Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Crime de guerra? Da negação à contrição

  • 333

KEVIN LAMARQUE / REUTERS

O trágico caso do bombardeamento de um hospital em Kunduz, no Afeganistão, tem dado lugar a uma trapalhada de reações made in América. Os Médicos Sem Fronteiras falam em “crime de guerra” e querem uma investigação internacional independente sobre o ataque aéreo que no sábado vitimou 12 dos seus funcionários e 10 pacientes, três dos quais crianças. Esta quarta-feira, Obama voltou a falar sobre o assunto para pedir desculpa

As primeiras informações de militares norte-americanos indicaram que um ataque às suas forças nas imediações do hospital dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), sábado na cidade afegã de Kunduz, haviam-nos obrigado a reagir lançando o ataque aéreo, que se soube depois ter causado 22 mortos – 12 funcionários dos MSF e 10 pacientes, três dos quais crianças - e 37 feridos.

O comandante das forças norte-americanas no Afeganistão, general John Campbell, desmentiu posteriormente estas primeiras indicações, declarando que o bombardeamento tinha ocorrido em sequência de um pedido de auxílio das autoridades afegãs, acrescentando: “nós não atacamos esse tipo de alvos, obviamente”.

Perante o embaraço que a situação estava a causar, declarou ainda que os Estados Unidos “tomam grandes medidas para evitarem atingir civis”, acusando os talibãs de levarem os combates “para dentro de áreas densamente urbanizadas, colocando intencionalmente civis em risco”.

Obama lamentou e prometeu investigação

Entretanto, no domingo, dia 4, o Presidente norte-americano lamentou o sucedido, declarando que ia ser levada a cabo uma completa investigação para apurar as responsabilidades e que só depois se poderá julgar as circunstâncias.

Mas passdos apenas três dias, Barack Obama foi um pouco mais longe e esta quarta-feira reconheceu que foi um erro das Forças Armadas norte-americanas. Pediu desculpa ao Presidente afegão e apresentou condolências à presidente dos Médicos Sem Fronteiras, Joanne Liu. De acordo com um porta-voz da Casa Branca, as famílias das vítimas poderão ser indemnizadas pelo Departamento de Defesa.

O ministro da Defesa do Afeganistão já tinha justificado o sucedido com o facto do complexo hospitalar dos MSF em Kunduz, cidade na mãos dos talibãs, que se teria tornado num local de refúgio para “terroristas armados”.

Os MSF reagiram declarando que isso não era verdade, ao mesmo tempo que consideraram que tais declarações representavam o assumir do ato de bombardear intencionalmente o seu hospital, o que consiste num “crime de guerra”. Afirmando que a investigação militar norte americana não seria suficiente, apelaram a uma investigação internacional independente, ao mesmo tempo que anunciaram que retiravam todo o seu pessoal de Kunduz.

Nova versão: o hospital foi “acidentalmente atingido”

O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'an Al Hussein, também avançou para a hipótese de responsabilização criminal afirmando: “Os responsáveis militares internacionais e afegãos têm a obrigação e responsabilidade de respeitar e proteger sempre, e as instalações médicas e seus funcionários são alvo de proteção especial. Estas obrigações aplicam-se independentemente de que força aérea que esteja envolvida”.

Falando perante um comité do senado para as forças armadas, o general John Campbell disse depois que o hospital fora “acidentalmente atingido” durante o ataque aéreo, lamentando o “erro trágico” e voltando a afirmar que “nunca atacariam intencionalmente instalações médicas protegidas”, referindo também não poder ainda fornecer muitas informações especificas sobre o sucedido por a investigação ainda se encontrar em curso.