Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A greve de fome que abala Luanda

  • 333

Manifestação em Lisboa pela libertação dos presos políticos

João Relvas/ Lusa

O poder angolano tem dificuldade em lidar com contestatários com laços familiares dentro do próprio MPLA

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Em 1977, o pai, João Beirão, fora um dos jovens intelectuais angolanos a alistar-se como agente da mal afamada Direção de Informação e Segurança de Angola — DISA.

Trinta e oito anos depois, por ironia da história, o filho, Luaty Beirão, acaba de se converter, há três meses, num dos prisioneiros políticos mais célebres do sistema que o pai ajudou a erguer.

Novo símbolo de resistência ao regime de Eduardo dos Santos, que catapultou o pai para o cargo de diretor da sua fundação — FESA — o rapper angolano, de 33 anos, faz parte de um grupo de 15 jovens encarcerados sob a acusação de envolvimento numa alegada tentativa de golpe de Estado.

A ausência do Presidente José Eduardo dos Santos na abertura do ano legislativo esta quinta-feira, “por indisponibilidade temporária”, gerou uma imediata vaga de especulações. O discurso presidencial acabou por ser lido pelo vice-presidente, Manuel Vicente que tentou desvalorizar a detenção dos ativistas para privilegiar, em contrapartida a firmeza da estabilidade política interna.

“O discurso serviu, em parte, para exaltar o trabalho dos serviços de segurança” — disse ao Expresso Diamantino Fonseca, professor universitário.

Rejeitando quaisquer tipos de cedências a pressões externas, o Presidente angolano não deixou de advertir por interposta pessoa “entidades estrangeiras interessadas em instalar o caos e a desordem para provocar a queda de partidos políticos ou de dirigentes com os quais não simpatizam”.

A crítica encerra uma alusão indireta à eurodeputada do PS, Ana Gomes, eleita inimiga de estimação de Luanda, por causa das suas críticas públicas à forma como o sistema tem lidado com as manifestações de solidariedade para com Luaty Beirão e os seus companheiros.

Visibilidade e “disparates”

Apesar da condenação dos ativistas estar rodeada de carga “patriótica”, há distanciamento, mesmo em círculos afetos ao regime. “Ridícula” e “bizarra” são as palavras mais usadas, em certos meios da sociedade para satirizar a alegada intentona dos jovens detidos.

Em meios moderados do partido governamental, a estratégia utilizada pelo regime, está a causar tensão, pois o poder angolano está confrontado com um grupo de contestatários com ramificações familiares dentro do próprio MPLA.

“Esse é que é o dilema e quem está a dar visibilidade a este caso são os nossos próprios disparates” — disse ao Expresso um deputado do MPLA, que pediu o anonimato.

Partilhando de ideais que estão a provocar a ira dos serviços secretos angolanos, a causa de Luaty Beirão se, em certos círculos da sociedade angolana derruba barreiras e provoca algumas paixões, noutros meios mais radicais do regime, está a gerar, em sentido inverso, sentimentos de ódio.

“Luaty passou a ser odiado e a sua morte poderia ser um alívio para o partido do Presidente Eduardo dos Santos. Teria menos um crítico com que se preocupar...” — diz o ativista político, Rafael Marques.

O crescente movimento de solidariedade, dentro e fora do país, deixou, entretanto, de ser indiferente para o regime de Luanda. Receando ter de passar uma certidão de óbito em nome de Luaty, as autoridades preocuparam-se em exibir imagens televisivas sobre o seu estado de saúde.

À espera do pior

Os advogados de defesa dos ativistas continuam a protestar contra o excesso de tempo de prisão preventiva, que recai sobre os seus constituintes.

As autoridades negam categoricamente essa acusação. Em resposta à multiplicação de vigílias nas igrejas de Luanda, prontamente reprimidas pelas forças de segurança, o juiz-presidente do tribunal provincial de Luanda, Domingos Mesquita disse que “os juízes” em Angola “ são independentes e só devem obediência à lei e à sua livre consciência”...

“Agora, só o juiz da causa tem competência para decidir se eles devem, ou não, aguardar julgamento em casa” — defende o jurista José Carlos Miguel.
Profundamente debilitado e internado agora no hospital-prisão da cadeia de São Paulo em Luanda, o rapper angolano recusa interromper a greve de fome iniciada há vinte e cinco dias e continua a rejeitar receber tratamento médico.