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Internacional

Uma catástrofe exemplar

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LARRY W. SMITH / EPA

O furacão Katrina foi há dez anos. Um dos maiores desastres naturais de sempre nos EUA, que pôs em relevo problemas sociais que há muito existiam em Nova Orleães. Devido à destruição, alguns começaram finalmente a ser tratados

Luís M. Faria

Jornalista

Quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleães em agosto de 2005 e se percebeu que ia ser um desastre de proporções extraordinárias – os diques construídos décadas antes eram inadequados para aguentar a força das águas; a cidade rapidamente ficou inundada – surgiu a inevitável ordem de evacuar. Harold Toussaint, diácono numa igreja frequentada pela comunidade negra, recusou partir. Entre os seus vizinhos, havia residentes idosos que há muito dependiam dele para coisas tão simples tão simples como ir buscar comida, ou visitar um hospital. Quem os ajudaria se ele fosse embora?

DAVID J. PHILLIP / POOL / EPA

Toussaint decidiu ficar, e acabou por estabelecer um centro quase governamental num prédio de sete andares onde se foram acolhendo pessoas necessitadas. No auge da catástrofe, Toussaint, com a ajuda de um ex-marine octagenário e a boa-vontade de um restaurante no quinto andar que tinha reservas de comida e um gerador que permitia cozinhar, foi alimentando, assistindo e até proporcionando cuidados médicos aos seus semelhantes. Ao fim de alguns dias, a guarda nacional apareceu para fazer cumprir a ordem de evacuação, e o diácono dirigiu-se-lhes para pedir auxílio. A reação deles foi apontar-lhe uma arma e ameaçá-lo de morte. “Senti que eram uma força de ocupação, não alguém que nos vinha socorrer”, explicou ele mais tarde.

A história de Toussaint é uma de muitas que ilustram os motivos por que o desastre natural de 2005 teve efeitos muito piores do que devia ter tido – ou, dito de outra forma, os custos dramáticos da desigualdade social. Uma parte substancial das 1245 pessoas que morreram viviam nas zonas baixas, mais expostas, da cidade. O próprio facto de muitos serem negros pobres poderá ter contribuído para o desastre não ser inicialmente levado tão a sério pelo Governo como o seria caso tivesse ocorrido numa zona próspera e maioritariamente branca – digamos, Orange County, na Califórnia. O menosprezo dos pobres fez-se ouvir de forma chocante quando a mãe do então presidente George W. Bush, falando dos evacuados da Louisiana que se encontravam abrigados no Superdome de Houston, no vizinho Texas, disse que eles estavam lá melhor do que tinham estado na sua terra antes de a tempestade os atingir.

JONATHAN BACHMAN / REUTERS

“Um trabalho do caraças”? Uma trapalhada completa

Essa declaração veio agravar a mancha enorme que Katrina já estava a deixar na imagem pública de Bush. Tinha sido ele a nomear pouco antes um tal Michael Brown, chefe do organismo responsável por lidar com esse tipo de emergências. Brown tinha pouca ou nenhuma experiência na matéria, mas Bush chegou a elogiar o “trabalho do caraças” (“a heck of a job”) que ele estava a fazer em Nova Orleães. Pouco depois, era obrigado a demiti-lo, perante a evidência inegável de descalabro. (Uns anos mais tarde, Brown acusou por sua vez o ex-presidente de ter subestimado completamente a situação, chamando-lhe ‘fratboy’ – membro de um daqueles clubes universitários conhecidos por brincadeiras parvas e grandes bebedeiras). O caso seria utilizado pelo senador Barack Obama na sua campanha presidencial de 2008.

Referindo-se aos efeitos do Katrina como exemplo daquilo a que a negligência social pode dar origem, Obama fez na altura uma série de promessas, sobre coisas tão diferentes como a reconstrução de infraestrutura, o estímulo à economia, e a reforma dos serviços sociais. Curioso é que muitas dessas promessas foram de facto cumpridas. Nova Orleães foi reconstruída, tem hoje uma economia florescente, e as suas escolas, reconstruídas segundo um modelo novo, são tidas por exemplares no país. O secretário da Educação, Arne Duncan disse mesmo que o Katrina foi “a melhor coisa que aconteceu ao sistema educativo em Nova Orleães”. A declaração não é de perfeito bom gosto, mas reflete um entusiasmo que está longe de se restringir a Duncan.

CARLOS BARRIA / REUTERS

Numa zona desde sempre marcada pela segregação racial e económica, permanecem sintomas graves, generalizados, de desigualdade. Porém, a situação geral não tem comparação com o que era antes. Na quinta-feira, Obama foi à cidade e fez um discurso onde elogiou a resiliência dos habitantes e criticou a resposta ineficiente do Governo à crise humanitária. O site da Casa Branca faz referência aos vários “parceiros” no esforço de reabilitação da cidade (cujo mayor, por sua vez, diz que ele tem sido “espetacular” com Nova Orleães desde o seu primeiro dia como presidente), mas não há dúvida que o Presidente vê aí uma parte importante do seu legado.

Katrina é considerado o desastre natural mais caro jamais sofrido nos Estados Unidos. Além dos mortos e feridos e das vidas arruinadas, estima-se um prejuízo financeiro na ordem dos 108 mil milhões de dólares. Esse furacão, que chegou a atingir uma velocidade de 280 quilómetros por hora, atingiu vários países, e vários estados dentro dos EUA. O agora candidato presidencial Jeb Bush, irmão do ex-presidente, tem-se vindo a auto-elogiar pela destreza com que ele próprio enfrentou a situação na Flórida, outro estado atingido, onde ele era governador. O risco é que as pessoas, ao ouvir o seu apelido, pensem antes no irmão...