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O primeiro míssil Strela não falhou

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De como uma arma sofisticada, mas que podia ser manejada por um analfabeto, acabou com a controlo dos céus por parte dos portugueses. E como "Manecas" Santos, o homem responsável pelos míssil Strela, acabaria por se sentar anos depois à mesa de jantar ao lado do militar cuja estratégia ajudou a destruir

23 DE MARÇO DE 1973, GUIDAJE

No dia em que o primeiro míssil Strela foi disparado, Portugal ficou incapaz de controlar a situação militar na Guiné. Podemos dizer de outra maneira. No dia em que o primeiro míssil Strela abateu um avião português, o 25 de Abril começou. Foi na Guiné, num palco de guerra desesperado, que teve início o movimento dos capitães. Mas é sempre difícil saber quando foi disparado o primeiro míssil. E quando derrubou o primeiro avião Fiat G.91. A Força Aérea Portuguesa diz que os primeiros dois mísseis, disparados a 20 e 23 de março de 1973, falharam. E que só um, lançado a 25, atinge o primeiro caça português na zona do Boé. Manuel “Manecas” Santos, líder do comando Abel Djassi (Mísseis Strela), garante que não houve falhanços. O primeiro míssil disparado fez cair um avião. “Nenhum Fiat tinha capacidade de fazer qualquer manobra evasiva. Aquilo atingia Mach 2. Era uma arma sofisticadíssima, que tinha a vantagem de poder ser operada por um analfabeto.” Segundo “Manecas”, o primeiro míssil é disparado, ao lado dele mesmo, a 23 de março de 1973, vindo de uma base de Cumbamori (Senegal), no norte. E não falhou.

Independentemente do dia, a guerra mudou quando o primeiro caça português se despenhou. Talvez a geração que nasceu e cresceu depois do 25 de Abril não tenha a noção do que foi a guerra da Guiné. O terror puro acontece precisamente de- pois do disparo deste míssil e condensa-se em pouco mais de um ano, entre março de 1973 e abril de 1974. É neste período que a tropa portuguesa perde os céus. Embora a Força Aérea negue, os quartéis longínquos junto às fronteiras ficam isolados, abandonados e sujeitos a um verdadeiro martírio de flagelação contínuo pela artilharia inimiga e, acima de tudo, pelo morteiro soviético de 120 mm. Ataques diários, sistemáticos e a momentos certos do dia, outros de horas contínuas sem parar, que fazem baixas e levam homens à loucura. O primeiro míssil é o momento de viragem que desequilibra a guerra.

O PAIGC estava relativamente desmobilizado com a morte de Amílcar Cabral, ocorrida pouco tempo antes. A presença de Spínola — num misto de estratégia e exuberância desafiadora que mobilizava as tropas portuguesas (que tinham o domínio absoluto dos céus) e tentava desenvolver e conquistar os guineenses contra os cabo-verdianos — obrigava o PAIGC a um dispositivo defensivo típico de guerrilha com ataques essencialmente noturnos.

“Manecas” é um homem enorme com um andar meio desajeitado. Usa camisas com padrões tropicais. Em 1972, era um magricela quando foi escolhido por Amílcar Cabral para liderar o grupo de operacionais que iriam para a Crimeia (URSS), aprender a manejar o Strela — o míssil terra-ar, operado por apenas um homem, que segue o calor do avião e era completamente desconhecido à época. Isto deixou as Forças Armadas portuguesas em estado de choque. Não se sabe como é que Amílcar Cabral convenceu os soviéticos a ceder esta arma secreta e topo de gama à guerrilha guineense. Mas, ao fazê-lo, alterou o curso da história da Guiné e de Portugal. Na zona de Guidaje, um dos homens que começaram a perceber que a guerra não tinha solução foi Salgueiro Maia.

“O 25 de Abril nasceu aqui, na Guiné. Morreram muitos guineenses para que os portugueses hoje vivam em democracia”, diz o antigo comandante dos comandos Abel Djassi na sede do PAIGC, atualmente em obras e a poucos metros de um palácio presidencial pela primeira vez cercado por uma grade metálica. Um partido político em estado de fúria com um Presidente que demitiu o primeiro-ministro da nova geração PAIGC, eleito democraticamente. A palavra golpe de Estado ouviu-se durante o mês de agosto. O PAIGC e a Guiné têm algum hábito nesta coisa dos golpes. Foi o de 80 em que ‘descaboverdianizou’ o regime, com a subida de Nino Vieira, e nunca mais parou a instabilidade, entre golpes e contragolpes. Em 2012, parecia ter estabilizado.

Manecas dos Santos no museu do PAIGC

Manecas dos Santos no museu do PAIGC

Alfredo Cunha

“Manecas” dos Santos dá uma volta ao que resta do Museu do PAIGC. Foi muita coisa destruída num desses golpes, em que entraram e atiraram tudo pela janela. Há fotos penduradas, de “Manecas” e de Amílcar Cabral. E olha ali o grande sapador. “Foi o das minas-papel?”, pergunto. “Sim, outra coisa simples que nos deu grande vantagem. Eram as chamadas minas-papel, que explodiam quando o sapador fazia a picagem.” Um tipo de engenho ‘novo’ e que lançou o caos nas pistas. As minas-papel eram bastante simples: uma folha de jornal a separar duas folhas de alumínio; quando a ponta metálica do picador furava as folhas fazia contacto e a mina explodia.

Em pouco tempo, os únicos operacionais de Portugal eram as forças especiais: fuzileiros, paraquedistas e comandos. Nomeadamente, os comandos africanos. “Os portugueses tinham cá 40 mil homens, mas só as forças especiais é que combatiam. Nós éramos apenas seis mil, mas todos éramos combatentes”, diz “Manecas”. “E depois mandaram embora o Spínola. Quando ele se foi, mudou tudo. Foi o único que deu verdadeiramente luta. Era um militar duro.”

Anos depois, já com Mário Soares primeiro-ministro, esteve em Portugal num jantar em que Spínola também era convidado. Algo curioso que só a etiqueta diplomática poderá explicar, puseram o “Manecas dos Strela”, o homem que aniquilou a estratégia de “Caco Baldé” (como era conhecido Spínola por causa do monóculo) a seu lado. Ele sabia quem era? Óbvio. E como foi? “Um pouco estranho, tenho de admitir.” E de que falaram? (risos) “Do tempo!”

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