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#KillAllMuslims. Histórias de quem sofre diariamente com a islamofobia

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Duas mulheres usam o niqab em Londres

Peter Macdiarmid/ Getty Images

Esta hashtag foi uma das mais populares no Reino Unido após o atentado à redação do “Charlie Hebdo”. Mas a violência não se fica pelas redes sociais ou pelas palavras. Hira é muçulmana e numa viagem de comboio um grupo de homens meteu-se com ela. Entornaram-lhe álcool no casaco e perguntaram-lhe se queria beber um pouco

Hira estava a viajar de comboio no Reino Unido quando começou a ser motivo de chacota de um grupo de homens. A única coisa que a diferenciava das restantes pessoas naquela carruagem era o hijab que usava. Hira é muçulmana. “Comes bacon? Tens uma bomba debaixo do teu lenço?”, perguntavam os homens ao mesmo tempo que agitavam garrafas de uma bebida alcoólica junto ao rosto de Hira.

Ela pediu que parassem. Eles fizeram ainda pior: “Entornaram a bebida sobre o meu casaco”. Histórias como estas acontecem diariamente a homens e mulheres muçulmanos. Esta terça-feira, foi apresentado no Parlamento britânico um estudo que investigou casos de violência motivada pela islamofobia.

Naquele dia, Hira foi completamente ignorada pelos restantes passageiros. Tudo acontecia perante o olhar de várias outras pessoas mas ninguém foi capaz de fazer nada. “Melhor ter uma freira, do que não ter nenhuma”, cantarolavam os agressores. Nem uma pessoa se levantou do lugar ou pediu ao grupo de homens que parasse.

Hira não é caso único. No relatório “Tememos pelas nossas vidas. Experiências offline e online de hostilidades antimuçulmanas”, das criminologistas Imran Awan, da Universidade de Birmingham, e Irene Zempi, da Universidade de Nottingham Trent, são contadas as histórias de Asma, Faisal, Sophie, Sarah, Hamza e outros 14 muçulmanos, que aceitaram dar o seu testemunho.

Todos têm entre 20 e 50 anos. E são “visivelmente identificados” como praticantes da doutrina islâmica. No caso das mulheres porque usam o hijab (lenço que cobre a cabeça) e/ou o niqab (veste que apenas deixa os olhos à mostra). Já os homens são identificados pelas barbas mais compridas ou pelas roupas.

A violência acontece em lugares públicos, sem que ninguém ajude

Asma era parteira numa maternidade. Numa das noites em que estava de serviço na enfermaria, uma mulher entrou em trabalho de parto e, como fazia parte do seu dever, dirigiu-se até à paciente. “Quando me viu com o hijab, [a grávida] começou a ofender-me. Gritava que não queria que o seu bebé visse a minha cara de terrorista e mandou-me voltar para o meu país”, lembrou Asma.

Deixou aquele trabalho porque sentia que “muita gente” a odiava. Agora, dedica-se a tempo inteiro a ajudar mulheres muçulmanas que são vítimas de violência. Numa outra ocasião, quando estava na fila para pagar no supermercado, a mulher que a precedia arrancou o lenço que cobria a cabeça de Asma.

Segundo o relatório apresentado esta terça-feira, os incidentes acontecem com mais frequência a mulheres do que a homens, pois são mais facilmente identificadas.

Faisal também é muçulmano. Em tempos, trabalhava como segurança numa loja e diariamente fazia as suas orações num armazém, deixando sempre a porta entreaberta. Uma vez, um colega trancou-o de propósito. O muçulmano bateu na porta vezes sem conta. Nada aconteceu. Acabou por telefonar para a loja a pedir ajuda, mas quem atendeu foi o mesmo colega que o tinha fechado.

“Ameaçou-me e disse para regressar o meu país, porque era o Osama Bin Laden”, contou Faisal às criminologistas.

Agressores escondidos atrás do computador

Se histórias destas acontecem no local de emprego e nos transportes públicos sem que ninguém intervenha, imagine-se nas redes sociais, onde o agressor se esconde atrás de um ecrã. #KillAllMuslims foi uma das hastags mais populares no Reino Unido após os atentados à redação do “Charlie Hebdo”, em Paris, em janeiro de 2015.

“Esta hashtag era acompanhada por um sem número de comentários provocativos e racistas que tinham como alvo os muçulmanos e o Islão. Também, após o ataque terrorista na Tunísia, uma série de mensagens de ódio contra o islamismo foram partilhadas em redes sociais como o Facebook, Twitter Instagram, MySpace, Hi5 e Bebo”, lê-se no estudo “Tememos pelas nossas vidas. Experiências offline e online de hostilidades antimuçulmanas”.

Para Imran Awan e Irene Zempi, responsáveis pelo relatório, é necessário fazer algo rapidamente para mudar esta situação. As escolas, são o ponto de partida: “Desenvolver packs para ajudar os professores a identificarem o ódio contra o Islão das outras diferentes formas de ódio”.

O relatório apela ainda que as vítimas denunciem as agressões, que muitas vezes são abafadas dentro das comunidades muçulmanas. Também é pedido que as testemunhas reajam e que ajudem “as vítimas de islamofobia sempre que possível”.

  • “Em nome da minha voz, que é a voz da minha geração, deixem que esta história vos conte a verdade”

    A luta pela igualdade faz-se de muitas maneiras e Sonita sabe-o. Dos Estados Unidos, onde conseguiu um visto e uma bolsa para estudar, canta às mulheres afegãs: “Em nome desta caneta, que é a minha arma, e da minha voz, que é a voz da minha geração / Deixem que esta história vos conte a verdade, a história das mulheres indefesas no Afeganistão”. Sonita, a refugiada afegã que canta rap pelos direitos das mulheres - e que fugiu para não casar à força