Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Grécia. Incerteza em dia de eleições

  • 333

Ciclista passando junto a cartazes do Syriza em Atenas

ORESTIS PANAGIOTOU/EPA

Syriza e Nova Democracia não descolam e deixam restantes partidos à distância

Hoje é dia de eleições na Grécia. Dentro de algumas horas o país terá um novo Governo, o segundo em oito meses, mas “ninguém espera uma vitória clara no domingo”, escreveu o cronista Nikos Konstandaras no jornal grego “Kathimerini”, que aponta o dedo aos decisores políticos do país berço da democracia. “Jogamos com as ‘ferramentas’ mais poderosas da democracia em vez de pensarmos na melhor maneira de pormos fim à crise e de reforçarmos a posição do nosso país na região”.

As eleições antecipadas deste domingo foram convocadas pelo primeiro-ministro demissionário, Alexis Tsipras, que deixou o cargo a 20 de agosto após uma cisão no seu partido. Nascia, desta forma, uma nova formação da extrema esquerda composta por dissidentes do Syriza — o Unidade Popular (UP), que propõe a saída da Grécia do euro e o regresso ao dracma. Segundo sondagens publicadas nos últimos dias, o UP tem 4% a 5% das intenções de voto, que podem valer-lhe um lugar no Parlamento.

Tsipras teve de ceder às imposições da troika por ocasião do terceiro resgate grego e hoje está longe do estrondoso resultado obtido a 25 de janeiro, a dois assentos da maioria absoluta. No dia das eleições é impossível prever se este será ou não o último capítulo da novela política protagonizada por Tsipras. Cinco sondagens de quinta e sexta-feira sublinham que a luta será renhida entre o ex-primeiro-ministro e o conservador Vangelis Meimarakis, do Nova Democracia (ND). Ambos rondam os 30% — há sondagens que apontam para uma vitória do Syriza, outras do ND — enquanto os restantes ficam abaixo dos 10%.

No caso de o ND sair vencedor destas eleições, Meimarakis anunciou que chamará todos os partidos para formar um Governo de “cooperação, entendimento e responsabilidade nacional”. Alexis Tsipras voltou, esta semana, a recusar uma coligação de extrema-esquerda afirmando que tal “não seria natural”. Num discurso proferido num comício da campanha, na quarta-feira, Tsipras comparou este sufrágio a um “segundo referendo ao futuro do povo e do país”.

Nas ruas de Atenas, mais calmas desde que o Nai (não) levou a melhor sobre o Oxi (sim) no referendo de 5 de julho, reina a sensação de que as diferenças entre Syriza e Nova Democracia “são mínimas”. “Os verdadeiros esquerdistas que apoiaram o Syriza em janeiro estão desapontados” e, talvez por isso, muitos gregos antecipem uma provável coligação pós-eleitoral entre os dois partidos, explicou ao Expresso Yannis Ikonomou, tradutor na Comissão Europeia, em Bruxelas.

Expectativa em Bruxelas

A viver há vários anos na Bélgica, este grego considera que a grande “kolotumba” (palavra grega para reviravolta) no seio do Syriza, bem como as políticas de acolhimento de refugiados sírios, que Yannis apoia totalmente, podem explicar em parte a perda de votos do partido.

Como muitos dos seus conterrâneos, Yannis teme sobretudo que sejam muitos os antieuropeístas a ir às urnas no domingo para votar no Alvorada Dourada, a formação de extrema-direita que ascendeu ao terceiro lugar nas legislativas de janeiro passado, elegendo 17 deputados.

A taxa de abstenção poderá ser elevada, tendo em conta fatores como o desencanto do povo grego com o Syriza e a ideia de que o Grexit já não é um perigo iminente para o país, lamenta o funcionário europeu.

Esta eleição é acompanhada com alguma expectativa em Bruxelas, onde não importa propriamente quem sairá vencedor, mas sim se o Governo será capaz de impor as reformas necessárias para honrar o memorando. “Este é o último comboio europeu que passará para os gregos” e com três saídas possíveis: “Ou a Grécia cumpre e se recupera. Ou cumpre, mas não consegue recuperar. Ou não cumpre e sairá derrotada, sem poder pagar ordenados, deixará o euro, será o temido Grexit e a miséria. Por isso este resgate é o último comboio”, avisou o editorialista Xavier Vidal-Folch no diário espanhol “El País”.

Serão os gregos capazes de formar um Governo sólido, estável e capaz de cumprir os compromissos assumidos em agosto com Bruxelas e os credores internacionais?, questiona Vidal-Folch. É uma incógnita que se manterá, até ao fecho das urnas na Grécia, ou mais provavelmente durante os próximos dias. Partidos como o To Potami (centro-esquerda) ou os nacionalistas Gregos Independentes — parceiros do Governo do Syriza — poderão ter também uma palavra a dizer na constituição do futuro governo.

A estabilidade governativa na Grécia exige o controlo de 151 dos 300 lugares no Parlamento, num sistema eleitoral em que o partido mais votado tem um bónus de 50 assentos parlamentares. Olhando para as sondagens, este é um cenário improvável, uma vez que nem Syriza nem ND chegaram perto dos 38% de votos necessários para garantir uma maioria no Parlamento. Os votos dos indecisos, que oscilam entre os 6% e os 15% nos diferentes estudos de opinião, serão decisivos.

[notícia atualizada às 10h08]