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Polícia invade casa de Afonso Dhlakama

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Cadáver no local da emboscada à caravana do líder da Renamo

ANDRE CATUEIRA / EPA

Receou-se pela vida do chefe oposicionista e a tensão não abrandou

Lázaro Mabunda

Lázaro Mabunda

correspondente em Maputo

Jornalista, correspondente em Maputo

Na manhã de sábado, quando o líder da Renamo Afonso Dhlakama se preparava para dar uma conferência de imprensa, a Unidade de Intervenção Rápida (UIR) da polícia cercou e invadiu a sua residência na cidade da Beira.

A ação policial ocorreu um dia depois de Dhlakama ter regressado das matas da Gorongosa, onde se tinha escondido há duas semanas depois de a sua coluna de viaturas ter sofrido uma emboscada.

Na véspera, uma equipa que incluía Alice Mabota (Liga dos Direitos Humanos), Dom Dinis Sengulane (bispo-emérito da Anglicana) e Lourenço de Rosário (reitor da Politécnica), fora buscá-lo ao esconderijo e trouxera-o para a Beira.


Afonso Dhlakama reagiu à invasão da sua casa, afirmando não querer ser protegido pela UIR nem pela Polícia de Proteção. “No passado já o tentaram e só houve problemas. Quero que saiam da minha casa porque já levaram três armas e 16 dos nossos guardas”.


Depois de apreender armas e revistar a casa de Dhlakama, a UIR abandonou a residência do líder da oposição. Na mesma altura, segundo escreve o “Canal de Moçambique”, a população da Beira saiu à rua para protestar contra a ação da polícia. A província de Sofala (cuja capital é Beira) é um bastião da oposição, tal como Zambézia e Nampula.

A purga da oposição

Para já, a situação teve uma ligeira acalmia, mas a tensão permanece. Para compreender o que agora ocorreu, há que recuar uma década nas relações entre Governo e oposição.

Quando, em 2005, Armando Guebuza tomou posse como Presidente da República, uma das suas primeiras grandes decisões foi convocar, para 2006, de forma antecipada, o 9º Congresso da Frelimo. O seu objetivo era acelerar a reforma interna no partido.

Essa reforma visava recuperar o domínio da Frelimo sobre o Estado, retomando os métodos usados no período do partido único: instalação de células partidárias aos vários níveis da máquina estatal para controlar os membros da oposição e afastá-los das posições de chefia.

Nessa altura, tinha começado a ser anunciada a descoberta de grandes recursos minerais, onde avultavam gás natural e carvão, além de rubis e ouro. Perante este cenário, a prioridade governamental era garantir o controlo destas riquezas para que não caíssem nas mãos de “quem não libertou o país” ou dos “bandidos”, como chamavam à Renamo.

Controlo partidário 
da máquina do Estado

Como afirma Víctor Igreja, académico moçambicano e docente nas universidades australianas de Queensland e Southern Queensland, após a sua vitória, o Presidente Guebuza iniciou “um ciclo de reformas políticas radicais com pouca ou nenhuma consideração pelas vozes das forças políticas na oposição.”

O retorno das células do partido no Estado foi responsável pela exclusão política, social e económica da oposição, a que se assistiu em Moçambique, sobretudo após 2006.

Víctor Igreja rejeita a tese de que as origens da segunda guerra civil (2013-2014) tenham tido a ver com a descoberta de recursos naturais. Defende que um estudo das origens da guerra requer uma análise de longo prazo das relações hostis entre a Frelimo e a Renamo, particularmente de como recordações de conflitos ainda por resolver da primeira guerra civil (1977/92) dificultaram as tentativas destes antigos inimigos de se tornarem intervenientes políticos legítimos, coisa que não se restringe ao cumprimento dos meros formalismos da lei.

Deve destacar-se que alguns setores importantes do partido Frelimo interpretaram o Acordo Geral de Paz como representando uma perda e uma humilhação, uma vez que estipulava uma partilha do poder com a Renamo por via do controlo equitativo das forças de defesa e segurança, particularmente das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM).

Para esses sectores radicais da Frelimo, a partilha foi interpretada como uma perda de soberania, que contradiz a perceção de que “a Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz”.