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“Vamos escolher o menos mau”

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KARL-JOSEF HILDENBRAND / EPA

Há desilusão e compreensão na Grécia - em simultâneo e sobre os mesmos protagonistas. “Estamos desiludidos com o Syriza, mas Tsipras pelo menos tentou mudar alguma coisa.” E há observações violentas: “Os únicos indicadores que parecem ter subido foram a taxa de suicídios e o número de sem-abrigo”. Reportagem da Agência Lusa na Grécia junto dos mais jovens, que serão os eleitores provavelmente decisivos nas eleições que aí vêm

João Miguel Roque, enviado da Agência Lusa à Grécia

A máxima "o futuro pertence à juventude" poderá vir a ter um significado particular para os gregos nas eleições legislativas antecipadas do próximo domingo, quando a menos de uma semana da votação não há um vencedor claro no horizonte. Com um universo de eleitores indecisos a rondar os 15% a 20%, os votantes mais jovens podem fazer a diferença a favor do Syriza.

O partido de Tsipras ficou perto da maioria absoluta nas eleições de Janeiro, mas após a convocação de eleições antecipadas e a demissão do primeiro-ministro perdeu grande parte da vantagem. Está agora, de acordo com sondagens publicadas no domingo, em situação de quase empate com os conservadores do partido Nova Democracia, liderados interinamente desde julho por Vangelis Meimarakis.

"Estamos desiludidos com o Syriza porque recuou na maior parte das promessas que fez, mas Tsipras pelo menos tentou mudar alguma coisa e não se limitou a aceitar as imposições da União Europeia sem tentar fazer valer os pontos de vista da Grécia como sempre fizeram os governos anteriores", diz Aristea, 20 anos, estudante de veterinária na universidade de Salónica.

As apreensões quanto ao futuro são grandes - o desemprego entre os jovens gregos atinge os 50%, numa taxa global de cerca de 29% - e Aristea afirma que nestas eleições "trata-se de escolher o menos mau e, sobretudo, de apostar na tentativa de mudança".

Manos, 21 anos, é estudante do quarto ano de Física na universidade de Atenas e diz que não confia realmente em nenhum partido, mas que entre a manutenção "dos mesmos de sempre, de há décadas, que provocaram esta situação, que deixaram o país chegar a este ponto", referindo-se aos partidos tradicionais da governação na Grécia - o socialista PASOK e o conservador Nova Democracia -, "temos de pelo menos reconhecer aqueles que fizeram algum esforço, mesmo que fracassado".

"Mas não tenho ilusões, há hábitos muito enraizados e as camadas mais velhas da população estão formatadas para o voto nos partidos tradicionais e depois há o medo da mudança", afirma.
Ambos os estudantes recusam também soluções radicais como a saída da Grécia do euro, como propõe o partido União Popular, constituído por elementos da ala mais radical do Syriza que abandonaram o partido de Alexis Tsipras quando o parlamento grego aprovou o terceiro plano de resgate financeiro, provocando a demissão do governo e a convocação de eleições antecipadas.
Com uma dívida que atinge 180% do Produto Interno Bruto, a Grécia é o país mais endividado da União Europeia.

"Já não é possível resolver os problemas da Grécia sozinhos, por isso temos de receber ajuda, mas é preciso mudar os termos dessa ajuda para que o país possa tentar sustentar-se", adianta Aristea. "Os únicos indicadores que parecem ter subido na Grécia foram a taxa de suicídios e o número de sem-abrigo", diz a estudante, sem sinais de ironia.

E por entre todas as dúvidas, desconfianças e desapontamentos, Manos e Aristea têm uma certeza, a de que vão votar, porque afirmam sentir "a responsabilidade de tentar mudar a Grécia e de tentar ter o país de volta".