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Entre 25% a 40% dos que aderiram a grupos jiadistas já regressaram à Europa

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Nos últimos dois anos, cerca de 5000 europeus aderiram a grupos jiadistas no Médio Oriente, mas as deserções de descontentes têm vindo a aumentar

“O brilho está a desaparecer de modo que começa a parecer menos impressionante”, afirma Peter Neumann a propósito do aumento de deserções entre aqueles que aderiram a grupos jiadistas nos últimos anos, em especial ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh).

“Muita gente está mais confiante em sair”, acrescenta o diretor e professor dos centro de estudos do King's College, em declarações prestadas ao “The New York Times”, a propósito do relatório que efetuou baseado no testemunho de 58 desertores e que foi divulgado esta segunda-feira.

As suas estimativas apontam para que nos últimos dois anos cerca de 20 mil estrangeiros tenham aderido a grupos jiadistas. Um quarto serão europeus, mas destes entre 25 a 40% já terão voltado a casa.

Dos 58 desertores, nove são provenientes da Europa Ocidental e da Austrália. As deserções têm vindo a aumentar. Dentro deste grupo, perto de dois terços desertou este ano e um terço durante os meses de verão.

“Os desertores fornecem um insight único para a vida dentro do Daesh (…) Mas as suas histórias também podem ser usadas como uma potente ferramenta para os combater. A simples existência dos desertores abala a imagem de unidade e de determinação que o Daesh procura propagar”, afirma Neumann.

Os relatos indicam que o combate ao regime de Bashar al-Assad não é uma prioridade do Daesh na Síria. Muita da atenção do grupo terrorista vai para disputas com outros rebeldes e para a obsessão dos seus líderes com “espiões” e “traidores”.

Muitos relatam também as atrocidades cometidas sobre civis e os assassínios indiscriminados de reféns, assim como os maus tratos às populações locais e a execução de guerrilheiros pelos seus próprios comandantes.

A corrupção é também apresentada como um problema sistémico dentro do Daesh. Fatores que levaram a que muitos dos aderentes do movimento jiadista tivessem visto goradas as suas expectativas quanto ao heroísmo da luta.

Neumann refere que muitos destes testemunhos foram prestados na expectativa de que com eles os desertores do Daesh possam vir a obter um tratamento menos duro por parte de procuradores e juízes dos seus países.

Mas apesar disso, o investigador considera de grande importância os seus relatos. “Nem todo o desertor é um santo e nem todos estão preparados ou dispostos a exibir-se publicamente. Mas as suas vozes são fortes e claras: 'O Daesh não está a proteger os muçulmanos. Está a matá-los'. Eles precisam de ser ouvidos”.