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A infidelidade exposta: o CEO roubado que queria roubar, danos imponderáveis e uns pozinhos sobre Portugal

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Chris Wattie / Reuters

O facto principal já tem uma semana, mas há desenvolvimentos novos quase diariamente. O ataque ao site de infidelidade Ashley Madison deixou quase 40 milhões de contas expostas naquele que já é considerado um dos maiores roubos de sempre no universo informático. As consequências começam a tornar-se incontroláveis e incluem notícias de mortes relacionadas com este caso. Uma empresa espanhola desenvolveu um mapa interativo que localiza geograficamente os utilizadores, incluindo a distribuição em Portugal, cidade a cidade

Luís M. Faria

Jornalista

O ataque informático ao Ashley Madison, o site canadiano que promove encontros extramatrimoniais, continua a dar que falar. Agora soube-se que Noel Bidermann, o seu fundador e CEO, tentou utilizar os emais dos utilizadores de um site rival. A revelação consta de emails trocados entre Bidermann e o responsável informático da Ashley Madison, Raja Bhatia, após este lhe ter comunicado que descobrira uma falha de segurança no sistema da empresa rival.

Bhatia invocou motivos de consciência para não ser ele próprio a roubar a informação – o facto de ser crime também poderá ter sido relevante –, mas, perante o entusiasmo do seu patrão, poderá ter-lhe dado as indicações necessárias para ele próprio o fazer. Entretanto, soube-se segunda-feira que pelo menos duas pessoas, talvez três, se terão suicidado por causa do hacking à Ashley Madison. Ao anunciar o facto como possível, a polícia canadiana não forneceu detalhes, mas pareceu sugerir que se tratava de pessoas ligadas ao ataque, não vítimas dele, como inicialmente se pensou.

Recordemos como tudo começou. Em julho, um grupo de hackers que se autodenominou “The Impact Team” anunciou que tinha obtido os dados de milhões de clientes do site. Ameaçou que os poria na internet se a Avid Life Media, proprietária da Ahsley Madison, não fechasse esse site e um outro que oferece serviços afins. A Avid não cedeu e na semana passada o Impact Team cumpriu a promessa, descarregando na internet cerca de 10 gygabites de informação.

A notícia correu mundo: dois dias depois do ataque inicial, o Impact Team voltou segunda-feira à carga, fazendo um segundo depósito de informação na internet. Foi quase o dobro do primeiro em volume, e agora não se trata apenas de dados sobre clientes. Também há emails do fundador da Ashley Madison e o próprio código que é utilizado nas aplicações da empresa. Se alguma dúvida restava de que os hackers entraram completamente no sistema…

No nosso país, o Porto é campeão

Entretanto, uma empresa espanhola chamada Tecnológica apresentou um mapa com a representação gráfica dessa informação. Uma notícia publicada no diário “El País”, que dá acesso ao mapa, fala em 39 milhões de clientes distribuídos por 50 mil cidades, em 48 países. No caso de Portugal, a distribuição por géneros segue as tendências gerais. Se globalmente 86,2% dos clientes da Ashley Madison são homens (a percentagem de mulheres é maior em países como a Índia, o Brasil e o Japão), há zonas portuguesas onde o desequilíbrio ainda é superior. Ficamos a saber, por exemplo, que há 96,88 % de utilizadores masculinos em Vagos, 96,97% na Caranguejeira, 94,52% em Viana do Castelo, 100% em Aljezur...

Obviamente, por razões de lógica, a percentagem de homens e mulheres que têm efetivamente encontros sexuais há de ser muito mais aproximada. Afinal, para cometer adultério é preciso ter com quem e o modelo do Ashley Madison não foi concebido para os gays. Falando em números de utilizadores, o Porto lidera com 7365, seguido de 1743 na Amadora. Em Almada há 1030, em Sintra 1045, em Canidelo 862, em Espinho 643. Os meros 284 registados para Lisboa desafiam a lógica e hão de exigir algum cuidado interpretativo. A que zona se referem exatamente?

O porta-voz da Tecnológica explica que a empresa não está a fazer nada de ilegal, pois não se trata de revelar nomes ou outra informação pessoal. “Limitamo-nos a estudar a informação e a comunicar proporções”, diz. “Nem sequer temos guardados na nossa página os perfis dos usuários.” Apenas é descrita e visualizada a geografia dos clientes, em abstrato. São Paulo é a cidade com mais utilizadores do site (374,544), seguida de Nova Iorque (268,247).

Consequências familiares e pessoais graves

MARK BLINCH / Reuters

Todos esses utilizadores e muitos outros veem agora os seus dados pessoais expostos. Há quem ache bem feito, mas isso é esquecer os dramas pessoais previsíveis, com consequências graves seja na esfera familiar (crises conjugais, divórcios, etc; milhares de inocentes, incluindo crianças, vão sofrer), profissional (o código de honra do exército americano, por exemplo, castiga severamente as relações extraconjugais e há muitos clientes que usaram emails de lá),ou até psicológica (revisitar momentos negros da vida que passaram há muito). Já para não falar do que lhes pode acontecer em países, designadamente muçulmanos, onde as transgressões sexuais têm penalidades que eventualmente se estendem à pena de morte.

A Ashley Madison oferecia aos clientes a possibilidade de apagarem os seus dados mediante o pagamento de vinte dólares. Agora eles descobriram – da pior maneira – que nada era realmente apagado do site (foi esse o motivo alegado pelos hackers para justificar o que fizeram: denunciar as falsas promessas da empresa) O embaraço vai ser grande, e em muitos casos injusto, pois boa parte dos utilizadores não chegou realmente a cometer adultério – basta ver o desequilíbrio de género acima referido. Apenas se registaram no site e tentaram arranjar parceiros adequados.

Quantos clientes vão agora pedir indemnização à Ahsley Madison, ainda não se sabe. Mas já são conhecidas pelo menos duas iniciativas judiciais de monta. No Canadá, uma ação judicial de classe – i.e. à qual se podem associar quaisquer vítimas – pede 760 milhões de dólares. E em Los Angeles, um homem não identificado interpôs outra ação do mesmo tipo. Um comentador notou que para muitas vítimas talvez não valha a pena tentarem ser indemnizados. Afinal, é bastante provável que o dinheiro acabe por ir parar às mãos das suas ou dos seus ex…