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Perdemos os nossos filhos para a Jihad. E queremos que o mundo inteiro saiba

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Imagens de aeroporto de três adolescentes britânicas em fuga para a Jihad

Um grupo de mães em luto pelos filhos anda a contar a sua experiência terrível - para que algo nasça dela

Luís M. Faria

Jornalista

“O Paraíso jaz aos pés da mãe”, terá Maomé dito um dia. O objetivo da frase seria dissuadir um partidário seu de abandonar a família para ir combater ao lado do Profeta. Agora, um grupo de mulheres volta a usá-la com um propósito semelhante. São mães que perderam os filhos na Síria e no Iraque e que contam o seu luto ao “The Huffington Post”. Jovens nascidos e criados em países ocidentais, com nomes como Lukas, Thom e Damian, tinham-se convertido ao Islão. Um dia, sem avisar, partiram para a Síria e o Iraque. Juntaram-se ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh) para combater os infiéis e perderam a vida nessa luta.

Sendo todos eles casos diferentes, revelam traços comuns. De modo geral, foram criados em famílias sem pai (ou onde este era uma figura ausente). Com frequência, sofriam de hiperatividade ou défice de atenção. Na adolescência, atravessaram um período turbulento, com transgressões que chegavam à pequena criminalidade. Um dia, alguém que já conheciam apresentou-lhes uma religião diferente. Acharam-na boa, converteram-se, passaram a andar certinhos. O que inicialmente facilitou a vida às mães.

Ter o filho livre das drogas ou do álcool, a trabalhar, tratando a progenitora com respeito… era quase um sonho. Mesmo a dedicação fanática ao boxe ou às artes marciais podia ser considerada positiva - ao fim e ao cabo, fortalecia a disciplina. Claro que aquela insistência em convencer os outros, ou a rejeição às vezes histérica de certos hábitos – por exemplo, o vinho às refeições – podia tornar-se inconveniente. Mas era um problema menor. As mães só começavam a ficar preocupadas quando notaram que o filho se isolava, já não falava com os amigos antigos, ou desaparecia de vez em quando.

Em busca dos olhos do filho

Num ou noutro caso, sobretudo quando havia uma visita dos serviços de segurança a avisar, as mães previam o pior e tentavam falar com os filhos. Mas já era tarde. Um dia, o jovem dizia que ia para o Egito estudar árabe ou, mais provavelmente, partia sem dizer nada. Meses mais tarde, contactava a mãe via internet para informar que se encontrava, por exemplo, na Turquia. Quase de certeza, já estava na Síria. A comunicação mantinha-se, intermitentemente, durante algum tempo, com súplicas de um lado e resistência intransigente (talvez desesperada, quem sabe) do outro. Até que um dia terminavam os chats, facebook, mensagens.

A mãe continuava a scanar os filmes do Daesh em busca do filho – por vezes, tentando reconhecer os seus olhos atrás de uma máscara. Mas só uns meses depois lhe chegava informação sólida, e da pior forma. Alguém lhe enviava uma mensagem a dizer que o jovem estava morto. Caído em batalha, executado (por Assad, pelo Exército Livre da Síria), vítima de uma bomba. Eventualmente, a notícia era acompanhada de uma fotografia gráfica, mostrando partes desfeitas do cadáver do filho.

Antes morrerem que voltarem

Quatro dessas mães têm aparecido publicamente a contar a sua história. Uma delas, Christianne Boudreau, é uma canadiana de Calgary. Fundou a uma organização para dar apoio a outras mulheres que possam estar em risco de vir a ter uma experiência terrível como a dela. Em fevereiro passado, foi contactada por uma dinamarquesa chamada Karolina Dam, igualmente vitimizada no seu filho pelo Daesh. A elas juntou-se uma norueguesa identificada apenas pelo primeiro nome – Torill – e depois outras.

O grupo de Boudreau, Mães pela Vida, trabalha em ligação com Daniel Koehler, um especialista em desradicalização que trabalha em Berlim e há muito lida com neonazis. O processo terapêutico – não será exagero designá-lo assim – é essencialmente o mesmo quando se trata de radicais islâmicos. Porém, uma coisa é reorientar os jovens quando ainda se encontram no seu país, outra bastante diferente, e muitíssimo mais difícil, é tentar fazê-lo quando eles voltam. Aliás, várias das mães que perderam filhos na Síria falam do desinteresse mostrado pelas autoridades dos seus países quando elas pediam ajuda. Chegam a dizer que preferem que aqueles jovens morram. Se voltarem, só vão dar problemas.

A carta aberta recentemente publicada por um grupo de mães oriundas de sete países e que se encontram de luto pelos filhos cita abundantemente o Corão. Alá impõe aos homens gentileza para com os seus pais, lembra a certa altura. Numa alusão à luta do Daesh por um califado, diz: “A tua mãe também lutou por justiça e honra, quando te deu vida, sofrendo feliz e lutando por ti através da dor (…) Isto foi, e é, a nossa Jihad, através do sacrifício e dedicação a ti”.