Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Um bispo entre dois Papas. A morte de Wesołowski, julgado por pedofilia

  • 333

Josef Wesolowski, bispo acusado de pedofilia na República Dominicana, quando ali estava colocado como representante diplomático do Vaticano, morreu antes do seu julgamento ter terminado

Reuters

O primeiro bispo a ser julgado por pedofilia tinha 24 anos quando foi ordenado padre por Karol Wojtyła, o futuro Papa João Paulo II. A ascensão de Wesołowski terminou com a eleição do Papa Francisco que o destituiu da nunciatura na República Dominicana

Josef Wesolowski, que fora ordenado padre em Cracóvia por Karol Wojtyła, era um homem do poder e com poder. Um homem que julgou estar protegido pela imunidade diplomática, e que poderia abusar crianças sexualmente e passar impune. Durante anos, Wesolowski acreditou que a igreja católica iria continuar a silenciar e ocultar os crimes de pedofilia que aconteciam dentro dos muros da poderosa instituição do Ocidente, com dois mil anos de história.

Pouco depois do Papa Francisco ser eleito, a vida de Josef Wesolowski mudou; a 21 de agosto, Wesolowski foi afastado das suas funções de representante diplomático do Estado do Vaticano em Santo Domingo, por motivos que à primeira vista pareciam ser uma guerrilha política entre bispos europeus e latino-americanos.

A 2 de setembro, um trabalho da jornalista Nuria Piera revelava que Wesolowski fora afastado e mandado regressar a Roma por existirem acusações de pedofilia. Tinham terminado os dias impunes do polaco que nascera pouco depois do fim da II Guerra Mundial.

O papel da justiça

A 23 de setembro de 2014, a imprensa noticiou a prisão de Wesolowski. “Nunca se tinha visto um sacerdote, e muito menos um ex-núncio apostólico”, ser colocado em prisão domiciliária na sua residência no Vaticano, escreveu o jornal espanhol “El Mundo”: “Mas hoje isso aconteceu”, o ex-embaixador da Santa Sé na República Dominicana [entre 2008 e 2013] foi preso sob a acusação de pedofilia, depois de já ter sido obrigado a renunciar ao sacerdócio.

Frederico Lombardi, porta-voz do Vaticano, informava então que Wesolowski fora “preso de acordo” com as indicações do Papa argentino. Desde que fora eleito, em março de 2013, Francisco deixara claro o seu empenhamento e determinação no combate à pedofilia no interior da Igreja Católica. A detenção de Wesolowski foi a prova de que o Papa que veio de longe não estava nem está disposto a abrir mão dos princípios e vontade de renovar a Igreja.

O Papa Francisco prometeu um combate sem tréguas à pedofilia no interior da Igreja Católica

O Papa Francisco prometeu um combate sem tréguas à pedofilia no interior da Igreja Católica

Reuters

Cooperação internacional

No dia 3 de dezembro de 2014, Frederico Lombardi faz nova declaração sobre o caso aos jornalistas presentes na sala de imprensa do Vaticano; são palavras que confirmam a nova atitude da hierarquia da Igreja Católica sobre os clérigos pedófilos. Pausadamente, Lombardi anunciou que nessa mesma manhã, o “Promotor de Justiça do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano, Gian Piero Milan, tinha estado reunido com o Procurador-Geral da República Dominicana, Francisco Domínguez Brito, a pedido deste último”, lê-se no comunicado de imprensa então emitido.

A reunião entre os dois responsáveis realizou-se no “âmbito da cooperação internacional a nível dos órgãos de investigação para o processo contra Monsenhor Jozef Wesołowski, e foi útil para ambas as partes, dada a complexidade da investigação”, e a possibilidade de uma moratória internacional para aquisição de elementos adicionais por parte do Vaticano.

A agência Eclesia referia então que Lombardi revelara que o ex-núncio fora "autorizado a ter uma certa liberdade de movimentos”, mas com “obrigação de permanência dentro do Estado [do Vaticano]” e “limitação de comunicação com o exterior".

Hospitalizado na véspera do julgamento

Sábado, 11 de julho de 2015, era o dia marcado para o Vaticano dar início ao julgamento de Jozef Wesolowski; contra o ex-núncio da Santa Sé em Santo Domingo pendiam acusações de abuso de menores a troco de dinheiro e posse de material pornográfico. A primeira audiência deste processo histórico foi adiada porque o acusado não compareceu perante o tribunal do Vaticano. O clérigo polaco que iria completar 67 anos quatro dias mais tarde fora hospitalizado na véspera.

Esta semana, a 25 de agosto, o porta-voz Federico Lombardi, voltou a falar sobre Wesolowski. Na sexta-feira, 29, a agência de notícias do Vaticano noticiava que o ex-embaixador do Vaticano fora “encontrado morto” na sua residência no Vaticano. “As autoridades confirmaram que se tratou de morte natural”, mas o Promotor de Justiça “ordenou a realização da autópsia”.

Wesolowski morreu antes do seu julgamento estar concluído. Foi o primeiro bispo a ser detido por acusações de pedofilia, mas não será o primeiro a ser condenado pelos tribunais.