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Sobrevivente dos atacantes do Charlie Hebdo processa os media franceses

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Em alguns quiosques, o "Charlie Hebdo" esgotou em menos de dez minutos

YOAN VALAT/EPA

Designer gráfico de 27 anos acusa as televisões e rádios de terem posto em risco a sua vida ao divulgarem, em pleno ataque à grafica em Dammartin-en-Goële, que um homem estaria escondido no interior do armazém

Passavam dois dias dos ataques ao Charlie Hebdo, quando os dois supeitos do tiroteio se barricaram numa gráfica no arredores de Paris. Foi a 9 de janeiro. Nesse dia, Lilian Lepère esteve oito horas em posição fetal escondido num armário debaixo de um lavatório. Não foi encontrado e a partir interior conseguiu comunicar com a polícia.

Se do lado de dentro ninguém sabia da sua existência, cá fora não acontecia o mesmo. Os orgãos de comunicação publicaram que haveria uma pessoa escondida dentro do edifício. Agora, Lepère vai processar as televisões e as rádios francesas acusando-os de terem colocado a sua vida em risco.

Mas recuemos aos acontecimentos de 9 de janeiro. Os irmãos Saïd Kouachi e Chérif Kouachi, presumíveis autores do ataque, entraram num armazém de uma gráfica na zona industrial de Dammartin-en-Goële, nos subúrbios de Paris, e estavam armados.

Assim que o dono da gráfica se apercebeu da situação, avisou o seu funcionário, Lilian Lepère, para se esconder. Foi o que o designer gráfico de 27 anos fez. Meteu-se dentro de um armário, por debaixo do lavatório. Ficou encolhido e às escuras durante mais de oito horas. Não se mexeu.

“Um dos atacantes abriu um armário ao lado daquele em que eu estava escondido e que não tinha nada de especial lá dentro. Estava a 50 centímetros de distância. Pensei que iriam verificar tudo. Ouvi a água a correr mesmo por cima da minha cabeça porque a tinha encostada ao lavatório. Vi a sua sombra pela pequena ranhura da porta, por onde entrava um pouco de luz... foi um momento surreal. Era exatamente como um filme”. Esta foi a descrição de Lepère à France 2, recuperada agora pelo “The Guardian”.

Lá dentro, não existia. Cá fora, o mundo já o conhecia

Rapidamente as autoridades chegaram ao local e com elas as televisões e as rádios francesas. Enquanto Lepère tentava desesperadamente não denunciar a sua presença, do lado de fora as televisões France 2 e a TF1, bem como a rádio RMC revelavam ao mundo que haveria alguém escondido dentro do armazém e que estaria em contacto com as autoridades. E, entretanto, a informação era confirmada por um vereador de Dammartin-en-Goële, Yves Albarello.

Lilian Lepère, que acabou por conseguir fugir quando a polícia invadiu o edifício, vai agora processar os meios de comunicação pela revelação, acusando-os de terem posto a sua vida em risco. As autoridades francesas já anunciaram que vão investigar o caso, segundo o "The Guardian".

Em paralelo a esta investigação foi aberta uma outra relativa à cobertura mediática dos órgãos de comunicação franceses. Desta vez, em causa estão as revelações dos media sobre o ataque à mercearia judaica, que decorria em simultâneo ao ataque à gráfica.

História repetiu-se...

Durante as operações para pôr termo aos ataques, uma repórter do canal BFMTV anunciava: “Há uma pessoa, uma mulher, que poderá estar escondida num frigorífico desde o início do ataque. Provavelmente ainda lá está”. E realmente havia, mas não era só ela.

Na cave da mercearia um grupo de pessoas escondeu-se no frigorífico. A mulher em causa estava com o filho bebé. Estiveram escondidos quatro horas de joelhos e a tentar entreter a criança para que não fizesse barulho.

O grupo escondeu-se após Amedy Coulibaly ter entrado no local com uma kalashnikov. Matou quatro pessoas e fez vários reféns durante quatro horas.

Segundo o “The Guardian”, em fevereiro, o regulador de transmissões francesas censurou formalmente algumas das principais rádios e televisões nacionais devido à cobertura que foi feita dos ataques ao Charlie Hebdo, à gráfica e à mercearia, nos quais morreram 17 pessoas.

O regulador acusava os órgãos de comunicação de mostrarem um plano aproximado dos irmãos Kouachi mortos e de já antes terem revelado a sua identificação, apesar de um pedido das autoridades para que isso não fosse feito. Ainda no caso da BFMTV, o regulador teceu ainda críticas por divulgarem que estaria alguém escondido num frigorifico quando ainda decorria o ataque à mercearia.

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