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Turquia. Dor e protestos depois da carnificina

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Funerais de algumas das 128 vítimas decorreram hoje

DENIZ TOPRAK

A jornada de hoje foi de luto – e protesto – um pouco por toda a Turquia, depois do mais mortífero ataque terrorista de sempre ter vitimado ontem pelo menos 128 pessoas, e ferido cerca de 250, durante uma manifestação pró-curda a favor da paz em Ancara

Na capital turca, mas também em dezenas de outras cidades pelo país fora, milhares de pessoas saíram espontaneamente às ruas para prestar homenagem às vítimas e protestar contra o Governo – que aos olhos de muitos promoveu um clima conducente a estes atentados e negligenciou a segurança pública.

Em Ancara, vários milhares de pessoas rumaram ao local do trágico atentado para depositar cravos vermelhos. Ontem à noite, e outra vez hoje, milhares de pessoas desfilaram também em Istambul. “Erdogan assassino”, “Demissão do Governo já!”, ouvia-se amiúde. Aqui e ali, algumas manifestações acabaram em violência e confrontos com a polícia.

Com a omnipresente bandeira turca desfraldada a meia haste por todo o país – o Governo decretou três dias de luto nacional, hoje decorreram também os primeiros funerais das vítimas – jovens pertencentes à juventude do CHP (maior partido da oposição, republicanos laicos), militantes de partidos da extrema esquerda, muitos curdos, incluindo uma candidata ao parlamento, um rapaz de 9 anos. Gente anónima, pacífica, tolhida por dois bombistas suicidas quando pediam apenas paz.

Hoje, analistas, políticos, jornalistas e o cidadão comum começam a analisar e questionar, depois do choque de ontem. Porque é que o presidente Recep Tayyip Erdogan – o verdadeiro homem-forte do regime - ainda não veio a público, após o curto comunicado de condenação do atentado? Será este o 11 de Setembro turco?

Ontem, o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu falou à nação – classificando o atentado como um “ataque contra a Turquia”, e não contra um grupo particular – e o alvo foi claramente o setor da sociedade pró-curdo. Davutoglu lançou um apelo aos líderes da oposição nacionalista e republicana para um diálogo, mas ignorou o líder do partido curdo, Selahattin Demirtas, que ontem passou o dia a acusar o Governo de ser o “responsável último pela atrocidade”.

O mesmo Demirtas apelou este domingo, num discurso emotivo perante os milhares de manifestantes em Ancara, que não procurassem vingança, antes utilizassem as eleições do próximo dia 1 de novembro para acabar com o “ditador” Erdogan.

Os nacionalistas também recusaram o diálogo com Davutoglu, mas o líder do maior partido da oposição (esquerda republicana laica) teve hoje uma longa audiência com o primeiro-ministro, “porque o país precisa de solidariedade”. À saída, confirmou que exigiu a demissão dos ministros do interior e da justiça, pelas falhas de segurança que permitiram o atentado.

Suspeitas recaem sobre jihadistas associados ao Exército Islâmico

Apesar de nenhum grupo ter ainda reivindicado o atentado, tudo aponta para que o mesmo tenha sido cometido por simpatizantes do Exército Islâmico – durante o fim de semana vários sites jiadistas regojizaram com o ataque, elogiando a morte de “ateus”.

No fim de julho, outro bombista suicida (um turco com ligações jihadistas) fez-se detonar contra outra manifestação pró-curda em Suruç, uma cidade junto à fronteira com a Síria, tendo vitimado na altura 33 jovens activistas pró-curdos, com explosivos muito semelhantes aos utilizados ontem. Alguns meios de comunicação social turcos avançam com a notícia que existem suspeitas que um dos bombistas do ataque em Ancara poderá ser o irmão do bombista de Suruç.

PKK declara cessar fogo – e é bombardeado

Ontem também, pouco depois do atentado, os separatistas curdos do PKK, que retomaram a luta armada no final de julho, precisamente após o atentado de Suruç, declararam um cessar-fogo unilateral.

Este não foi uma reação à bomba, já que tinha sido decidido na véspera para “permitir o desenrolar do período eleitoral em condições de segurança”, mas a verdade é que a guerra no leste do país continua – ontem mesmo jatos turcos bombardearam posições dos separatistas curdos no leste da Turquia e no norte do Iraque, tendo morto entre 40 a 50 militantes, enquanto dois soldados turcos morreram noutra operação na província de Erzurum.