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A odisseia de Farid, o “George Clooney” sírio que foge das bombas

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O dia em que Farid decidiu que tinha de partir foi o dia em que abriu a porta de casa e se apercebeu que, na rua em que vivia, nenhuma vida tinha valor. E que a morte espreitava de todos os telhados. Deixou a terra natal e uma profissão bem-sucedida para fazer quilómetros a pé, num barco à beira do naufrágio, em comboios sobrelotados, pelo meio de florestas ou de sítios abandonados. A viagem de Farid é a de tantos outros milhares que este ano já se meteram a caminho do sonho europeu

João Santos Duarte

João Santos Duarte

na Alemanha

Jornalista

“Diz lá, com quem é que eu me pareço?” Farid aponta para o pequeno ecrã da máquina fotográfica, que mostra a última fotografia tirada.

- Hummm… não sei..

- Mas não se vê logo!? Com o George Clooney, ora essa!

Conserva um ar brincalhão e o bom humor, apesar da situação em que se encontra. Tem uma manta azul que lhe cai pelas costas, a mesma que usou na noite passada quando dormiu na rua. Se lhe dissessem isso há um ano ou dois, que ia dormir no chão até esperar pelo primeiro comboio da manhã, Farid provavelmente diria que estavam a gozar com ele. Afinal, ele já foi, e não há tanto tempo quanto isso, um tipo relativamente bem-sucedido em Damasco. Mesmo que o sucesso nunca tenha passado pelo cinema ou pelos palcos, como o seu autoproclamado sósia.

Farid Dabbagh, de 43 anos, não é ator, é advogado. Tinha um escritório num dos bairros nos arredores da capital síria. Tinha, porque neste momento está tudo destruído. “Tal como a minha casa, tal como a zona onde vivia.” E, por isso, deixou tudo para trás. Inclusivamente a família, que se mudou temporariamente para uma zona mais segura. A mulher, as duas filhas, de 14 e 11 anos, o filho, de 8, a irmã, a mãe. “É claro que tenho medo. É claro que sinto a falta deles”, confessa o sírio. “Mas não quis que viessem já, que arriscassem numa viagem onde poderiam perder a vida. Vou tentar encontrar uma nova vida e depois disso trazê-los o mais depressa possível”.

-Sabes o que é uma pessoa nem sequer poder sair livremente à rua?

Nas ruas do bairro onde vivia, as pessoas vivem com um receio permanente, de uma ameaça muitas vezes escondida, que vem de cima. Ou são as bombas que caem nunca se sabe quando, ou são os atiradores que se escondem no topo dos edifícios altos e que, numa fracção de segundo, podem acabar com uma vida. Mesmo que seja uma vida inocente. “Lá, a tua vida ou a da tua família ou a dos teus amigos não importa para nada.”

Farid segue agora embrulhado na sua manta azul num comboio a caminho da Alemanha. Conseguiu passar ainda antes do controlo de fronteiras ter sido instaurado. E critica a forma como os países europeus estão a reagir a esta vaga de refugiados e migrantes. “A Europa não pode esquecer o problema original. Porque é que as pessoas vêm para a Europa? Porquê? Por causa da guerra. Se perguntares a cada uma das pessoas que aqui está, elas vão dizer-te que é por causa da guerra.”

Por florestas e fábricas abandonadas

Tudo começou no final de agosto. Farid deixou Damasco e rumou a norte, com o amigo Bassam. Atravessou a Turquia de autocarro e a pé e, como tantos milhares de pessoas este ano, tentou apanhar um barco não muito longe da cidade portuária de Esmirna, na costa turca banhada pelo mar Egeu. Depois de duas horas e meia no mar, as correntes levaram a pequena embarcação sobrelotada de refugiados mais para a sul do que o pretendido, e o grupo foi dar a Nera, um pequeno ilhéu junto à ilha de Tilos. Farid e os restantes foram encontrados pela guarda-costeira e levados para Samos.

Samos é uma das primeiras portas de entrada na Europa, porque a ilha grega está situada a poucos quilómetros da costa turca. Conta com um centro de detenção temporário gerido pela polícia grega. Está situado numa zona montanhosa a norte da principal cidade da ilha, Vathy, e tem uma dupla vedação de arame farpado para o exterior. Alguns deram-lhe a alcunha de “Guantánamo”. Mas por estes dias está muito mais vazio, porque a maioria das pessoas prefere rotas mais a norte.

