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Vira do Minho em homenagem a Portugal na cidade do tango

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Juanjo Archi

Buenos Aires homenageou a imigração portuguesa e a sua contribuição para a cultura da capital da Argentina. Considerada a maior montra de Portugal por estas paragens, a celebração ficou marcada por três sentimentos que dominam a vida da comunidade lusa no país: emoção, orgulho e saudade

Maria Conceição Henriques Fernandes, de 56 anos, ajuda a filha Luciana, de 26, a terminar de vestir-se. Falta pouco para o desfile começar pela emblemática Avenida de Maio, a metros da Casa Rosada, sede do Governo argentino, e da Catedral Metropolitana de Buenos Aires, onde o Papa Francisco era o arcebispo Jorge Bergoglio.

Mãe e filha dançam no grupo Mocidade Portuguesa, que agora em setembro completa 41 anos. O principal e mais antigo grupo folclórico da comunidade portuguesa na Argentina é um dos melhores exemplos da herança cultural transmitida de pais a filhos, de avós a netos.

Filha de portugueses da Beira Alta, Maria Conceição foi à primeira apresentação do Mocidade em 1974. Lá, conheceu Roberto Fernandes, membro do grupo, por quem se apaixonou. Através do namoro, também entrou para o grupo fundado pelo pai de Roberto, o também dançarino Amândio Augusto Fernandes, natural de Trás-os-Montes.

"O meu pai tinha um único propósito com o Mocidade: matar as saudades", sintetiza Roberto ao Expresso enquanto, no palco, as apresentações musicais já começaram. O luso descendente Dulio Moreno entoa fados e comanda o aclamado Almalusa. Em seguida, será a vez do grupo Fadeiros, outra sensação da comunidade que ganha espaço entre o público argentino.

Em 1983, o casal Fernandes já dirigia o Mocidade e Maria Conceição dançava grávida do primeiro filho. Seis anos depois, dançaria novamente grávida, desta vez de Luciana.

O Mocidade Portuguesa bem poderia ser um grupo casamenteiro, mas, na verdade, ilustra bem os valores em torno dos quais os portugueses que migraram à Argentina cresceram, relacionaram-se e mantiveram a sua identidade intacta mesmo tão distantes de Portugal, mesmo tantas décadas depois. Os filhos de Maria Conceição que dançaram no ventre da mãe, são hoje dançarinos e casaram-se os dois com integrantes do grupo. Luciana está agora grávida de três meses e meio, não sabe ainda o sexo do bebê, mas tem uma certeza: será um dançarino. A quarta geração da família.

"Quando danço sinto emoção e orgulho porque represento tudo o que os meus avós me contaram, porque os argentinos passam a ter a vontade de descobrir Portugal e porque aqueles portugueses que nunca mais voltaram a Portugal - e que são muitos na Argentina nessa condição - emocionam-se", conta Luciana.

Luciana e Maria Conceição dançam no grupo Mocidade Portuguesa, o principal e mais antigo grupo folclórico da comunidade portuguesa na Argentina

Luciana e Maria Conceição dançam no grupo Mocidade Portuguesa, o principal e mais antigo grupo folclórico da comunidade portuguesa na Argentina

Ao lado dela, Jazmin Gonçalves, também de 26 anos e neta de portugueses, é a mais nova integrante do Mocidade. Está há apenas seis meses no grupo, mas a emoção é a mesma: "Sinto que é uma homenagem aos meus avós", orgulha-se.

Para aqueles que consideram ser este o retrato de um Portugal antigo, de costumes ultrapassados que só se mantém vivo nos imigrantes, Luciana explica que o grupo se nutre do grupo folclórico Lavradeiras da Meadela de Viana do Castelo com o qual se mantém em permanente contato.

"Eles nos ensinam muito. Atualizamo-nos constantemente", explica Luciana, quem chegou de volta a menos de 24 horas de ensaiar com o Lavradeiras em Viana do Castelo.

E depois o Mocidade Portuguesa replica os novos conceitos do folclore português aos demais grupos na Argentina como "Raízes de Portugal" e "Estrelas do Minho".

Neste "Buenos Aires celebra Portugal", sete ranchos desfilam para portugueses, argentinos e turistas. Ao longo do dia, cerca de cinco mil pessoas terão sido expostas a essa montra viva da cultura portuguesa.

Márcio Resende

Evento único no mundo

O evento promovido pelo Governo de Buenos Aires é único no mundo. Enquanto em outros países as localidades cedem algum espaço para a comunidade portuguesa organizar a sua festa pátria, aqui a cidade de Buenos Aires organiza a sua homenagem a Portugal num objetivo de integração que torna mais viva a presença portuguesa no país.

