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Vida em Marte? “Acho muito pouco provável, mas como cientista tenho de deixar a hipótese em aberto”

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NASA/REUTERS

Pedro Machado, especialista em atmosferas planetárias, diz ser a favor da exploração espacial com humanos, mas lembra que para o Homem viajar até Marte ainda há muito a fazer

Pedro Machado é especialista em atmosfera planetária, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e, como a demais comunidade científica, está entusiasmado com a descoberta anunciada esta segunda-feira pela NASA: há água em estado líquido em Marte. O investigador português acredita, no entanto, que, apesar da descoberta, é “muito pouco provável” que haja vida no planeta vermelho, mas garante que como homem da ciência tem de deixar “essa hipótese em aberto”.

“Para haver vida microbiana é muito importante a água em estado líquido. Eu pensava que poderia ter havido vida em Marte no passado, quando tinha uma atmosfera mais quente e tinha um efeito de estufa mais intenso, o que possibilitava as temperaturas serem mais compatíveis com a existência da vida como nós a conhecemos. Pensava que isso já não seria possível, eventualmente, poderia haver restos, algumas marcas quase como os fosseis na terra. Isso era o que eu pensava. Haver água no estado líquido, este ciclo da água subterrânea que chega à superfície e volta para o interior, isto pode significar que há vida microbiana em Marte. Pessoalmente, acho muito pouco provável, mas como cientista tenho de deixar essa hipótese em aberto”, explica.

Na conferência de imprensa desta segunda-feira, Alfred McEwen, um dos responsáveis pela investigação, tinha uma opinião bastante diferente: é “altamente provável” haver vida microbiológica. Pedro Machado diz que estas diferenças entre cientistas são muito normais e que fazem parte da “maravilha da ciência”.

NASA

Um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a humanidade

Depois da lua, será agora a vez do Homem ir a Marte? Ainda há muito a fazer para isso acontecer, diz Pedro Machado. “A nível científico, existem ainda muitas dificuldades para se faça uma viagem a Marte em segurança. Espero que se venha a fazer, porque nós temos de sonhar e pensar mais além. Sou totalmente a favor da exploração espacial e exploração espacial com humanos”, afirma.

Problemas como a radiação à superfície de Marte - o planeta vermelho “não tem um campo magnético que proteja como há na terra, que nos protege das partículas emitidas pelo vento solar” -, as questões logísticas do abastecimento de alimentos, água e oxigénio, bem como a baixa pressão atmosférica marciana, que coloca muitas dificuldades em “termos de engenharia”, dificultam a concretização da “viagem em segurança”.

“Diria que a questão de se concretizar esta viagem em segurança é algo a ter em conta. Acho muito bem ir, mas primeiro deveríamos montar uma base na lua, que é mais perto. Porque acho que há espaço e espaço, há ir e voltar com segurança. Esta coisa de se fazer as viagens só de ida sou totalmente contra. A vida é algo tão frágil, inclusive, é disso mesmo que estamos à procura. Vamos começar por ter em conta a [vida] que já conhecemos”, referiu Pedro Machado.

Além da dificuldade científica e da segurança, há ainda a questão política, que é determinante para o financiamento da viagem a Marte. O cientista português recorda, que na altura da chegada à Lua, Estados Unidos da América e União Soviética estavam em plena corrida espacial. “Foi o grande empurrão que levou a que houvesse muito dinheiro”, lembra.

Por agora ainda não há previsão para que o Homem pise solo marciano, mas a NASA já disse que nos próximos três anos vai enviar três naves espaciais até ao planeta vermelho para investigar. “Enviaremos, num futuro muito próximo, cientistas para lá”, acrescentaram.

NASA/REUTERS

Água superficial, líquida, salgada e escorrente

“Para já o mais importante, além de ser água salgada, é ser água líquida, escorrente e superficial”, explica ao Expresso Pedro Machado.

A água em Marte é salgada devido essencialmente a dois fatores: temperatura e pressão atmosférica muito baixas. “O sal faz baixar a temperatura de fusão dos líquidos e por isso o facto de haver muitos sais nessa água é que faz estar líquida à superfície. Mais ou menos como um ribeiro, só que é intermitente e acontece apenas em algumas alturas do ano. É um pouco como quando se poe o sal nas estradas da Serra da estrela para não congelar a água”.

Já há algum tempo que se suspeitava que em Marte poderia existir água. Em tempos foram detetados “nas falésias, nas encostas de crateras e nas montanhas” uns laivos azulados, que os os cientistas pensaram estar relacionado com a existência de agua escorrente. Mas não era: “Na verdade era um mineral, piroxenos”.

Depois de vários anos, agora, é finalmente corroborada a hipótese da existência de água escorrente em Marte. Uma sonda da NASA que está a orbitar naquele planeta tem dois instrumentos de alta resolução, um de imagem e um espectrómetro, descobriu a assinatura espetral de sais hidratados à superfície, que só é possível manterem-se se houver com alguma regularidade agua escorrente/superficial”, explicou Predo Machado. Também os rovers da estação espacial americana, que estão a fazer observações à superfície, confirma a presença de água.

Não diminuindo a mais recente descoberta, que está a agitar o mundo cientifico, Pedro Machado lembra que isto é apenas o princípio: “Ainda existem muitos mistérios em Marte”.