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Internacional

Um bispo entre dois Papas. A morte de Wesołowski, julgado por pedofilia

Josef Wesolowski, bispo acusado de pedofilia na República Dominicana, quando ali estava colocado como representante diplomático do Vaticano, morreu antes do seu julgamento ter terminado

Reuters

O primeiro bispo a ser julgado por pedofilia tinha 24 anos quando foi ordenado padre por Karol Wojtyła, o futuro Papa João Paulo II. A ascensão de Wesołowski terminou com a eleição do Papa Francisco que o destituiu da nunciatura na República Dominicana

Josef Wesolowski, que fora ordenado padre em Cracóvia por Karol Wojtyła, era um homem do poder e com poder. Um homem que julgou estar protegido pela imunidade diplomática, e que poderia abusar crianças sexualmente e passar impune. Durante anos, Wesolowski acreditou que a igreja católica iria continuar a silenciar e ocultar os crimes de pedofilia que aconteciam dentro dos muros da poderosa instituição do Ocidente, com dois mil anos de história.

Pouco depois do Papa Francisco ser eleito, a vida de Josef Wesolowski mudou; a 21 de agosto, Wesolowski foi afastado das suas funções de representante diplomático do Estado do Vaticano em Santo Domingo, por motivos que à primeira vista pareciam ser uma guerrilha política entre bispos europeus e latino-americanos.

A 2 de setembro, um trabalho da jornalista Nuria Piera revelava que Wesolowski fora afastado e mandado regressar a Roma por existirem acusações de pedofilia. Tinham terminado os dias impunes do polaco que nascera pouco depois do fim da II Guerra Mundial.

O papel da justiça

A 23 de setembro de 2014, a imprensa noticiou a prisão de Wesolowski. “Nunca se tinha visto um sacerdote, e muito menos um ex-núncio apostólico”, ser colocado em prisão domiciliária na sua residência no Vaticano, escreveu o jornal espanhol “El Mundo”: “Mas hoje isso aconteceu”, o ex-embaixador da Santa Sé na República Dominicana [entre 2008 e 2013] foi preso sob a acusação de pedofilia, depois de já ter sido obrigado a renunciar ao sacerdócio.

Frederico Lombardi, porta-voz do Vaticano, informava então que Wesolowski fora “preso de acordo” com as indicações do Papa argentino. Desde que fora eleito, em março de 2013, Francisco deixara claro o seu empenhamento e determinação no combate à pedofilia no interior da Igreja Católica. A detenção de Wesolowski foi a prova de que o Papa que veio de longe não estava nem está disposto a abrir mão dos princípios e vontade de renovar a Igreja.

O Papa Francisco prometeu um combate sem tréguas à pedofilia no interior da Igreja Católica

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Reuters

Cooperação internacional

No dia 3 de dezembro de 2014, Frederico Lombardi faz nova declaração sobre o caso aos jornalistas presentes na sala de imprensa do Vaticano; são palavras que confirmam a nova atitude da hierarquia da Igreja Católica sobre os clérigos pedófilos. Pausadamente, Lombardi anunciou que nessa mesma manhã, o “Promotor de Justiça do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano, Gian Piero Milan, tinha estado reunido com o Procurador-Geral da República Dominicana, Francisco Domínguez Brito, a pedido deste último”, lê-se no comunicado de imprensa então emitido.

A reunião entre os dois responsáveis realizou-se no “âmbito da cooperação internacional a nível dos órgãos de investigação para o processo contra Monsenhor Jozef Wesołowski, e foi útil para ambas as partes, dada a complexidade da investigação”, e a possibilidade de uma moratória internacional para aquisição de elementos adicionais por parte do Vaticano.

A agência Eclesia referia então que Lombardi revelara que o ex-núncio fora "autorizado a ter uma certa liberdade de movimentos”, mas com “obrigação de permanência dentro do Estado [do Vaticano]” e “limitação de comunicação com o exterior".

Hospitalizado na véspera do julgamento

Sábado, 11 de julho de 2015, era o dia marcado para o Vaticano dar início ao julgamento de Jozef Wesolowski; contra o ex-núncio da Santa Sé em Santo Domingo pendiam acusações de abuso de menores a troco de dinheiro e posse de material pornográfico. A primeira audiência deste processo histórico foi adiada porque o acusado não compareceu perante o tribunal do Vaticano. O clérigo polaco que iria completar 67 anos quatro dias mais tarde fora hospitalizado na véspera.

Esta semana, a 25 de agosto, o porta-voz Federico Lombardi, voltou a falar sobre Wesolowski. Na sexta-feira, 29, a agência de notícias do Vaticano noticiava que o ex-embaixador do Vaticano fora “encontrado morto” na sua residência no Vaticano. “As autoridades confirmaram que se tratou de morte natural”, mas o Promotor de Justiça “ordenou a realização da autópsia”.

Wesolowski morreu antes do seu julgamento estar concluído. Foi o primeiro bispo a ser detido por acusações de pedofilia, mas não será o primeiro a ser condenado pelos tribunais.