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Guterres “chocado” com falta de união europeia para resolver a crise de refugiados

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António Guterres à conversa com os comissários europeus Federica Mogherini (Política Externa e Segurança) e Dimitris Avramopoulos (Migrações) durante o encontro desta manhã com os eurodeputados

OLIVIER HOSLET / EPA

Dirigente português falou esta manhã aos eurodeputados enquanto Alto Comissário da ONU para os Refugiados. Manifesta-se muito “desapontado” e “sob choque” com a falta de acordo dos 28 países e diz que “hoje, infelizmente, há uma União Europeia mas a Europa já não está unida”

O Alto Comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, afirma-se chocado com a falta de união europeia na questão de acolhimento de refugiados, comentando que houve mais união na crise com refugiados da Hungria, em 1956.

Intervindo na manhã desta terça-feira numa audição no Parlamento Europeu, um dia depois de os ministros do Interior e da Administração Interna da União Europeia terem falhado um acordo em torno da proposta da Comissão Europeia de recolocação de mais 120 mil refugiados entre os Estados-membros, adiando o assunto para outubro, Guterres disse ter ficado muito “desapontado” e “sob choque” com o desfecho da reunião extraordinária da véspera, considerando inaceitável que numa situação de emergência se adiem decisões para futuras reuniões.

Sem mencionar os Estados-membros que têm estado a impedir um compromisso, António Guterres recorreu ao exemplo do sucedido na década de 1950 com a Hungria, hoje um dos Estados-membros que mais se opõe a um sistema europeu de acolhimento de refugiados, para estabelecer uma comparação na qual a Europa fica hoje a perder, realçou.

“Há 59 anos tivemos a primeira grande crise europeia de refugiados depois da II Guerra Mundial, foi a crise húngara de 1956. Nessa altura, 200 mil húngaros foram para a Áustria (180 mil) e Jugoslávia. Na altura não havia (o acordo de livre circulação de) Schengen. Mas as fronteiras foram abertas, e da Áustria foi possível lançar um programa de relocalização, tendo 140 mil húngaros sido levados para outros países europeus e o realojamento teve lugar em menos de três meses”, disse.

Guterres comentou então que “na altura a integração europeia estava a começar, não havia União Europeia, mas pelo menos essa parte da União que podia estar unida esteve unida, para proteger os húngaros vítimas da opressão e ditadura”, enquanto “hoje, infelizmente, há uma União Europeia mas a Europa já não está unida, está dividida”.

O responsável das Nações Unidas advertiu ainda que no plano da batalha ideológica que hoje se trava a Europa também está a comprometer a defesa dos seus valores, pois rejeitar receber sírios, sobretudo se o motivo for por serem muçulmanos, “é algo que ajuda à propaganda do (autodenomiado) Estado Islâmico”.

António Guterres revelou que, ao acordar esta terça-feira, às 5h, “ainda sob o choque das notícias” de horas de antes - referindo-se à falta de acordo entre os 28 -, pensou que o importante é ter então um “plano B”, que passará necessariamente por “avançar com o que pode ser feito imediatamente”, na ausência de um acordo definitivo.

Nesse contexto, o dirigente português considera que “se a fronteira húngara se mantiver fechada”, deve ser dada “uma resposta de emergência centrada na Sérvia”, onde devem ser criadas capacidades de acolhimento e assistência, e começar daí, imediatamente, o programa de recolocação de refugiados, até porque se aproxima o inverno.