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O dia em que o Partido Trabalhista elegeu o líder mais controverso de sempre

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Jeff J Mitchell / Getty Images

O pequeno relvado à frente do Centro de Conferências Queen Elizabeth II está cheio: não tão cheio de pessoas como se esperava mas cheio de esperança nas pessoas que aqui estão. Toda a gente está abraçada a alguém. Não é certo que se tenham conhecido antes de hoje. Jeremy Corbyn conseguiu essa proeza na política moderna que é a de angariar eleitorado em vez de o dissipar. A reportagem de Ana França em Londres

Maior que Tony Blair. Exatamente 2% maior. Jeremy Corbyn foi eleito líder do partido trabalhista por uma margem que torna muito mais difícil a vida de potenciais conspiradores - 59.5% dos votos, ou um quarto de milhão de pessoas. Em segundo lugar, mas lá longe, com 19%, ficou Andy Burnham, naquela que foi a eleição partidária interna com maior número de votos da história política do Reino Unido: votaram cerca de 420 mil pessoas, ou 76% da totalidade dos membros.

“Acho que definição técnica do que aqui se acabou de passar é: vitória mais expressiva de qualquer político a líder partidário desde sempre no Reino Unido”, diz Ben Wittley, um contabilista de Oxford que veio de autocarro com centenas de voluntários para estar presente caso o impossível acontecesse - “queria ter muita gente para abraçar”.

O pequeno relvado à frente do Centro de Conferências Queen Elizabeth II está cheio: não tão cheio cheio de pessoas como se esperava mas cheio de esperança nas pessoas que aqui estão. Toda a gente está abraçada a alguém. Não é certo que se tenham conhecido antes de hoje. Casacos vermelhos, t-shirts vermelhas, boinas pretas com estrelinhas vermelhas. Há o cliché mas também há a outra parte: os novos trabalhistas que só recentemente se tornaram membros do partido. Jeremy Corbyn conseguiu essa proeza na política moderna que é a de angariar eleitorado em vez de o dissipar. Quase 70% das pessoas que hoje votaram são membros apenas desde 2010 e quase 200.000 só se juntaram ao partido depois de anunciados os candidatos a líder.

E o impensável aconteceu. O partido trabalhista elegeu o seu líder mais controverso de sempre: o que mais vezes votou contra o partido, o mais inconformista, um homem que em 30 anos como deputado nunca ocupou qualquer posição governativa nos sucessivos governos trabalhistas. Mas agora, e até ver, é candidato a primeiro-ministro. Tão oposto a David Cameron está Corbyn que não faz sentido sequer tentar adivinhar como reagirão os conservadores, mas Ben acha que as repercussões desta eleição serão imediatas: “Agora é que as pessoas vão ver o verdadeiro David Cameron porque ele terá que enfrentar alguém honesto, puro e com pouco a perder. Corbyn nunca se conformou, nunca pensou que ia vencer, não será agora, depois deste mandato gigante, que vai começar a desiludir os seus apoiantes e Cameron terá que ser pelo menos tão radical como Corbyn se quiser marcar a diferença”.

Explicar o fenómeno

“É como um feitiço: quem fala com o Jeremy entende imediatamente que ali está um homem completamente diferente dos restantes políticos. Ouve as pessoas durante horas, não tem horários quando está a tratar dos problemas da sua localidade, tira tempo do seu tempo livre para ajudar pessoas a preencher papéis para conseguirem a cidadania britânica, são tantas histórias”, diz Shabazz Chapman, designer gráfica de 22 anos, uma sã nova trabalhista, visivelmente emocionada minutos depois da confirmação dos resultados. Até ter ido com os pais, ativistas pelo partido há quase 30 anos, ouvir Corbyn falar em Camden, no Norte de Londres, Shabazz nunca tinha entendido a devoção dos pais ao partido: “Não me lembro dos dias de luta de que os meus país falam, só me lembro, vagamente, do Labour de Blair, da guerra, e depois, mesmo com Gordon Brown e Ed Miliband, o discurso oficial do partido continuou amedrontado, paralisado pelo medo de perder votos para os conservadores, incluindo referências ao controlo da imigração mas sem explicar porquê nem como, só para apelar a votos da direita”. Como Shabazz, mais de 16 mil outros voluntários doaram o seu tempo a esta campanha.

Um desconhecido até há menos de um mês, Jeremy Corbyn está agora nas rédeas do maior partido político britânico. Vários fatores contribuíram para este resultado que não é assim tão surpreendente se pensarmos que desde 2010, com Ed Miliband, o Partilho Trabalhista tem vindo a abraçar ideias progressivamente distantes do New Labour de Tony Blair: a vaga de deputados trabalhistas eleitos na última eleição está ideologicamente várias milhas para a esquerda de Blair e, apesar de pelo menos nomes sonantes já terem dito que não serviram sob Jeremy Corby, muitos também já vieram defender que o mais importante é que o partido se mantenha unido.

Importante também é lembrar que o Labour um dia foi “apenas” um sindicato, e Jeremy Corbyn é o primeiro líder deste milénio a abraçar esse laço, em vez de o querer enfraquecer. E nos sindicatos há disciplina de voto, paixão e dinheiro para investir em campanhas. Para a ala mais centrista do partido, contudo, os sindicatos são um garrote nas aspirações eleitorais do partido e o dia de hoje é um dia para refletir e não para festejar. “Os sindicatos são associações absolutamente vitais para garantir os direitos dos trabalhadores, mas eles não representam nem a maioria da população nem sequer a maioria do eleitorado trabalhista. Por um lado estou feliz pela campanha e por todo este espírito de união, mas por outro é um dia deprimente, porque eu e os meus colegas lutamos por um partido aberto a toda a gente, por um partido moderno, virado para o futuro e principalmente virado para fora de si mesmo, apaixonadamente europeu, e tantas todas essas coisas que Jeremy Corbyn pode não vir a honrar”, disse Ben Dilks, editor da página “Policy Network”, uma publicação conotada com a ala Blarista dos trabalhistas, e um dos estrategas da campanha de Liz Kendall.

O caminho de Corbyn contudo ainda agora começou e a estrada à sua frente não é nada senão sinuosa. Não será fácil encontrar uma equipa com experiência nos corredores gélidos de Westminster até porque, tal como o próprio Corbyn, muitos dos seus aliados têm pouca experiência governativa. Os que a têm não querem contaminar a sua imagem com as suas políticas demasiado radicais. O partido foi claramente incapaz de oferecer aos seus membros uma alternativa ao entusiasmo de Corbyn - agora resta saber o potencial de contágio desta nova estirpe da Esquerda britânica.