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Internacional

A viagem mais política do Papa

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Operário num andaime em Havana, ao lado de uma fotografia do Papa, na antevéspera da visita

STRINGER/ REUTERS

Francisco visita Cuba a partir de hoje, depois de ter mediado a reconciliação com os EUA

Rossend Domènech, correspondente em Roma

O Papa Francisco inicia, hoje uma visita de três dias a Cuba, a que se seguirão outros cinco nos Estados Unidos da América. É a viagem mais política de Jorge Bergoglio e, ao mesmo tempo, a mais difícil do ponto de vista político: nos Estados Unidos há fiéis de origem anglo-saxónica, incluindo parte da hierarquia, que teceram as mais duras críticas ao Papa argentino. Qualificaram-no de “terceiro-mundista, marxista, comunista, anticapitalista e pauperista”.

Francisco, que viaja acompanhado apenas pelo estado-maior da diplomacia do Vaticano, será o primeiro Papa a entrar na Casa Branca, graças a uma especial sintonia com o Presidente Barack Obama. Também vai ser o primeiro a discursar perante o Congresso, em Washington, que é a instituição que terá de aprovar o fim do embargo contra Cuba, decretado após a “crise dos mísseis” de 1962.

Naquela ocasião foi precisamente outro Papa, João XXIII, que propôs aos Estados Unidos uma solução para pôr fim a uma crise que parecia conduzir à III Guerra Mundial. Passados mais de 40 anos, Francisco, o Vaticano e o cardeal cubano Jaime Ortega foram os mentores do restabelecimento de relações diplomáticas entre Havana e Washington.

Ortega revelou que quando Francisco recebeu Obama no Vaticano e este lhe disse que ainda não era nascido quando o embargo foi decretado, o Papa respondeu que acabar com o embargo “não era bom apenas para o povo de Cuba, mas também para o seu Governo e para a sua pessoa, para a política do seu país em relação à América Latina”. Na opinião do pontífice, “se não houver uma solução, os Estados Unidos continuarão distanciados da América Latina”. Os hispânicos são quase maioria entre os católicos do país, de tal forma que a missa que o Papa vai celebrar no Madison Square Garden, em Nova Iorque, será em castelhano.

Além do discurso no Congresso, o momento culminante da viagem será a intervenção do Papa nas Nações Unidas. Com toda a probabilidade, Jorge Bergoglio falará à comunidade internacional como nenhum Papa, contra “uma economia que mata e cria desgraças” e contra a guerra e o tráfico internacional de armas, organizados por “quem diz querer a paz”. “Será um discurso forte”, avisou o porta-voz Federico Lombardi.

“Esta viagem é importante porque me aproxima da vossa história”, disse Francisco numa entrevista recente ao canal ABC, durante a qual respondeu a perguntas de jovens de todo o país, representantes daquelas “periferias” a que o Papa argentino dá especial atenção.

Acusações de marxismo

A direita norte-americana, corporizada no movimento Tea Party, chamou diretamente ao Papa “hipócrita e marxista”. O documento “O Gozo do Evangelho”, da autoria de Francisco, foi qualificado pelo popular comentador radiofónico Rush Limbaugh (20 milhões de ouvintes) de “puro marxismo”. O locutor afirmou que o Papa denuncia um “capitalismo selvagem que não existe em lado nenhum” e que “o capitalismo sem limites é uma frase socialista para descrever os Estados Unidos”. O Papa está a levar a Igreja “ao precipício”, escreveu o católico Ross Douthat no diário “The New York Times”.

“O ponto de vista do Papa é distorcido pelas suas origens latino-americanas, que não seguem a linha dos seus antecessores”, comentou o jesuíta Robert W. McElroy, bispo auxiliar de São Francisco. “Os bispos dos EUA já não representam boa parte da base católica”, acrescentou ao diário “La Stampa” Massimo Faggioli, teólogo de Mineápolis. Talvez por isso, não foram eles, mas a própria Administração Obama, a traçar a “leitura” mais positiva do papado. Relativamente ao alegado anticapitalismo de Bergoglio, o Governo escreveu num documento de preparação da visita, revelado por “La Stampa”, que “a visão do Papa sobre a economia está alicerçada em milhares de anos de doutrina católica, segundo a qual o bem-estar humano é determinado por decisões morais, e a Igreja deve concentrar-se sempre na defesa dos pobres”.