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Internacional

Políticos no Tennessee, para já, não vão pedir desculpa a Deus por causa do casamento gay

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A proposta não chegou a ser votada, por o comité ter sido suspenso. E o destinatário do eventual pedido continua em silêncio

Luís M. Faria

Jornalista

O condado de Blount (Tennessee), para já, não vai rejeitar formalmente a legalidade de certas leis. Mas era esse o ponto de vista dos líderes políticos que queriam votar uma resolução a pedir desculpa a Deus pelo facto de o Supremo Tribunal norte-americano ter afirmado que o casamento gay é um direito constitucional. A resolução invocava a fórmula ritual “so help me God” (assim Deus me ajude), que é usada no juramento dos congressistas norte-americanos, para alegar a ilegalidade de quaisquer leis que ofendam a lei natural, tal como definida na Bíblia.

“Nem todas as ordens que reclamam autoridade à cor da lei são legais”, dizia o texto proposto. Incitando os políticos do estado a “proteger o Casamento Natural das opiniões judiciais ilegais E DOS esquemas financeiros dos inimigos da retidão, qualquer que seja a sua fonte, e a defender os Padrões Morais do Tennessee”, os comissários pediam a Deus que passasse ao lado da terra deles “na Sua Ira Vindoura, e não destrua o nosso condado como fez a Sodoma e Gomorra e às cidades vizinhas”.

E continuavam: “Assim como o Cordeiro Pascal foi o meio da salvação para as antigas Crianças de Israel, contamos nós com a segurança do Cordeiro de Deus para nos salvar”. Em conclusão, “pedimos o Seu favor à luz do facto de que fomos obrigados a cumprir e reconhecemos que o estado do Tennessee, como outros Estados tementes a Deus, PODEM ter caído nas garras de um judiciário ilegal ao legalizar o que Deus e a Bíblia proíbem expressamente”.

“Cobardes”, gritou-se entre o público

A resolução foi preparada pela comissária do condado, Karen Miller, republicana e recentemente eleita. Houve quem alegasse que a Bíblia também fala de amor e misericórdia, mas deve ter sido o embaraço provocado pelo facto de o caso se ter tornado uma notícia internacional, alvo de humor em muitos países, que levou o comité a suspender a reunião onde a resolução devia ter sido votada.

Nem toda gente ficou satisfeita. A assistir à reunião estavam umas 150 pessoas, e várias delas manifestaram choque e indignação, chamando cobardes aos comissários. O condado tem uma população oficial de 126.339 pessoas, 95% branca. Não é o primeiro exemplo desse tipo de resoluções a desafiar a lei, nesse estado ou noutro, e não há-de ser o último. As chamadas guerras culturais mantêm-se vivas na América.