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A humanidade de uma maçã

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Uma criança síria. Uma voluntária. Uma maçã. Um momento perdido entre tantos outros no meio da roda-viva em que está transformada a estação de comboios em Viena. Histórias simples de vidas complicadas. João Santos Duarte na Áustria, a acompanhar os refugiados que procuram a solidariedade europeia

João Santos Duarte

João Santos Duarte

na Áustria

Jornalista

Ela estava às cavalitas do pai quando lhe passaram a maçã para a mão. Agarrou-a e trincou-a furiosamente. “Tão pequeninos, custa-me vê-los assim nesta situação”, diz Lina. A maçã veio de um carrinho de compras que está cheio quase até ao topo. Ao lado há outro com pães. E ao lado desse outro com águas. E ainda outro com comida para bebé.

Os carrinhos entram cheios e saem vazios em não muito tempo. Passam a ritmo frenético na plataforma empurrados por voluntários, enquanto Lina fala agora com uma família que está sentada no chão, encostada à parede. Há uma semana que é sempre assim: depois de sair do trabalho, passa parte da noite na estação de comboios, a ajudar de todas as formas que pode. Também ela sabe o que é vir de um país distante - saiu do Afeganistão com apenas 8 anos.

Ao peito, Lina traz um papel que identifica as línguas que sabe falar: urdu e farsi, além do inglês. É apenas uma entre dezenas de voluntários da Caritas que circulam na plataforma e que sabem falar as várias línguas das centenas de migrantes e refugiados que chegam todos os dias à estação de Viena, vindos de Budapeste. Entre os voluntários estão muitos imigrantes a viver há algum tempo no país: sírios, afegãos, paquistaneses ou iraquianos.

A plataforma número 1 da estação vive há semanas num verdadeiro corrupio. É para aqui que são encaminhados todos os comboios que vêm de Budapeste. Mal as portas abrem, as pessoas dirigem-se de imediato aos carrinhos de supermercado, onde recolhem o que precisam. Por trás de um deles está Elizabeth, sempre de sorriso na cara. Esta avó de 68 anos pode não saber falar árabe ou farsi ou urdu ou qualquer outra língua que os migrantes e refugiados falem no seu país de origem, mas isso não a impede de lhes dar uma ajuda. É uma entre muitos austríacos comuns que abdicaram de várias horas da sua vida para ajudar. Quando viu as imagens do que estava a acontecer na estação pensou que tinha de fazer algo. E às vezes, garante Elizabeth, até um simples sorriso pode fazer muito por alguém.

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