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Um gesto do tamanho de 20 vidas

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Refugiados na estação de Keleti, na Hungria

João Santos Duarte

Joey foi de férias, Joey estava no hotel. Joey ligou a televisão, Joey não acreditou no que viu. Joey chamou os amigos, Joey juntou dinheiro para comprar 20 bilhetes de comboio. Joey foi à gare, Joey encontrou refugiados sírios desesperados - sem bilhetes, sem dinheiro. Que fogem já não sabem bem como nem para onde. Joey deu-lhes os bilhetes. É um daqueles gestos do tamanho da vida, vida que os sírios que lhe ficaram com os bilhetes não sabem como será agora que viajam com os bilhetes de Joey. Mas a vida não é mais simples para os que não precisaram dos bilhetes de Joey porque já tinham um comprado. O Expresso na Hungria

João Santos Duarte

João Santos Duarte

enviado à Hungria

Jornalista

Ahmed procura no mapa aquela terra de nome estranho. “He… Hegy...Hegyeshalom.” Tem um mapa no telemóvel mas não se consegue ligar à Internet. Sabe apenas que fica algures na fronteira da Hungria com a Áustria. Hegyeshalom é o destino que tem escrito no bilhete do comboio que traz na mão. À sua frente na fila estão dezenas de pessoas. E, mesmo lá ao fundo, está o motivo pelo qual não esconde, por vezes, um olhar de receio.

O acesso às plataformas centrais da estação de Keleti, de onde saem os comboios internacionais para Viena e Munique, está agora vedado por um forte cordão policial. São quase duas dezenas de agentes, que estão a controlar as entradas no comboio. Ahmed tem medo porque, até agora, conseguiu escapar ao registo por parte das autoridades húngaras. Conta como atravessou a floresta a sul, na fronteira com a Sérvia, e os campos agrícolas da região sem ser detetado, até encontrar um táxi que o levou - a ele e aos amigos - até Budapeste. Pagaram 300 euros. “Até agora não tive de pôr o dedo em nenhum papel”, garante este contabilista de 28 anos. Quer evitar o registo de um pedido de asilo na Hungria para afastar a hipótese de ser enviado para trás quando chegar a outro país europeu. Por isso, rejeita ser filmado ou fotografado, para “evitar problemas”.

João Santos Duarte

A situação em Keleti está já longe do caos do final da semana passada, quando milhares de pessoas ficaram bloqueadas durante dias na estação depois de as ligações diretas internacionais terem chegado a ser suspensas. Mas, ainda assim, as dúvidas e a desinformação reinam aqui entre os refugiados. Ahmed está na fila porque alguém lhe disse que os sírios podiam viajar gratuitamente nos comboios. E, mesmo já tendo bilhete, queria aproveitar para seguir para a zona de fronteira numa ligação mais cedo. Minutos depois, a longa fila desfaz-se sem que os sírios consigam embarcar. Ahmed acabou por se resignar a ter de esperar mais umas horas para seguir viagem.

Mesmo entre os voluntários na estação que procuram dar ajuda aos refugiados há por vezes muitas dúvidas. “Às vezes nem nós próprios temos a informação correta”, admite Kinga, com um ar frustrado. Há cerca de um mês que vem todos os dias à estação de Keleti para ajudar no que pode. Admite já estar exausta, mas não desiste de vir. Kinga garante que os dias mais difíceis que viveu foram os da semana passada, com milhares de refugiados desesperados nas arcadas do piso inferior de Keleti sem saberem para onde ir. “Queríamos ajudar, mas nós próprios não sabíamos o que dizer. Chegaram a existir situações tensas entre os próprios voluntários e refugiados, porque as pessoas estavam realmente desesperadas.” Mais de mil chegaram a lançar-se à estrada e a iniciar o longo caminho a pé. No final, o governo húngaro acabou por ceder e organizou dezenas de autocarros para os levar até à fronteira com a Áustria, que abriu a fronteira para os acolher.

