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Depois do Trump Show, a viragem da ‘candidata teflon’

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Hillary, bem disposta, numa reunião recente com defensores dos direitos humanos

Joshua Roberts / Reuters

A dois dias do primeiro debate, equipa de Hillary diz que não há escândalo que se lhe cole

Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA

A rua Fox Run, em East Greenwich, Rhode Island, assemelha-se a um ascensor social. À medida que se sobe, o luxo aumenta. Os bungalows dão lugar a mansões, os velhinhos Chevrolet desaparecem e surgem Teslas de todas as cores (carros elétricos que custam mais de 100 mil dólares/ 88 mil euros) e os quintais transformam-se em campos de golfe.

Perto do número 105, o sossego é interrompido. Carros da polícia e dos serviços secretos bloqueiam a estrada, enquanto os agentes vistoriam os pertences de todos os convidados VIP que seguem até ao 145, residência de Mark Weiner, advogado e ex-presidente do Partido Democrata, situada no fim da Fox Run.

Cada um pagou no mínimo 2700 dólares (2400 euros) para ouvir Hillary Clinton, candidata à nomeação democrata às presidenciais de 2016. “Há quem tenha dado muito mais”, assegura, ao Expresso, Brian Bass, coordenador local da campanha.

Após um pequeno-almoço com empresários no centro da cidade de Boston e de um churrasco do outro lado do rio Charles, em Cambridge, esta é a última paragem num dia dedicado à recolha de fundos.

“Scooby”, a carrinha blindada de Hillary, passa atrasada, seguida de cinco carros da polícia. Não para e os vidros foscos parecem isolar, ainda mais, a candidata das dezenas de simpatizantes. Menos de meia hora depois, arrecadados 300 mil dólares (266 mil euros), a “Scooby” parte em alta velocidade. Contas feitas, a jornada rendeu quase um milhão (888 mil euros).

Tudo isto se passou há quatro meses. Agora, a popularidade da ex-primeira-dama baixou para 38%, uma queda de mais de 20% desde março. A três dias do primeiro debate televisivo entre os cinco candidatos à nomeação democrata, pergunta-se se Hillary é imparável ou se o malogro de 2008 (ultrapassagem por Obama) se repetirá.

“A antiga primeira-dama percebeu o risco de só se preocupar com o dinheiro e saiu do seu bunker”, diz Kyle Kondik, professor de Ciência Política na Universidade da Virgínia. A passagem, há uma semana, pelo programa “Saturday Night Live” — uma piscadela de olho à geração Y —, ilustra esta viragem.

Igualmente ouvido pelo Expresso, Joel Aberbach, presidente do Centro de Estudos Políticos Americanos da Universidade da Califórnia e consultor do Congresso, conclui: “Não há candidatos inevitáveis e Hillary teve de arregaçar as mangas. Porém, se tivesse que apostar punha tudo em Hillary”.

A maioria das sondagens dá uma vantagem superior a 20% sobre o segundo classificado, o senador do Vermont, Bernie Sanders, o que confirma o pragmatismo de Aberbach. Contudo, a candidata está em dificuldades nos dois primeiros estados que vão a votos — no Iowa lidera por apenas 5% e no New Hampshire (NH) perde por 15%.

Reais ou alegados escândalos têm surgido. É o caso das investigações do FBI ao alegado uso ilícito de uma conta de correio eletrónico pessoal para troca de mensagens de trabalho, quando Hillary liderava o Departamento de Estado.

“Fala-se muito, mas os escândalos não colam. Já lhe chamam candidata teflon”, afirma, ao Expresso, Kathleen Sullivan, uma das diretoras estaduais da campanha de Hillary e ex-presidente do Partido Democrata no NH. Kathleen recorda, também, que candidatos como Bernie Sanders, líderes nas sondagens de verão em New Hampshire, nunca ganham. “Em 2008, Obama seguia destacado e acabou por perder”.

E se o rival for outro? Quarta-feira de manhã, as televisões mostravam um vídeo de 90 segundos, intitulado: Joe Biden, “my redemption” (a minha redenção). Paisagens bucólicas, música triste e sob pano de fundo, direta ao coração dos americanos, a voz do vice-presidente dos Estados Unidos: “(...) A minha mulher e os meus três filhos estavam a fazer as compras de Natal. No regresso, ela e a minha filha morreram num acidente. Não sabia se os meus filhos sobreviveriam. A minha relação com eles não seria tão forte se não tivéssemos vivido aquela tragédia. Ao centrar-me nos meus filhos, encontrei a minha redenção”.

O trabalho, patrocinado pelo grupo “Draf Biden 2016”, é uma produção de Mark Putnam, o mesmo que elaborou os vídeos de Obama na campanha de 2008. O Expresso contactou esta equipa para saber se o trabalho era um prenúncio de candidatura. Um dos diretores aceitou falar sob anonimato, isto porque a organização é um “Super-PAC” (dador de fundos) e, legalmente, não pode coordenar a campanha com a equipa oficial.

“Direi, apenas, que desejamos que ele avance”, contou-nos. Após insistência, já em final de conversa, surge uma revelação: “Em breve teremos notícias, até porque o tempo está a esgotar-se”. Confrontada com este dado, Kathleen Sullivan, diretora estadual da campanha de Hillary Clinton, garante que nada mudará, até porque “Biden concorreu duas vezes (1988 e 2008) e perdeu”.

Silly season termina e Donald Trump desce

Até quinta-feira, a campanha de Donald Trump terá de mostrar ao Comité Eleitoral os gastos do último trimestre. “Tudo indica que só gastou dois milhões de dólares (1,7 milhões de euros). É uma gota no oceano. A candidatura não é para levar sério, pois não parece disposto a arriscar o seu dinheiro”, diz ao Expresso Kyle Kondic, professor de Ciência Política na Universidade da Virgínia. Pela primeira vez, o magnata desceu nas sondagens (a CNN dá quebra de 32% para 24%). Em entrevista à ABC, Trump reagiu: “Se as sondagens mudarem, saio. Não sou masoquista.” Para Kondic, “ele aproveitou o vazio noticioso da silly season e ofereceu um reality show ao país. Agora é a sério”. Depois da apresentação do programa de política externa a bordo de um navio de guerra, que deixou os republicanos John McCain e Lindsey Graham boquiabertos, Trump falou de reforma fiscal. Nos conservadores houve gargalhadas. Foi o caso do “Club for Growth”, cujo diretor, David McIntosh, explicou: “Se o plano dele fosse concretizado, acrescentaria 10 biliões de dólares [8,8 mil milhões de euros] à dívida americana”. Parte dos republicanos continua apaixonada, mas a população não. O diário “USA Today” pediu aos leitores cinco palavras para caracterizar Trump. As preferidas foram: “Idiota, arrogante, maluco, egoísta e bombástico”...