Farid passou assim por Samos antes de ser transferido por um barco da guarda-costeira para Atenas. Aí passou dois ou três dias antes de seguir para norte. Conta que a Grécia não foi o mais difícil de toda a aventura - as dificuldades em solo europeu começaram a partir daí. Em quatro horas pôs-se na Macedónia, que atravessou com relativa facilidade, apesar do comboio que o levou até à Sérvia estar a abarrotar de pessoas. Quando passou por Belgrado, as autoridades sérvias deram-lhe uns “papéis”. Mas os sírios queixam-se que não serviram para nada. “Tínhamos dinheiro. Tentámos dormir num hotel, mas não nos aceitaram. Mostrámos os papéis que nos tinham dado, mas todos os hóteis nos recusaram. Fomos obrigados a dormir na rua, sem cobertores, sem nada.”

De Belgrado, Farid e os restantes elementos do grupo rumaram a Subotica, cidade sérvia no norte do país que dista cerca de 10 quilómetros da fronteira com a Hungria. Aí já sabem, até pela experiência de anteriores que seguiram o mesmo caminho, que existe uma velha fábrica de tijolos abandonada onde os milhares de refugiados e migrantes costumam parar para descansar e procurar ajuda. O local foi transformado numa espécie de abrigo. A ajuda é gerida por um pastor protestante local, com o auxílio de alguns voluntários que providenciam comida, água e agasalhos.

Os grupos podem passar dois ou três dias nos arredores de Subotica a recuperar forças antes de se aventurarem na fronteira com a Hungria, um dos obstáculos mais difíceis de passar. A estratégia usada por quase todos é a mesma e passa por cortar caminho por uma reserva natural a que muitos se referem como “a selva”. A maioria das vezes à noite, para evitarem serem detectados pelas autoridades. Farid recorda-se ainda bem dessa noite. “Já perto da fronteira, ficámos escondidos, atrás da árvores, para a polícia não nos apanhar. Acabámos por dormir ali mesmo, deitados na terra.”

Quando Farid, Bassam e os restantes passaram para o outro lado, o governo húngaro ainda não tinha fechado totalmente a fronteira a sul, enviado o exército para aquela zona e começado a prender todos aqueles que são encontrados a passar ilegalmente. Teve mesmo a sorte de não ser detetado pelas autoridades e, por isso, não passou por todo o processo de registo na Hungria. Já do lado húngaro, conseguiram chegar a uma estação de serviço onde apanharam um táxi para Budapeste. Pagaram 200 euros por pessoa.

Na capital, o advogado sírio deparou-se com o mesmo problema que já tinha tido em Belgrado. Tinha dinheiro, mas nenhum hotel aceitou recebê-lo. A história repete-se com centenas de outros sírios, que os responsáveis dos alojamentos recusam acomodar para “evitar problemas”. Por isso, Farid teve de dormir à porta da estação de Keleti, onde um voluntário de uma das organizações de solidariedade lhe deu a manta azul que agora leva às costas, já no comboio a caminho da Alemanha.

Um futuro

“Estou cansado”, diz Farid. “Se perguntares a todos os que seguem aqui, vão dizer-te que estão exaustos. Mas sinto que o pior desta viagem já ficou para trás.” Escolheu a Alemanha não porque já tenha lá família, mas porque considera que é o país que lhe poderá dar mais oportunidades. “Lá a educação é boa, a saúde é boa. Na Síria não consigo que os meus filhos possam ir à escola regularmente e dos hospitais é melhor nem começar a falar…”

Farid gostava de aproveitar os seus conhecimentos de advocacia, mas aos 43 anos “está preparado para fazer tudo”. O importante é encontrar trabalho. E assim que tiver a vida estabilizada, trazer a família para junto de si. Não tem grandes sonhos. “Procuro uma vida boa, sim, mas para as minhas crianças, não faço isto por mim. Eu não quero ser rico ou ter uma casa grande ou ter um carro de uma grande marca. Nada disso. Só quero poder dar um futuro melhor aos meus filhos.”