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Bernie Sanders, o socialista democrata

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Win McNamee / Getty Images

Há mais um homem a agitar as Presidenciais norte-americanas. Os media chegaram a compará-lo a Trump, por não ter papas na língua e dar voz à insatisfação do povo – mas, na verdade, tem uma candidatura do outro lado da barricada (e posições políticas muito distintas). Apesar de independente, Sanders apresenta-se como “socialista democrata”, usando uma palavra há muito esfumada no léxico americano: socialismo. Mas afinal, quem é este homem que reúne à sua volta multidões cada vez maiores?

As previsões iniciais vaticinavam que iria ficar pelo caminho. Foi num dia igual a tantos outros que Bernard Sanders tomou uma decisão: ia candidatar-se às Presidenciais de 2016. O anúncio gerou alguma surpresa – afinal, o norte-americano de 73 anos era só mais um tipo normal,há muitos anos na política, é certo, mas desconhecido no panorama nacional. Que hipóteses teria este homem velho, de voz rouca e ar descontraído?

Quatro meses depois, podemos dizer com convicção: as multidões adoram-no; os media começam a vê-lo de forma diferente; e mesmo Hillary Clinton já não pode menosprezar este rival dentro do Partido Democrata. O senador de Vermont reúne multidões cada vez maiores e as últimas sondagens colocam-no à frente de Hillary nos estados de Iowa e New Hampshire (com 43% das intenções de voto e 52%, respetivamente - dados da CBS News / YouGov). Como a revista “National Review” sublinhou esta semana na sua edição online, Bernie é simplesmente demasiado banal para que possa ser ignorado.

O facto do norte-americano, nascido em 1941 em Brooklyn no seio de uma família pobre de origem judia, ter conseguido manter-se durante tantos anos como um outsider dentro do Partido Democrata não é de ignorar. Eleito pela primeira vez em 1991 para a Câmara de Representantes, é senador no estado de Vermont desde 2007. “Sou o independente há mais tempo no Congresso dos Estados Unidos e tenho orgulho nisso. As pessoas de Vermont mandaram-me para Washington porque não estão contentes com os dois partidos”, afirmou recentemente em entrevista à CNN.

Sanders é visto como o extremo mais à esquerda do Partido Democrata. É apontado como um progressista, disruptivo, como a “nova velha cara dos democratas”. Não sendo novo, Bernie é sangue novo, ao candidatar-se e inspirar uma ala mais adormecida no partido, ousando recuperar ideias e propostas. Define-se como um “socialista democrata”, não hesitando em recuperar um conceito há muito visto como um insulto nos Estados Unidos: socialismo. Posiciona-se ao lado do povo contra o monopólio de Wall Street e dos interesses do dinheiro, defende a educação gratuita, o aumento do salário mínimo, um sistema de saúde universal, uma ação mais forte contra o aquecimento globlal… E há até quem advogue que pode forçar Hillary Clinton a adotar posições menos moderadas, arriscando em temas mais progressistas.

Kayana Szymczak / Getty Images

Sanders vs. Trump: do tio excêntrico ao vendedor de aspiradores

Apesar de alinharem com partidos diferentes, Bernie Sanders e Donald Trump têm sido - por vezes - apresentados nos meios de comunicação social como dois semelhantes em lados opostos da barricada. São os dois irreverentes, é certo, e não têm papas na língua. Anunciam com convicção aquilo que pensam. E encarnam o descontentamento que muitas pessoas sentem em relação aos Estados Unidos do Presidente Barack Obama. Ainda assim, não são iguais – e alguns media e analistas políticos já começaram assinalar as diferenças.

Na verdade, mais do que aquilo que os une é aquilo que os separa. Ninguém questiona que os dois são acérrimos defensores das suas ideias, mas enquanto o candidato democrata parece ter uma longa lista de temas a abordar na sua campanha, Trump prefere centrar-se apenas num: imigração. Para além disso, o que em Sanders é descontentamento, no republicano vem acompanhado por uma boa dose de fúria. Como Bob Curran explicou sem rodeios num artigo recentemente publicado aqui no Expresso, Trump “é um demagogo zangado perseguidor de imigrantes, que ostenta a sua riqueza e diz o que lhe vem à cabeça, por mais ofensivo que seja.”

E não devemos desviar o olhar dos seus percursos profissionais. Sanders tem uma carreira política ligada ao Partido Democrata (e, ainda que seja um independente a representar uma ala progressista mais à esquerda no seu partido, defende posições tipicamente democratas). Já Trump, bem… Não é tão fácil de encaixar. O analista estatístico Nate Silver, conhecido por ter previsto corretamente os resultados das eleições americanas de 2008 e 2012, sublinha essa diferença de forma perfeitamente clara: “Podem apelidá-los de outsiders. Mas se fores democrata, Sanders é o teu tio excêntrico: tem as suas peculiaridades, mas é parte da família. Se fores republicano, Trump é tão familiar como um vendedor de aspiradores que bate à porta de tua casa.”

De certa forma Donald representa tudo aquilo que Bernie abomina: um magnata do mundo dos negócios, multimilionário e estrela de televisão, com um estilo de vida extravagante. E o democrata progressista que se dedicou à luta pelos direitos civis recusa ser comparado ao empresário. “Donald Trump reúne grandes multidões? Sim”, declarou numa entrevista. “Mas o que Trump está a dizer é ‘Ei, sou o tipo mais esperto do mundo, sou rijo e ai de quem discordar de mim.’ O que eu estou a dizer é ‘não consigo fazer isto sozinho. Não votem apenas por mim. Agradeço o vosso voto, mas têm que estar comigo no dia seguinte às eleições.’ O que Trump está a dizer é: ‘eu vou tratar disto. Eu consigo fazê-lo.’ E penso que essa é uma grande diferença.”

Scott Olson / Getty Images

Mudar o país para os filhos e netos

“Agradeço terem vindo hoje, porque temos muitos assuntos sérios para discutir…” A forma simples e direta, sem nenhum quebra-gelo ou piada carismática, como Bernie Sanders iniciou o seu discurso em Burlington (a cidade onde vive no estado de Vermont e aquela que escolheu para arrancar a campanha para as Presidenciais em 2016), diz muito sobre aquilo que aparenta ser. Direto, sério e esforçado – ao ponto de querer mudar o país.

O motivo pelo qual subitamente decidiu candidatar-se e colocar-se ao lado de movimentos de direitos civis, jovens de classe média, desempregados? O povo norte-americano, mas também por si. “Estou neste ramo porque tenho quatro filhos maravilhosos e sete netos maravilhosos”, declarou num dos discursos de campanha, partilhados no YouTube. E como vocês quero garantir que o mundo que lhes deixamos é um mundo maravilhoso, onde as pessoas podem viver de forma digna.” Ao entrar no mesmo barco, Bernie não se limita a mostrar que está com eles, mostra que é um deles.

Há quem diga que o que propõe é irrealista, que não irá conseguir cumprir o que promete – ou até que nem passará das eleições primárias do partido. Mas a verdade é que ele parece disposto a tentar. Bernie Sanders pode não conseguir levar a sua avante, mas uma coisa é certa: o senador de Vermont já anda nas ruas e a sua entrada na corrida às Presidenciais eleva a parada, tornando todo este jogo de políticas, mediatismo e promessas muito mais interessante.