Encontramos Kinga a desdobrar-se pelos vários grupos que ficaram apeados para seguir viagem. Para quem tem menos dinheiro, o conselho é seguir até Hegyeshalom, na fronteira, e apanhar aí o autocarro para a Áustria. Sem bilhete é que não podem viajar.

A incrível Joey

São de várias cores e feitios, tamanhos pequenos e grandes, de criança ou de adulto, de homem ou de mulher. Estão espalhados numa parte do chão da praça e quem quiser pode ir lá buscar um par. Os sapatos são o resultado de doações, bem como o amontoado de roupa que se aglomera junto a uma tenda improvisada a poucos metros dali. Um pouco mais à frente, o espaço da Migration Aid, outra organização de solidariedade, oferece cobertores, sacos cama, colchões e esteiras, tendas, comida e água. O espaço pode já não estar sobrelotado, como chegou a acontecer nos últimos dias, mas há dezenas de refugiados que continuam em trânsito por aqui. E por isso as organizações não desmobilizam.

João Santos Duarte

Aqui e ali veem-se algumas tendas, várias camas improvisadas no chão com colchões de espuma e cobertores, famílias inteiras que aguardam até poderem seguir viagem. Alheio a tudo isto, um grupo de crianças sírias joga à bola no centro da praça, enquanto outros se divertem a brincar no meio do amontoado de roupa resultante das várias doações. Iman observa-os de longe, sentada nas escadas. Ao lado, o marido está descalço, os pés cheios de bolhas. “Andámos quilómetros para chegar aqui. Não conseguimos mais”, diz Isman. Vieram da Síria, de Kobane, com os três filhos pequenos. O grupo tem três famílias, no total são cerca de 20 pessoas.

Querem seguir para a Áustria e depois para a Alemanha, mas não sabem como. Até que a ajuda lhes caiu literalmente do céu.

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“Querem bilhetes?”, perguntou-lhes Joey, num inglês com sotaque britânico inconfundível. De férias em Budapeste, quando ligou a televisão do hotel não queria acreditar naquilo que estava a ver. Desafiou um grupo de amigos e juntos arranjaram dinheiro para comprar mais de duas dezenas de bilhetes até Hegyeshalom, na fronteira com a Áustria. E agora estava a distribuí-los ao grupo de sírios, que assim poderia partir dentro de duas horas.

O relógio da estação aproxima-se da uma da tarde. Volta a formar-se uma extensa fila no acesso à plataforma central. O “railjet”, que tem como destino Viena e depois Munique, está a poucos minutos de partir. Sente-se de novo uma agitação no ar. A polícia reforça a presença junto às grades de acesso, deixa passar primeiro os outros passageiros, só no final o grupo de sírios.

Os refugiados têm finalmente autorização para avançar e entram na primeira carruagem. Hussein carrega uma das filhas ao colo e senta-se ao lado da mulher, que tem a outra nos braços. Vêm de Kobane e seguem agora para Viena, mas querem ter como destino final a Suíça. Hussein pergunta-nos se é um bom país para viver, enquanto recorda, num inglês esforçado, aquilo que deixou para trás. “Bombs, bombs, bombs”, repete. “Assad is a donkey”.

João Santos Duarte

Sentado num dos lugares por perto, um outro sírio está com receio. Na cabeça de muitos ainda está o episódio da passada quinta-feira, quando as autoridades húngaras disseram a um grupo de refugiados que iriam seguir para a Áustria e em vez disso tentaram levá-los à força para o campo de Bicske, a cerca de 35 quilómetros de Budapeste, o que originou uma reação desesperada das pessoas que não aceitaram esse destino.

“Temos bilhetes para Viena, mas agora disseram-nos que não podíamos continuar até lá”, diz o sírio sentado não muito longe de Hussein. “Disseram-nos que poderíamos ter de sair na fronteira e depois seguir de autocarro ou a pé até à Áustria. Já não sabemos em quem acreditar…” Lá fora ouve-se já o apito do controlador de tráfego. O comboio está prestes a partir. Mas, para quem vai lá dentro, o destino final é uma incerteza.

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