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Milhares manifestam-se em Londres em solidariedade com os refugiados

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JUSTIN TALLIS / AFP / Getty Images

Juntaram-se ontem, no centro de Londres, mais de 60 mil em protesto contra o que consideram ser a posição intransigente do governo de David Cameron em aceitar apenas 20 mil refugiados ao longo de quatro anos. Centenas de cartazes polvilhavam a multidão, elevando vozes anónimas até às lentes dos fotógrafos e dali para os jornais que o primeiro ministro terá que ler de manhã. A reportagem de Ana França em Londres

“O resto da minha família está a caminho da Alemanha neste momento. A última vez que falei com eles estavam no Irão. Caminham à noite, de dia pagam a pessoas para os esconderem nas suas casas, cafés, supermercados”, diz Rahmaan Mohammadie, um jovem sírio nascido em Inglaterra que costumava ir a Damascos “pelo menos duas vezes por ano” antes do sangrento conflito ter tornado o futuro num enorme ponto de interrogação.

No passado fim de semana Rahmaan foi ter com dois primos à Alemanha, festejar o facto de eles terem conseguido chegar à Europa. “É estanho para mim ler as pessoas que estão a sair da Síria querem usufruir dos benefícios dos países europeus: a minha família nunca pensou em vir para aqui, gozavam com os meus país nas festas de família porque havia emprego, família, sol, amigos, tudo o que podes desejar para ser feliz e eles estavam aqui”.

Rahmaan elogia a Europa pelo esforço que está a fazer - “há, sobretudo, compaixão” - e espera em breve poder viver com o resto da família, mas para isso é preciso que o Reino Unido autorize mais pessoas a entrar. À sua voz juntaram-se ontem, no centro de Londres, mais de 60 mil em protesto contra o que consideram ser a posição intransigente do governo de David Cameron em aceitar apenas 20 mil refugiados ao longo de quatro anos. Centenas de cartazes polvilhavam a multidão, elevando vozes anónimas até às lentes dos fotógrafos e dali para os jornais que o primeiro ministro terá que ler de manhã, quem sabe até coisas como “Trocamos Cameron por Merkel”.

“Tive a sorte de nascer aqui, é só isso que quero dizer, é só está a palavra que quero que escrevas: 'sorte'”, diz Agnes, professora primária de Manchester que traz um cartaz que diz “Não há pessoas ilegais”. Já Abdul não nasceu aqui nem tem papéis que lhe permitam dormir em paz, só o visto expirado de estudante. “As pessoas acham que estou a gozar mas cada vez que passa uma sirene na rua, ou quando eu ou os meus amigos fazemos barulho à porta de um bar e aparece a polícia penso sempre: pronto, é agora, não vou acabar o curso, não serei nada na vida - parece drástica esta associação tão rápida de pensamentos maus mas é assim que me sinto”.

Apesar de alguma coisa ter mudado no discurso do Governo desde que as fotografias chocantes de Aylan Kurdi, o menino sírio que morreu afogado antes de chegar à Turquia, chegaram às capas dos jornais, há ainda muito caminho a percorrer para que o país aceite receber um número maior de refugiados. “Este é um momento raro e maravilhoso. Ver aqui tanta gente unida por uma causa que definirá a Europa por várias décadas, faz todo o trabalho valer a pena. Mas precisamos de mais, cada vez mais apoio para pressionar o governo a fazer mais por estas pessoas - precisamos de urgência, não há urgência nas palavras do governo, não podemos esperar mais”, disse ao Expresso Stephen Hale, presidente da instituição de assistência a refugiados Refugee Action minutos antes de discursar em frente ao Parlamento.

Depois de dizer que não iria autorizar a vinda de mais refugiados, David Cameron acabou por conceder que o país aceitasse mais 20 mil pessoas mas o plano passa ir buscar pessoas particularmente vulneráveis, nomeadamente crianças, aos campos de refugiados estabelecidos em países como o Líbano ou a Jordânia e não em aceitar aquelas que já estão na Europa. A ideia é boa mas, para Hale, não chega: "Temos que ajudar as pessoas que estão no Líbano mas também aquelas que já chegaram ao nosso país, ou estão às nossas portas, em Itália, na Turquia, Hungria mas teremos que ser parte de um esforço internacional porque Reino Unido não pode fazer tudo sozinho. A ideia do governo de ir buscar pessoas mais vulneráveis é de louvar mas já há milhares de pessoas desalojadas que é urgente ajudar também", concluiu o ativista.

JUSTIN TALLIS / AFP / Getty Images

Uma guerra que também é nossa

Quando a marcha chega perto do Parlamento, o barulho intensifica-se. É Sábado, não há deputados no edifico, mas é simbólico e é isso que conta. Directamente do prédio ao lado, onde acabou de se sagrar líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn é recebido em êxtase pela multidão. “Abram os vossos olhos, a vossa mente e adaptem a vossa atitude de forma a conseguirmos ajudar estas pessoas que estão desesperadas, que precisam de um lugar para viver, e são seres humanos como todos nós que aqui estamos”, disse Corbyn.

“Estamos aqui porque vocês estiveram lá” - uma frase do sociólogo britânico Stuart Hall que se repete vezes sem conta sempre que o assunto envolve colonialismo já que o próprio académico nasceu na Jamaica. “Muitas das coisas que alguns dos grupos extremistas utilizam como símbolos nacionais são heranças do nosso passado colonialista: desde o chá, às famosas empadas de carne de Cornwall, o caril, dezenas de escritores e músicos que hoje são reconhecidos pelo mundo todo ou nasceram nas nossas ex-colónias ou vieram para cá muito novos, usufruindo da paz e das oportunidades deste país para nutrirem o seu talento”, diz Eve Maloney, de 25 anos, que acabou o ano passado o curso de Produção Cinematográfica.

Já a sua colega de curso Kira Ashton, também com 25 anos e filha de refugiados somalis, considera que a base de tudo isto é a ignorância: “Quando estás em Londres é difícil imaginar que há lá fora um país sombrio e desinformado mas ele existe. Se as pessoas soubessem mais, lessem, falassem mais com pessoas de outras culturas iam acabar por entender que não há razão para temer ninguém. A nossa vida não vai mudar por recebermos mais refugiados, ou mesmo mais imigrantes económicos, o metro continuará insuportavelmente cheio de gente, o tempo continuará terrível e a economia a gerar emprego porque quanto mais talento absorvermos mais ricos seremos”.