (também) estar sob o olhar atento do resto do mundo.