Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Um ano em Marte

  • 333

MISSÃO. NASA volta a testar, no Havai, como é viver em Marte

d.r.

Três homens e três mulheres estão isolados há uma semana numa estrutura a 2,5 quilómetros de altitude, no Havai, onde vão ficar fechados durante um ano. É a terceira fase do projeto da NASA que simula a primeira missão humana no planeta vermelho

Ainda Cristo não era nascido e já os olhos dos homens estavam postos em Marte. Sendo um dos planetas mais próximos de nós - em maio do próximo ano estará a “apenas” 75 milhões de quilómetros -, o seu brilho é facilmente visto no céu noturno. Mas foram os telescópios terrestres, as sondas e os robôs que mais revelações fizeram e aguçaram a curiosidade sobre aquele que é talvez o planeta mais citado na literatura, na música e no cinema. Quem nunca ouviu falar do romance “A Guerra dos Mundos”, em que marcianos invadem a Terra e destroem a humanidade, escrito em 1898, por H. G. Wells e dramatizado, 40 anos mais tarde, por Orson Welles, num programa de rádio que provocou o pânico em milhares de pessoas?

Sabemos que Marte tem cerca de metade do diâmetro da Terra, tem água (embora escassa), já teve uma atmosfera quase igual à terrestre em termos de percentagem de oxigénio, tem aproximadamente 1/3 da gravidade da Terra, a sua superfície é rochosa, tem duas luas... só falta mesmo lá ir em carne e osso. É esse aliás o maior objetivo e desafio tanto da agência espacial norte-americana (NASA) como da europeia (ESA).

O interior da cúpula

O interior da cúpula

Com a perspetiva de enviar os primeiros seres humanos a Marte, na década de 2030, a NASA desenvolveu uma missão de exploração - Hi-Seas (Hawaii Space Exploration Analog and Simultaion) -, que já teve duas fases, uma que durou quatro meses e outra oito.

Na sexta-feira passada iniciou-se a terceira etapa, a mais longa, que vai durar 356 dias. Com base nas conclusões das missões anteriores foram selecionados Sheyna Gifford, Tristan Bassingthwaighte, Carmel Johnston, Andrzej Stewart, Cyprien Verseux e Christiane Heinicke, de diferentes nacionalidades (quatro americanos, um francês e um alemão) e com as profissões mais variadas (jornalista, piloto, arquiteto, cientista, astrobiólogo e físico). O objetivo é estudar e trabalhar o desempenho e a coesão da tripulação, de maneira a desenvolver estratégias eficazes que permitam no futuro viajar até Marte e regressar com sucesso, uma vez que uma viagem dessas demorará no mínimo três anos.

Uma espécie de “big brother” marciano

A equipa vai viver - ou melhor, já está a viver - numa espécie de cúpula com 11 metros de diâmetro e seis de altura, localizada 2500 metros acima do nível do mar, no vulcão Mauna Loa, no Havai, um local terrestre com um ambiente muito parecido com o marciano. Serão vigiados por câmaras, mapeadores de movimentos do corpo, entre outros métodos, de forma a que os investigadores que os acompanham do lado de fora possam recolher dados de uma ampla gama de fatores cognitivos, sociais e emocionais, que podem afetar o desempenho e a dinâmica da equipa.

Dentro da cúpula cada elemento terá uma pequena divisão com uma cama e uma mesa/secretária, a alimentação é com base em comida liofilizada, a comunicação com o exterior é feita por via eletrónica e com um atraso de 20 minutos (para a simulação ser o mais real possível) e as idas ao exterior serão sempre realizadas com um fato especial, como os dos astronautas, exatamente como se estivessem em Marte (pode ver AQUI um vídeo com todas as explicações sobre a vida na cúpula). Cada um dos elementos terá várias funções, sendo certo que haverá muitas tarefas a cumprir fora do complexo.

Será esta a realidade daqueles seis seres humanos durante um ano. 365 dias sempre com as mesmas pessoas, num espaço confinado, praticamente sem privacidade, sem poder apanhar ar fresco ou saborear um bife suculento.

Os seis “astronautas” que se fecharam, por um ano, isolados do mundo

Os seis “astronautas” que se fecharam, por um ano, isolados do mundo

Por mais entusiasmo e preparação que haja, os desafios psicológicos são enormes. “A reação das pessoas a uma situação destas é processada de uma forma muito individual, ou seja, as características de personalidade levam a resultados diferentes de pessoa para pessoa”, começa por explicar o psicólogo Rui Ribeiro. Mas uma alteração radical e abrupta do dia-a-dia normal de cada um dos elementos cria desafios em termos individuais, e sobretudo de relacionamento.

“Vão deixar de estar com as pessoas do seu círculo familiar e de amigos, para estarem de forma continuada com outras cinco pessoas que provavelmente conhecem de uma forma superficial e num espaço relativamente exíguo. É natural que numa fase inicial da evolução deste grupo exista reserva de exposição de cada um numa tentativa de conhecer melhor os outros e atribuir a cada um determinado papel no grupo e com ele se estabelecer um padrão de comunicação. Mas os conflitos nos grupos são inevitáveis”, acrescenta o psicólogo.

Aliás, essa foi uma das lições retiradas da missão anterior, a que durou oito meses, como reconheceu Kim Binsted, investigadora chefe do projeto Hi-Seas, assumindo que “a tripulação fica stressada, alguns com sinais de depressão”. Kim explica no entanto que um dos objetivos desta etapa é precisamente “compreender os fatores sociais e psicológicos envolvidos numa exploração de longa duração e dar à NASA dados sólidos sobre a melhor forma de selecionar e apoiar uma tripulação de voo que terá de trabalhar de forma coesa, em equipa, enquanto estiver no espaço”.

Rui Ribeiro realça que “o importante é o modo como o grupo vai gerir e resolver os conflitos. Poderíamos perspetivar que a qualidade do relacionamento entre os diversos elementos daquele grupo está diretamente relacionada com a qualidade com que lidarem e resolverem os conflitos entre eles, tal como acontece nos grupos reduzidos, como por exemplo os casais, ou nas equipas de trabalho numa organização. Variáveis individuais como a personalidade e as motivações e as características do grupo, como heterogeneidade, complementaridade, entre os elementos, vai moderar a emergência e resolução dos conflitos”.

Recuando no tempo, e salvo as devidas diferenças, podemos imaginar que, por altura dos Descobrimentos, os portugueses passaram pelo mesmo tipo de problemas de relacionamento e stress psicológico. Afinal, também eles tiveram de permanecer meses seguidos fechados dentro de uma caravela, em alto mar, sem saber muito bem qual o destino final.