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Em resposta a protestos contra foto de um bebé afogado, tablóide alemão publica edição sem fotos

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THALIA ENGEL

O diretor do "Bild", Julius Reichelt, sugere que as pessoas não têm direito de olhar para o lado, e diz que o seu desconforto é menos importante do que o sofrimento de outros seres humanos

Luís M. Faria

Jornalista

A publicação da imagem de Aylan Kurdi, um bebé sírio de três anos, jazendo morto numa praia da Turquia, foi polémica em muitos países. No Reino Unido, por exemplo, apenas o diário "The Independent" a colocou na primeira página. Outros optaram pela foto, ainda terrível mas um pouco menos chocante (porque algo mais indistinta), de um guarda a levar o menino nos braços. Na Alemanha, o tablóide "Bild" publicou a foto, e foi objecto de uma chuva de protestos. Na terça-fiera respondeu às críticas de uma forma bastante direta: fazendo uma edição completamente sem fotografias da primeira à última página.

O diretor Julius Reichelt explicou porquê num texto intitulado "O Poder das Imagens", onde refere casos anteriores de imagens chocantes que foram vistas em todo o mundo: "Recordamos as imagens da menina com Napalm no Vietname que corria nua pelas ruas a gritar, com a pele queimada no seu pequeno corpo. Ou as imagens do Ruanda em 1994, mostrando corpos retalhados e espancados. Imagens que mostram genocídio, massacre de pessoas, um holocausto evitável. As fotos de Srebrenica, as crianças gaseadas em Damasco, o pequeno Aylan morto na praia de Bodrum".

"Estes exemplos, diz Reichelt, indicam "o papel indiscutível que estas imagens angustiantes têm na nossa sociedade, lembrando-nos de quem realmente somos, visualizando aquilo de que os seres humanos são capazes. Através deles, somos avisados de que qualquer civilização pode entrar em colapso num instante, de que as pessoas abrem as portas do inferno se olharem para o lado".

Ao publicar uma edição sem imagens, o "Bild" homenageia o poder delas. "Sem imagens, o mundo seria mais ignorante, os necessitados mais invisíveis, mais perdidos. Muitos crimes ficariam simplesmente esquecidos (...) As fotografias são os gritos do mundo", conclui o texto, que é ao mesmo tempo uma declaração de princípios e um protesto contra os protestos.