Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A morte que envergonha a Europa: “Naquela praia jaz o mundo inteiro”

  • 333

A fotografia de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos cujo corpo deu à costa na praia turca de Bodrum, é já o mais triste dos símbolos da crise que envolve os refugiados. Está impressa nos jornais de todo o mundo: “Aylan soube antes de tempo que o mundo não sabe salvar os meninos, porque também desconhece como salvar-se”

Há imagens assim, com a capacidade indiscutível de nos exporem diante dos olhos a realidade na sua versão mais crua, mesmo quando pensamos já a conhecer. A fotografia de Aylan Kurdi, a criança síria de três anos cujo cadáver deu à costa numa praia turca, está esta quinta-feira nas capas dos jornais, legendada em quase todas as línguas, e ao vê-la assim, ampliada e reproduzida em várias manchetes, o mundo curva-se perante a tragédia. E questiona a Europa.

Desde o espanhol “El País”, lapidar na sua observação - “Uma criança é o mundo inteiro” - ao título “Somebody's child” (“A criança de alguém), escolhido pelo “The Independent”, o corpo de Aylan está também no “The Guardian”, no “The Times”, até no tabloide “The Sun”, nas televisões, nas redes sociais...

A própria escolha da fotografia abriu discussões nas redações. Há quem tenha escolhido publicar a imagem onde se vê apenas o corpo da criança, deitado de barriga para baixo na areia, e há quem tenha usado a foto captada no momento em que o bebé é recolhido pela polícia.

Online, o “The Independent“ justifica a opção pela primeira. “Nós decidimos publicar, porque o uso de palavras frequentemente ‘desencarnadas’ para falar sobre a crise dos migrantes torna muito fácil esquecer a realidade das situações desesperadas que vivem os refugiados.”

“Se estas imagens extraordinariamente poderosas de uma criança síria morta na praia não mudarem a atitude da Europa em relação aos refugiados, o que o fará?”, pergunta ainda o “The Independent“ no seu editorial desta quinta-feira.

A propósito do tema, o jornal lançou uma petição exigindo que a Grã-Bretanha aceite a sua quota-parte “justa” de refugiados. Em poucas horas, somou mais de 10 mil assinaturas.

Na mesma linha, o “Irish Examiner” justifica a utilização das imagens de tão chocante morte. “Certo ou errado, é uma longa tradição das empresas de media, incluindo esta, não publicarem algumas das mais perturbantes fotografias captadas em zonas de guerra, regiões em conflito ou em cenários de desastres naturais“, lê-se no jornal, que garante não ter tomado de ânimo leve a decisão de abrir uma exceção, porque “esta é uma das ocasiões em que a gravidade da situação justifica a publicação da fotografia que têm diante dos vossos olhos”.

Entre nós, o editorial do “Público” é também direto: “Às vezes, é nosso dever publicar imagens impressionantes”.

As notícias desta quinta-feira de manhã contam também um pouco mais sobre o menino morto no naufrágio, onde também um irmão, de cinco anos, e a mãe perderam a vida. A verdade, lembra o “Le Monde”, é que o fluxo de refugiados não desloca “apenas jovens em busca de emprego e de um futuro melhor” - é composto por famílias inteiras, “incluindo mulheres e crianças que fogem da pobreza e da guerra”. “O êxodo está apenas a começar, não vai parar tão cedo”, diz o jornal francês, para concluir que “a UE é o seu destino natural”.

Como alguém no Twitter recordava, Aylan Kurdi não escolheu ser refugiado. Era uma vítima que fugia da guerra. A família (só o pai sobreviveu) viajava numa de duas embarcações que saíram de Bodrum, na Turquia, com destino à ilha grega de Kos. Mas ambos os barcos naufragaram pouco tempo depois, tendo sido resgatadas 12 pessoas sem vida, entre as quais cinco crianças, de acordo com as autoridades.

Abdullah Kurdi, a mulher Rihan e os filhos Aylan e Galip partiram de Kobane, no norte da Síria, para fugir à violência vivida desde o início do ano, depois da chegada dos combatentes do autodenominado Estado Islâmico (Daesh) à cidade. Segundo o “National Post”, a família esperava atravessar a Europa e fixar-se eventualmente no Canadá, onde vive uma irmã de Abdullah. Ouvida pelo jornal, Teema afirmou que o irmão a contactou, dizendo apenas que a mulher e os filhos tinham morrido. Pretende agora voltar a Kobane para os sepultar, disse ainda.

“Insuportável”, titulou o “The Mirror”, num desabafo certamente partilhado mesmo por quem não o verbalize em posts digitais ou o deixe escapar em voz alta. Aylan “soube antes de tempo que o mundo não sabe salvar os meninos, porque também desconhece como salvar-se”, escreveu Juan Cruz no “El País”. Para terminar: “Ali jaz, naquela praia, o mundo inteiro”.

  • Náufragos da humanidade

    Esta criança recolhida pela polícia numa praia da Turquia não chegou à Europa. Afogou-se a caminho do outro lado do Mediterrâneo, o destino de milhares de refugiados que fogem à morte nos países que abandonam. É uma imagem que está a correr e a impressionar o mundo - e tem um movimento associado à hashtag #KiyiyaVuranInsanlik. Que significa o “naufrágio da humanidade”

  • “Não vamos à procura de uma vida melhor. Vamos à procura de vida. Atrás de nós só há morte”

    Na cabeça dele havia duas palavras que significavam o mesmo: Europa e segurança. No país dele, a Somália, havia uma palavra que significava “vai-te embora”: guerra. Atravessou África, chegou à Líbia, meteu-se num barco para atravessar o Mediterrâneo. Se ele teve medo de atravessar o mar que se tornou cemitério? Ele tinha medo era de ficar. Ele, Ahmed Abdalla, conta-nos na primeira pessoa o impossível