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Do 'Mar Verde' até Cuba

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"Meus merdas, têm dez minutos para olhar para isso", disse-lhes o capitão-tenente, já em pleno mar alto. A operação acabaria por ser um desastre. As pistolas Makarov nunca chegaram a ser usadas naquele dia. E a PIDE engoliu em seco

22 DE NOVEMBRO DE 1970, GUINÉ-CONACRI

Deverá ser uma das operações militares mais conhecidas na Guiné. Pela sua espetacularidade. O então capitão-tenente Alpoim Calvão levou 400 homens, entre comandos africanos e opositores ao regime de Sékou Touré, para atacar a capital da Guiné-Conacri. No final, a maioria dos objetivos falhou — o regime não foi deposto, Amílcar Cabral não foi capturado, os MIG não foram destruídos. Apenas os prisioneiros portugueses do PAIGC foram libertados. Nas Nações Unidas os problemas de Portugal — que negou o envolvimento na missão — agudizaram-se. Hoje culpa-se a PIDE pela má informação (e é capaz de ser verdade).

Abulai Djao é um homem fino e elegante. Já sabíamos, de uma viagem anterior, que era professor. Mas tinha sido aquela frase, “na guerra estive a pescar em São Tomé”, juntamente com “tive uma discussão séria com o Alpoim Calvão em mar alto”, que nos tinha intrigado. Djao, aos 18 anos, no final do Liceu, acabou recrutado para uma tropa especial e foi levado para um treino militar, no qual foi “torturado” até estar pronto para se tornar um operacional. A força a que pertencia tinha outro nome pomposo. Mas se procuramos nos livros o nome correto será Flechas, forças especiais da PIDE formadas por africanos e que tinham como missão a recolha de informação com vista a operações de contraguerrilha. Djao só lá esteve seis meses. Que mudaram a sua vida. “Foram seis meses a pescar em São Tomé”, repete. “Tivemos umas passeatas por Angola e Moçambique e depois aquilo do Alpoim.” O grupo era composto por 19 operacionais, entre angolanos e moçambicanos, mas também dois açorianos, um madeirense e um natural do Porto. Para o mar alto foram cinco. Todos africanos. Como era a farda? “Era muito interessante, porque tinha espaço para tudo, preta, cheia de bolsos, era checa e tínhamos uma pistola Makarov.”

“Chegados ao mar alto, o Alpoim Calvão mandou-nos analisar o cenário e disse qualquer coisa como ‘meus merdas, têm dez minutos para olhar para isso’” (risos). “Era evidente que não podia funcionar. A informação era escassa e havia um erro crasso: bastava um soldado ficar ferido e não havia forma de desconectar Portugal da operação. E houve uma discussão, digamos, acesa.” Mesmo assim, Djao acha que a operação teve um sucesso relativo para Portugal, um objetivo psicológico: Conacri ficava a saber que não era invulnerável e que Portugal tinha impedido Cabral de proclamar uma independência iminente... “Claro que diplomaticamente foi um desastre e politicamente foi nojento.”

Chegada a independência da Guiné, este passado não foi fácil de apagar. A Guiné-Bissau destacou-se pela matança aos soldados (nomeadamente de tropa especial) que serviram nas forças especiais portuguesas. Djao era então diretor da escola em Bafatá. E o destino abriu-lhe uma janela que lhe terá salvo a vida. Concorreu a uma bolsa de estudo em Cuba. Na noite antes de partir, o temido António Buscardini, o chefe da Segurança do Estado do tempo de Luís Cabral, chamou-o, era um homem que todos retratam como muito especial. A conversa foi tensa e cifrada. Djao dá a entender que o terá tentado recrutar. Ficou cinco anos em Cuba sem voltar à Guiné. Em 1980, quando regressou, tinha quase a certeza de que seria mais um dos que acabariam mal. A Segurança de Estado de Buscardini era um misto de PIDE com KGB. Certos amigos, já colocados dentro do aparelho do Estado, fizeram-lhe alguns favores para que se safasse, dado que tinha salvo muita gente. A 14 de novembro de 1980, Buscardini suicida-se (ou é pulverizado por um tanque) durante o golpe de Nino Vieira, por se ter recusado render-se. Djao levou tempo a recompor-se desta angústia. Casou-se tarde. Vive em Gabu. É professor. Tem uma família linda. É um homem calmo, culto, discreto e respeitado. Esta história estava encarcerada nele, pareceu-nos.

Abulai Djao com a família em Gabu

Abulai Djao com a família em Gabu

Alfredo Cunha

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