Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Herói. Militar norte-americano conta como neutralizou um terrorista num TGV a caminho de Paris

  • 333

O chefe do Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa, general José Pinheiro, a tenente-coronel Diná Azevedo e o primeiro-sargento Spencer Stone brindaram, esta segunda-feira ao final da tarde, em Lisboa, aos 68 anos da Força Aérea Norte-americana. Um mês depois dos confrontos no comboio a caminho de Paris, o jovem militar acredita que vai recuperar totalmente dos ferimentos sofridos

Spencer Stone, 23 anos, é um dos heróis do momento. Há precisamente um mês, juntamente com dois amigos de infância, todos de férias na Europa, neutralizaram um ataque terrorista num comboio entre Amesterdão e Paris. De regresso às Lajes, onde cumpre destacamento, este técnico de saúde da Força Aérea norte-americana recorda os minutos alucinantes em que lutou com um homem armado com uma metralhadora Kalashnikov

Carlos Abreu

Jornalista

Quando a 21 de agosto, Spencer Stone, um jovem militar norte-americano, de férias na Europa juntamente com dois amigos de infância, apanhou o comboio de Amesterdão para Paris, jamais poderia imaginar que haveria de conquistar o invejável estatuto de herói mundial. Os três, Spencer, Alek e Anthony, todos na casa dos vinte e poucos, com a ajuda de um treinador de râguebi britânico, Chris Norman, conseguiram imobilizar um marroquino, armado com uma metralhadora Kalashnikov (AK-47), uma pistola de 9 mm e um x-ato, identificado como Ayoub El Khazzani, agora com 26 anos. Na verdade, um outro passageiro tentou, antes dos três norte-americanos, travar o mais que provável atentado terrorista, mas acabaria baleado no pescoço. E foi Stone, também golpeado com gravidade numa mão que também lhe haveria de prestar os primeiros socorros.

Homem de quase dois metros, bem constituído, olhos azuis, afável, sereno, bem-humorado, fardado a rigor… Spencer (e os seus amigos) viveram no último mês, momentos inesquecíveis. O Presidente François Hollande atribui-lhes a Legião de Honra, a mais alta condecoração francesa. Obama recebeu-os na mítica sala oval da Casa Branca, na capital Washington, cidade que nenhum deles conhecia, e emitiu uma nota onde descrever os três jovens como “o que a América tem de melhor”. Horas depois, durante uma cerimónia no Pentágono, o ministério da Defesa dos EUA, onde centenas de militares prestaram homenagem aos três amigos, Spencer recebeu a “Airman Medal”, distinção atribuída pela Força Aérea por ações heroicas, e uma “Purple Heart”, por ferimentos sofridos em combate. E foi promovido a primeiro-sargento pela forma como se comportou depois do ataque, informou o chefe do Estado-Maior da Força Aérea dos EUA, general Mark Welsh.

De passagem por Lisboa a caminho da Base das Lajes, ilha Terceira, Açores, onde cumpre uma comissão de seis meses, Spencer Stone recordou, num breve encontro com os jornalistas, à margem de uma cerimónia comemorativa dos 68 anos da Força Aérea norte-americana organizada pela Embaixada dos Estados Unidos, os minutos alucinantes em que lutou pela sua própria vida e dos 554 passageiros que seguiam rumo a Paris no Thalys n.º 9364.

Spencer Stone: “Não me considero um herói. Fiz aquilo que qualquer militar teria feito. Tentei sobreviver e, felizmente, tudo acabou bem”

Spencer Stone: “Não me considero um herói. Fiz aquilo que qualquer militar teria feito. Tentei sobreviver e, felizmente, tudo acabou bem”

Mário João

Podia recordar o que aconteceu naquele comboio a caminho de Paris, faz hoje precisamente um mês?
Estava a dormir com o meu amigo Alek [Skarlatos, especialista da Guarda Nacional no Oregon, de 22 anos] sentado à minha esquerda e o Anthony [Sadler, estudante de fisioterapia, de 23 anos] à minha direita e quando acordei, ainda meio estonteado, olhei para o Alek e ele estava agitado a olhar para a carruagem à retaguarda. Quando também me virei para trás vi um individuo a partir um vidro, as pessoas a gritar, enquanto avançava com uma AK-47 nas mãos, tentando carregar a arma.

