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Trump, o populista desbocado

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Donald Trump rodeado de fãs em Nova Iorque ergue o dedo em sinal de OK: por enquanto, tudo corre de feição

FOTO ABRENDA MCDERMIDA / REUTERS

Não gosta de imigrantes, exibe quanto dinheiro tem, e usa uma linguagem ofensiva. Faz sucesso nas sondagens e tem a simpatia de uma parte dos que detestam o ‘politicamente correto’

Rob Curran na Carolina do Norte, EUA

Donald Trump é um demagogo zangado perseguidor de imigrantes, que ostenta a sua riqueza e diz o que lhe vem à cabeça, por mais ofensivo que seja. São essas qualidades que explicam porque lidera a corrida pela nomeação do Partido Republicano para as presidenciais dos Estados Unidos em 2016.

Trump é a encarnação da fúria que muitos republicanos mais velhos sentem em relação à América do Presidente Barack Obama. “Ele não é presidenciável”, admitiu John Evanish, um médico republicano de meia-idade da Pensilvânia, que apoia Ben Carson. “Mas há por aí tanta zanga. Ele diz coisas que toda a gente pensa, mas cala... estamos tão fartos do politicamente correto!”.

Quando Trump lançou oficialmente a sua candidatura, em junho, os analistas políticos previram que o seu avanço precoce se desfaria tão rapidamente quanto o seu famoso penteado exposto ao vento. As ambições presidenciais de Trump já tinham fracassado antes. Em 2011, fora o porta-voz dos “birthers”, uma franja quase racista do Partido Republicano que tentou descredibilizar o Presidente Obama pondo em causa a sua cidadania americana. A veleidade de concorrer à presidência acabou por se tornar uma piada no discurso de Obama durante o jantar dos correspondentes na Casa Branca.

Isto provava, para os sábios de Washington, que Trump era demasiado incendiário para populista, demasiado insípido para político e demasiado insultuoso para entrar em debates. Não era possível manter o interesse inicial gerado pela sua fama. Como o próprio Trump diria: “Imbecis!”

Na sondagem nacional mais recente da CNN, Trump era escolhido por 24% dos potenciais votantes, deixando o seu rival mais próximo, Jeb Bush, a 11 pontos percentuais, com 13%.

Uma minoria barulhenta

O tempo também está do lado de Trump. Os poderes fácticos do Partido Republicano encolheram o calendário neste ciclo de eleições primárias. Para evitar a disputa arrastada pela nomeação que, dizem alguns, enfraqueceu Mitt Romney em 2012, a direita americana obrigou muitos estados a realizar as eleições em fevereiro e março. A convenção do partido foi antecipada para meio de julho, quando em 2012 se realizou em agosto.

O avanço de Trump está longe de ser inabalável, diz ao Expresso Paul Collins, cientista político e diretor de Estudos Jurídicos na Universidade de Massachusetts. “O que se passa é que ele tem o apoio de uma minoria muito barulhenta que está farta da política do costume na América”, explica Collins.

Mesmo na sondagem da CNN, 60% dos eleitores dão nota negativa a Trump, nota Collins. E a taxa de popularidade é a variável que os cientistas políticos observam para calibrar a vastidão dos apoios de um candidato.

Hoje como em 2011, Trump é um candidato de uma causa só. A única posição política que divulgou diz respeito à imigração. E é assustadora, leva a paranoia do movimento “birther” mais longe, entrando na xenofobia. Trump não só promete construir um muro ao longo da fronteira sul como garante que fará o Governo mexicano pagá-lo, ou congelará as remessas dos imigrantes mexicanos. Também propõe rescindir o “direito de nascença” à cidadania, a ideia de que qualquer pessoa nascida na América é americana, um conceito consagrado na 14ª adenda à Constituição. Trump chegou a sugerir que o Supremo Tribunal — guardião da Constituição — apoiaria a sua ideia.

“A ideia de que a 14ª adenda é inconstitucional é ridícula”, diz Collins. “Até um miúdo de dez anos sabe que a Constituição não pode ser inconstitucional.” A política de deportação de Trump afetaria 11 milhões de imigrantes e “criaria uma catástrofe no sistema judicial”, afirma Collins, acrescentando: “Nem temos juízes que cheguem para levar a cabo tal política.”

Quando vi Trump no debate da Fox News, a 6 de agosto, ouvi a voz irada dos eleitores republicanos que conheço da minha vizinhança no Texas. São pessoas que espumam de raiva quando falam da reforma do sistema de saúde ou da lei do casamento homossexual. São pessoas que têm saudades da agitação de George W. Bush nos palcos internacionais e odeiam Obama por ter suavizado o poder do país.

Sem papas na língua

Os outros candidatos, do desajeitado e polido Jeb Bush ao excitado Ted Cruz, do Tea Party, declamaram a liturgia eufemística do dogma republicano. Se Cruz disse que não haveria “amnistia” para os imigrantes clandestinos, Trump afirmou que “temos de manter os ilegais lá fora”. Ambos namoraram o terreno anti-imigração, mas Trump fê-lo sem papas na língua.

Muitos republicanos estão entusiasmados com a vontade de ofender de Trump. Falei com pessoas que têm a opinião cínica de que toda a gente tem preconceitos e que são fúteis as tentativas de legislar contra a discriminação. Ficar ofendido perante comentários sexistas ou racistas é, sustentam, ser mais um membro titubeante da “polícia do politicamente correto”

Foi por isso que a maior ovação do debate de 6 de agosto surgiu quando Trump respondeu a uma pergunta da moderadora Megyn Kelly sobre afirmações ofensivas suas acerca de mulheres, insultando a apresentadora de televisão Rosie O’Donnell. Foi por isso que a prestação de Trump nas sondagens melhorou, em vez de piorar, quando se recusou a pedir desculpa a Kelly, a O’Donnell ou ao povo do México. Na opinião destes eleitores, pedir desculpa é próprio dos fracos. Os vencedores não pedem desculpa.

Muitos dos votantes republicanos que conheço também apreciam a mundivisão de Trump, com a divisão entre “vencedores” e “derrotados”. Encaram o seu êxito financeiro como prova de que venceram o jogo do capitalismo, seja como for que tenham ganho o dinheiro. São os vencedores. Os que lutam por chegar ao fim do mês com o salário mínimo, ou que dependem das ajudas do Estado, são os derrotados. A riqueza é, aos olhos desses republicanos, uma virtude. Essas pessoas ficam horrorizadas por Barack Obama ter tido empregos modestos antes de ocupar altos cargos políticos.

Para muitos eleitores republicanos, faz todo o sentido que Trump refira insistentemente os seus milhares de milhões de dólares como medida da sua superioridade perante os demais candidatos. Há uma longa tradição de celebridades dos ecrãs e empresários na política americana. Num país tão grande, ter um “nome conhecido” é uma enorme vantagem, afirma Collins. O homem que Trump espera imitar é Ronald Reagan, que usou os seus dotes de representação e o seu rosto familiar para convencer a nação de que era o homem capaz de enfrentar o “Império do Mal”, ou seja, a União Soviética. Só não afastava o eleitorado como Trump faz ao insultar mulheres e latinos. Os dislates de Trump trouxeram-no até aqui, mas pode muito bem deitar tudo a perder.