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Pegou em bonecos e começou a contar a tragicomédia de uma Europa à deriva

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Gregos e refugiados, Merkel e Tsipras são algumas das personagens de uma tragicomédia que um pai de Salónica anda a contar com bonecos da Playmobil há quase dois anos. Só a gigante alemã dos brinquedos é que não achou piada

Pode uma brincadeira entre pai e filho resultar numa enorme arrelia para uma multinacional dos brinquedos? Ai pode, pode. E um comediante de Salónica já experimentou a ira do grande capital nesta Europa à deriva. Mas vamos lá por partes.

Tudo começou em 2013 quando Nikos Papadopoulos tentava deitar o filho mais velho recorrendo a bonecos da Playmobil. No meio da brincadeira surgiu a ideia de recrear cenas do quotidiano. Com os coloridos bonecos, claro.

Num estúdio improvisado na sala lá de casa já recriou dezenas de cenas, sempre à imagem da sua visão satírica do mundo. Ácida. Cáustica. Cada uma é fotografada e postada no Facebook.

Estreou-se a 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, com uma imagem que o deixou arrepiado: uma mulher com hematomas nos olhos. E apesar das tentativas da Playmobil, não mais parou. Da tragédia grega à crise dos refugiados.

Quando a notícia do afogamento de um bebé sírio numa praia turca correu mundo, Papadopoulos pôs uma mãe a embalar uma criança num barco sobrelotado. “Quis apenas lembrar que não existem migrantes ilegais, mas apenas migrantes”, disse ao “The Guardian”.

E voltou ao tema algum tempo depois inspirado por uma foto que viu na imprensa: a de uma turista deitada calmamente numa espreguiçadeira, numa praia da ilha de Kos, enquanto desembarca mais um grupo de refugiados. “Na imagem real esta mulher virou-lhes as costas, para que os refugiados não lhe estragassem as férias”, recorda Papadopoulos.

Na sua recreação, a mãe refugiada de burqa vermelha tem no colo uma criança enquanto na espreguiçadeira uma mulher de biquíni vermelho com bolinhas brancas coloca os óculos escuros. “É um alerta para todos aqueles que só pensam em si”, explica Papadopoulos.

Escravos de Merkel

Entre os seus temas favoritos está também a crise grega. Numa altura em que os ATM permitiam apenas levantar escassos 60 euros por dia, o comediante de Salónica decidiu retratar estas máquinas a escravizar os seus compatriotas e acrescentou em jeito de legenda: “Tenha medo de humanos vazios, não de ATM vazios”.

Angela Merkel também não escapa. Numa imagem postada nas vésperas das últimas eleições legislativas, a chanceler alemã surge com um chapéu viking com dois políticos gregos, quais cães de trela a comer euros. “Estes dois homens simbolizam os candidatos a primeiro-ministro da Grécia [Alexis Tsipras e Vangelis Meimarakis, de bigode], que para mim não são mais do que animais de estimação de Merkel”, explicou ao “The Guardian”. “O que está a acontecer no meu país matou a esperança, o otimismo os sorrisos, qualidades intrínsecas do povo grego”, acrescentou.

Tudo o que pretende, garante Papadopoulos, é ter graça, criticar o Governo e tornar bem visíveis os efeitos das decisões dos eleitores. “Enquanto pensarmos que os políticos são os únicos responsáveis pela situação atual, nada mudará”, disse.

Se Merkel, Tsipras e Meimarakis acharam ou não graça às sátiras de Papadopoulos ninguém sabe. Mas é certo e sabido que a Playmobil não se consegue mesmo rir. A empresa alemã conseguiu encerrar a versão original do blogue lançado em 2013, alegando, segundo Papadopoulos, “violação da marca” e “uso dos seus produtos parra fins políticos”. Quando o comediante voltou à carga, a Playmobil terá contratacado ameaçando com novo encerramento se o conteúdo de cariz político não fosse removido.

Após um processo negocial, quer o blogue quer a página no Facebook passaram a incluir um aviso em que resulta claro que as imagens de Papadopoulos não são propriedade, patrocinadas ou autorizadas pela Playmobil. “Tenho o direito de usar um brinquedo que comprei, da forma que entender, sem censuras”, argumenta o comediante. E a brincadeira continua.

Aos 36 anos, e depois de ter investido mais de 900 euros nos pequenos bonecos de plástico, Nikos Papadopoulos diz que não os vê como brinquedos mas como ferramentas poderosas. “Um boneco da Playmobil é algo de puro e inocente, mas quando os coloco numa cena humana e cruel, faço com que as pessoas voltem a olhar para eles com a mesma inocência com que os viam na infância”.