Um total de 23 barracas de 14 clubes e associações integravam argentinos e turistas com a cultura portuguesa. Artesanato e porcelanas, gastronomia e até uma representação do santuário de Nossa Senhora de Fátima em Tornquist, cidade a 600 quilómetros de Buenos Aires. Se ainda faltam dois anos para o Papa visitar Fátima, o Santuário de Fátima na Argentina já se orgulha de estar na terra natal do Papa há 33 anos.

Na barraca ao lado, os 150 pastéis de nata terminam como se estivessem em Belém. E na barraca do clube português da localidade de Isidro Casanova, a fila é longa para provar a integração culinária entre a "empanada" argentina com o bacalhau português ou entre a bifana portuguesa "a la parrilla" argentina. Todo o movimento é transmitido ao vivo pelo programa radial da comunidade portuguesa "Portugal N'América".

"Comunidades isoladas, por maior que sejam, ficam confinadas e não têm expressão. Só passam a ter expressão a partir do momento em que há uma congregação de esforços entre a comunidade portuguesa e a comunidade local. Essa integração é fundamental", avaliou ao Expresso o deputado pelas comunidades portuguesas do círculo eleitoral fora da Europa, Carlos Páscoa, em campanha entre os eleitores portugueses na Argentina para um quarto mandato nas eleições de 4 de outubro.

"Apesar de não ser a maior em quantidade, a comunidade portuguesa na Argentina é uma das mais participativas e inovadoras. Sempre que visito um clube ou vou a alguma associação aqui, vejo centenas de pessoas. No Brasil, por exemplo, com comunidades infinitamente maiores, vemos muito menos nos eventos", compara Páscoa. "Aqui são muito mais unidos e vivem muito mais a portugalidade", celebra.

"Temos duas dezenas de embaixadas aqui hoje", exaltou Páscoa em referência às representações portuguesas. No entanto, no evento oficial de Buenos Aires, foi notável a ausência do embaixador português na Argentina, Henrique Silveira Borges, por "outros compromissos", alegaram.

Márcio Resende

Impacto da Lei dos Netos

Primeiro signatário da chamada Lei dos Netos, que prevê a nacionalidade portuguesa para os netos de portugueses, Carlos Páscoa foi ovacionado por centenas de netos. "Basta você olhar ao seu redor e ver a quantidade de netos de portugueses para entender a importância dessa lei. Essa lei impactou muito na comunidade. É uma forma de os netos voltarem a ter essa conexão com Portugal e de manterem viva a nossa raiz. Se perdemos de onde viemos, não saberemos para onde vamos. É a nossa identidade cultural", festeja Maria Violante, presidente da Associação da Mulher Migrante e futura conselheira da comunidade.

Referente entre os portugueses na Argentina, Maria Violante é uma das melhores intérpretes do sentimento que move aqueles que deixaram Portugal, mas que se mantém ligados à cultura, mesmo que àquela da sua época, como um instinto imperioso de sobrevivência, como a bússola que lhes orienta o dia a dia tantas décadas depois.

"Nós sentimos Portugal de outra maneira. Quando se sente a partir da saudade, valoriza-se muito mais porque é o que não se tem e o que não se quer perder. Nós tentamos passar a cultura portuguesa aos nossos filhos, aos nossos netos e ao país que nos acolheu. Estamos sempre a olhar para Portugal. É a nossa referência e a nossa saudade", conta Violante quem chegou à Argentina há 52 anos, com 11 anos de idade.

Mas saudade não se mata nunca. Quanto mais o imigrante a tenta matar, mais a alimenta e cria um círculo virtuoso em que a vida se torna uma espiral que dá voltas e que evolui, como na dança do Mocidade Portuguesa a encerrar agora o evento, como na dança de toda a nova mocidade lusodescendente que se renova a cada geração, como na dança da vida dos portugueses nesta Argentina.

Márcio Resende

Retrato dos portugueses na Argentina

A comunidade portuguesa caracteriza-se por viver fora da capital argentina, espalhada pela região metropolitana de Buenos Aires, antiga área rural entre os anos 30 e 60, quando a imigração portuguesa teve o seu auge. A maioria veio do Algarve e do Minho, mas também da Beira Baixa e da Beira Alta. Dedicaram-se à floricultura, à agricultura e à fabricação de tijolos principalmente. Em Comodoro Rivadavia, na Patagónia, milhares foram atraídos pelo petróleo e chegaram a representar 20% da população da região até a década de 60, quando a onda imigratória interrompeu-se.

Até o final do século XIX, entre 40 e 60% das famílias na Argentina eram de origem portuguesa. Hoje, existem na Argentina cerca de 40 mil portugueses e descendentes. Estão inscritos na embaixada 19.206 cidadãos portugueses.