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Tinha 17 anos e manifestou-se contra o regime saudita. Vai ser decapitado e crucificado

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Um jovem que gostava de carros e de se divertir, poderá pagar com a vida a sua oposição ao Governo da Arábia Saudita

Luís M. Faria

Jornalista

A Arábia Saudita rejeitou apelos internacionais para poupar a vida de Ali Al-Nimr, um homem de 21 anos que foi preso na sequência de protestos durante a chamada Primavera Árabe, em 2011. Al-Nimr foi acusado de incitar à revolta, entre outros crimes. O processo foi descrito como injusto pelas organizações humanitárias, as quais consideram inaceitável condenar à morte um jovem que tinha apenas 17 anos à data dos factos que lhe são imputados.

Após dois recursos falhados (o último dos quais julgado em segredo, sem a presença do advogado do réu), a condenação tornou-se definitiva. Para ser consumada, falta apenas a assinatura do rei Salman. É sobre ele que recaem os pedidos de clemência, até agora sem sucesso. Ante a iminência de uma possível execução – que terá lugar por decapitação, seguida de crucificação – os protestos multiplicam-se. A última ação concreta teve lugar em Itália, onde a Arábia Saudita acaba de ser destituída do estatuto de convidado de honra que ia ter na Feira do Livro de Turim, em 2016.

O Governo do reino não apreciou. Escrevendo esta terça-feira no diário “Corriere Della Sera”, o embaixador saudita lembrou aos italianos que o seu país nunca foi uma colónia, disse que cada país tem os seus ritmos próprios de modernização e garantiu que o caso tem natureza puramente criminal. Segundo ele, Ali Al-Nimr atacou polícias com armas e cocktails molotov, ofereceu “proteção e assistência” a “terroristas procurados”, causou “danos em negócios e farmácias”. Dado o modo como foram obtidas, porém, estas alegações têm escassa ou nenhuma credibilidade. E a família de Ali Al-Nimr insiste que ele não tinha armas.

O azar foi ter aquele tio

Acima de tudo, o jovem usou o seu Blackberry para ajudar a organizar manifestações. Foi isso que muitos fizeram durante a Primavera Árabe, e a Arábia Saudita não o tolera. Quando essas manifestações aconteceram no vizinho Bahrein, o país enviou meios de apoio à repressão violenta. Dentro do próprio reino, aumentou a repressão nas zonas xiitas a Leste, por recear que o Irão, seu principal rival na região (e de maioria xiita, ao contrário da Arábia Saudita) pudesse querer tirar partido de uma eventual confusão.

Ali Al-Nimr foi apanhado no meio desse contexto, e não ajuda o facto de ser sobrinho de um importante opositor do regime, o xeque xiita Nimr Bakr al-Nimr, igualmente condenado à morte por um tribunal especial saudita. O xeque parece ter apelado à resistência pacífica das massas, mas o seu papel de líder tornou-o inaceitável para as autoridades. Terá sido torturado na prisão, tal como o seu sobrinho. Este último insiste em manter-se otimista, mas diz que se morrer já teve uma vida boa.

Entretanto, diversos Governos já se viram embaraçados pela sua proximidade a Riade. Um deles é o britânico, que não negou ter feito um acordo secreto com os sauditas para que tanto eles como o Reino Unido passassem, em 2013, a integrar o… Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas.