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Pontapés, fome e extorsões. “A Hungria foi um inferno”

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Mohammed queixa-se de ter ficado dois dias sem comer. Muhanad viu o pai ser pontapeado por um polícia húngaro e mostra no telemóvel um vídeo que documenta o caos no campo de refugiados de Rozske. João Santos Duarte na Áustria, onde recolheu relatos de refugiados sírios que conseguiram lá chegar e que se queixam de abusos e maus-tratos por parte das autoridades húngaras

João Santos Duarte

João Santos Duarte

na Áustria

Jornalista

Mohammed está sentado num banco no pequeno compartimento de passagem entre duas carruagens do comboio. Tem as costas curvadas e está com o braço apoiado, à primeira vista como se estivesse a tentar proteger-se de algo ou de alguém. Viaja sem qualquer mochila, apenas com a roupa que lhe vemos no corpo. “Tinha uma mochila mas ficaram-me com ela no campo”, garante o sírio, de 18 anos. “Mas isso não foi o pior que me fizeram.”

Depois de detido a tentar atravessar a fronteira, foi levado para o campo de Roszke, na Hungria, para onde são encaminhados milhares de migrantes e refugiados. Conta que lhe davam apenas uma sandes por dia. Mas o pior veio quando se recusou a dar as suas impressões digitais. Não queria fazer o registo na Hungria, com medo de ser mandado para trás quando desse entrada noutro país europeu. A polícia levou-o e colocou-o numa sala apertada com mais meia centena de pessoas. Mohammed tirou fotografias com o telemóvel, que mostrou ao Expresso na viagem de comboio em que já deixava a Hungria para trás. Dentro da sala apertada estavam homens, mulheres e crianças. O sírio diz que esteve dois dias sem comer e dormir, até que cedeu e fez o registo.

Muhanad e o pai também passaram pelo campo de Rozske, o mesmo onde uma voluntária filmou o vídeo que mostra cerca de 150 pessoas a lutarem por sacos com sandes que são atirados ao ar pela polícia húngara. O pai levanta a perna direita das calças e mostra uma enorme nódoa negra ainda visível. Garante que o polícia húngaro lhe deu um pontapé com violência quando se apercebeu que ele estava a fazer um vídeo com o telemóvel num dos hangares onde são colocados. “A Hungria foi um inferno”, desabafa o filho, Muhanad. Tanto um como outro recusam ser filmados, dizem temer pela sua segurança. Mas Muhanad cedeu ao Expresso um vídeo que o próprio fez com o telemóvel no interior do campo de Rozske, onde os jornalistas não podem entrar. Imagens que mostram a situação caótica que se vive dentro do campo.

“Em Budapeste, na estação de comboios, a polícia não nos pode fazer nada. Tu estavas lá, estavam lá as televisões. Em Szeged podem fazer-nos tudo, porque as televisões não entram lá. Se os jornalistas estivessem lá não nos tratariam assim”, diz por sua vez Mohammed. À câmara do Expresso, o sírio contou ainda como os polícias usam várias formas para fazer dinheiro com os refugiados. No caso dele foi com um telefonema. Implorou por um telefone para ligar à mãe, à qual não dava notícias há dias. O polícia pediu-lhe uma soma considerável em troca.

Mohammed viaja sozinho, sem família, embora acompanhe um grupo de sírios que encontrou na Turquia. Diz que quer ir para a Bélgica, onde tem um tio e mais familiares a viver. Mas primeiro vai seguir este grupo até Munique. Na entrevista gravada em vídeo, primeiro contou que iria encontrar-se com o tio na cidade alemã. Já depois de desligada a câmara, Mohammad acabou por confessar a verdade. “Vou ter com um homem a Munique que, por 500 euros, me vai pôr na Bélgica. Tu podes escrever isto, mas eu não digo isto para a gravação.”

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    Uma criança síria. Uma voluntária. Uma maçã. Um momento perdido entre tantos outros no meio da roda-viva em que está transformada a estação de comboios em Viena. Histórias simples de vidas complicadas. João Santos Duarte na Áustria, a acompanhar os refugiados que procuram a solidariedade europeia

  • Perseguidos, roubados e humilhados: na fronteira do desespero

    Ficar onde estavam não era opção: se a morte não os apanhasse, apanharia certamente um dos seus. Ou vários dos seus. Por isso deixaram, deixam e deixarão os países onde nasceram e viveram - e fazê-lo contra a vontade não é capricho, mas sobrevivência. E primeiro era o mar, que se tornou para uns (tantos, tantos) cemitério, a separá-los do que ansiavam alcançar cá, neste lado onde estamos e onde eles veem (esperam, sonham) esperança e dignidade. E depois do mar, agora há muros entre eles e nós, como este na fronteira entre a Hungria e a Sérvia: estivemos lá e é lá que regressamos consigo numa experiência multimédia que é experiência de vida. Se um mar não trava o desespero, é um muro que vai parar?

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