Levantei-me e corri para ele. Tentei imobilizá-lo e agarrei a arma e acabámos por cair. Já no chão continuei a tentar tirar-lhe a arma e afastá-la dali e acabei por conseguir com a ajuda do Alek que, já com a AK-47 nas mãos, agrediu o homem sucessivamente. Este puxou de uma pistola Ruger [de fabrico norte-americano], encostou-a à minha cabeça e puxou o gatilho mas a arma não disparou. Ele não estava lá muito bem equipado.

Quando lhe conseguimos tirar a pistola reparei que tinha sido golpeado nas mãos e no pescoço. Num dos dedos da minha mão esquerda tinha um golpe profundo, até ao osso.

Comecei a gritar: "Ele tem uma faca! Ele tem uma faca!". Foi aí que o Alek começou a esmurra-lo e conseguiu pô-lo inconsciente. Reparei então que o Mark [Moogalian, o primeiro passageiro que tentou deter o agressor, um francês de 28 anos] também estava a sangrar, deitado no chão. Corri para ele e fiz pressão sobre o ferimento para tentar parar a hemorragia. Ele tinha sido baleado no pescoço e a bala teria atingido a carótida. Cerca de 30 minutos depois o comboio parou numa estação.

Mas quanto tempo é que duraram os confrontos?
Antes de tudo acontecer o Alek estava a mandar mensagens [do telemóvel] e ele foi ver a hora a que tinha enviado a última mensagem e chegámos à conclusão que, desde o início dos confrontos até o comboio parar na estação, passaram cerca de 40 minutos. Foi muito tempo. Pareceu uma eternidade.

O treino militar foi decisivo nesse momento?
Sem dúvida porque me permitiu salvar a vida de Mark Moogalian.

Quando viu o homem fortemente armado e percebeu que poderia disparar sobre os passageiros agiu por instinto?
Sim. Foi isso mesmo. Mentiria se não reconhecesse que também estaria a tentar proteger-me. Vi-me numa situação de combater ou morrer. Não havia muitas opções.

De um momento para o outro tornou-se um herói. Como é que tem sido essa experiência?
Não me considero um herói. Fiz aquilo que qualquer militar teria feito. Tentei sobreviver e, felizmente, tudo acabou bem.

Foi o militar ou cidadão norte-americano de 23 anos que tentou resolver a situação?
Não podemos separar os dois. Mas em parte diria que agi como um cidadão comum que quer viver num mundo seguro.

É verdade que sonhava, desde criança, ser militar e ingressar nos Navy Seals?
Cresci em Sacramento, Califórnia, e nunca tinha tido oportunidade de viajar. Precisava de dinheiro para pagar a faculdade, para viajar, queria trabalhar, tornar-me independente, e decidi entrar para a Força Aérea como socorrista e formei-me na área das tecnologias da saúde. Como sempre gostei muito da área da medicina, sinto que fiz a escolha certa. E é verdade, quando era criança, eu e os meus amigos adorávamos as forças especiais da Marinha.

Vai regressar à Base das Lajes? Como é que tem estão a correr as coisas por lá?
Amanhã [hoje, terça-feira, 22] sigo para lá. Os portugueses são muito simpáticos, sempre dispostos a ajudar. E adoro a ilha. Por mim, não ia embora.

Chegou a visitar Paris?
Cheguei e foi fantástico. Fiquei alojado na embaixada e dormi na mesma cama em que dormiu o Presidente Obama [risos], com os mesmos lençóis e a assistência da mesma camareira.

E a receção na Casa Branca?
Conhecer o Presidente Obama foi uma experiência inolvidável. Ele mostrou como estava agradecido. É um grande homem. É o meu comandante supremo.

Alguma vez imaginou que isto pudesse acontecer?
Nunca. Jamais pensei ser recebido na sala oval e poder sentar-me na cadeira do vice-presidente.

Já foi contactado por algum candidato presidencial?
Que eu saiba, não [risos].

Como é que está a sua mão? Está a recuperar bem?
Está. Já consigo fazer alguns movimentos e penso que vou ficar a cem por cento.

Spencer Stone foi recebido pelo seu Comandante Supremo, Barack Obama, a 17 de fevereiro na Casa Branca

Spencer Stone foi recebido pelo seu Comandante Supremo, Barack Obama, a 17 de fevereiro na Casa Branca

MANDEL NGAN / Getty