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França. Regalias a migrantes nos comboios reforçam Marine le Pen

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Refugiados iraquianos à chegada à estação de Bellegarde-sur-Valserine, no oeste de França

JEAN-PHILIPPE KSIAZEK / Getty Images

Companhia dos caminhos de ferro franceses ofereceu regalias a migrantes clandestinos para viajarem em França. Pão benzido para os nacionalistas de Marine le Pen, que estão claramente à frente nas sondagens para as eleições regionais do próximo mês de dezembro

A decisão da SNCF, companhia dos caminhos de ferro franceses, de exonerar os migrantes de pagarem os preços das reservas em certos comboios que as exigem (entre três e dez euros), provocou uma vaga de protestos e reforçou as teses da extrema-direita francesa.

Marine le Pen e a sua sobrinha, Marion Maréchal-le Pen, da Frente Nacional (FN – partido nacionalista) e ambas favoritas para as eleições regionais de dezembro, respetivamente no norte (Calais) e no sul (Marselha), denunciaram “viagens gratuitas para os emigrantes… os outros, os estrangeiros, em vez dos nossos, os franceses”.

Mesmo Xavier Bertrand, ex-ministro conservador e próximo do ex-Presidente de Nicolas Sarkozy, que disputa a Marine le Pen a conquista da vasta região do norte da França, entrou na polémica dizendo que a medida da SNCF é “intolerável, dado que os emigrantes podem viajar sem pagar”. Marine acrescentou: “Dão bilhetes gratuitos a grupos de clandestinos para irem ainda engrossar mais os acampamentos insalubres, de Calais, dominados pelas máfias e os tráficos”.

A SNCF reagiu à polémica garantindo que “não oferece bilhetes gratuitos” mas apenas, em nome do “humanismo e de uma situação excecional”, a dispensa de serem pagas reservas para grupos de pessoas que necessitam de permanecer em grupo para serem evitados conflitos com outros viajantes.

No entanto, a polémica alastrou e chegou à Assembleia Nacional francesa, onde um deputado da direita sarkozysta perguntou ao primeiro-ministro Manuel Valls se os migrantes podiam viajar nos comboios “gratuitamente, em primeira classe”. Valls respondeu dizendo que o Governo não deu qualquer instrução à SNCF sobre este caso e que os viajantes migrantes “são sujeitos a controlos idênticos aos outros nos comboios”.

Marine favorita e PS à espera de derrota histórica

O debate ultrapassou, contudo, as fronteiras francesas, porque a larga maioria dos migrantes pretende chegar à cidade portuária de Calais e daí, através de camiões, navios ou do comboio Eurostar, atingir clandestinamente a Grã-Bretanha. Em Londres, políticos e jornalistas dizem que a decisão da SNCF tem implicações na imigração ilegal para a Grã-Bretanha e “aumenta a pressão migratória em Calais”.

Nesta cidade do norte da França estão acampados neste momento, em situação de grande precariedade, cerca de 4000 migrantes vindos da Síria, do Iraque e de diversos países africanos. Desde o passado mês de Junho, já morreram 15 clandestinos quando tentavam atravessar o túnel ferroviário sob o mar da Mancha para a Grã-Bretanha. Todas as noites há também feridos em incidentes com a polícia ou quando tentam saltar as barreiras com arame farpado que protegem o porto e a via-férrea.

Segundo as sondagens, Marine le Pen é favorita na região de Calais para a vitória nas eleições regionais de dezembro. Marion le Pen, sua sobrinha, também é favorita na região dos Alpes-Côte d’Azur.

As eleições decorrem sob a lei eleitoral maioritária a duas voltas, que não favorece a FN, mas desta vez mesmo a esquerda receia a vitória final do partido de Marine le Pen. Jean-Lus Mélenchon, líder da esquerda radical, bem como Pascal Cherki, deputado socialista, disseram recentemente ao Expresso que a Frente Nacional “pode de facto ganhar” nestas duas importantes regiões francesas.

Também Claude Bartolone, presidente da Assembleia e candidato pelos socialistas à liderança da região Paris-Ile de France, considera essa eventualidade possível. Bartolone vai mais longe e diz “estar certo” de que Marine le Pen “se qualificará para a segunda volta das eleições presidenciais de 2017”.

Na primeira volta das eleições regionais, as listas da FN podem chegar em primeiro lugar em cerca de metade das regiões. Os socialistas, no poder em Paris, poderão sofrer uma nova derrota histórica.